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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"Ninguém me cutuca" ou "como usar o Facebook"

Saramago em "A viagem do elefante"

"(...) uma vaca se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha, a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, ao fim dos doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais. (...)"

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O grande saltador.

Sai pra caminhar dia desses e sentei-me numas pedras à beira mar. O vento era ameno e de calmo, quase não havia ondas no mar. De repente, daquela imensidão escura salta um pequeno peixe fazendo uma curta peripécia no ar para novamente mergulhar no silêncio. E de uma coisa assim simples me ocorreu uma série de pensamentos e paralelos; de onde ele veio e pra onde foi? Do mar seria a resposta óbvia. 

Claro, eu não pensava mais naquele peixe em específico, mas no paralelo com as nossas vidas. Em como ela pode caber dentro de um curto espaço de tempo, em que emergimos do nada, criamos nossa própria peripécia e sumimos no silêncio novamente. E no arco que compomos nessa trajetória do momento em que nos tornamos visíveis no nascimento até nosso fim, ocorre-me que é dele que tiramos todas as nossas conclusões sobre o que veio antes e o que virá depois. 

Apesar de existir pessoas que afirmam conhecer o que chamam vidas passadas, é fato que nenhuma delas pode provar o que quer que aleguem, e o argumento da experiência pessoal é inútil nesse caso, como demonstra uma visita a qualquer hospício mais próximo. Uma vez mais, não custa lembrar que acreditar no que achamos que somos nada tem a ver com o que somos de fato. 

A maioria das religiões concentram-se no depois, mas com histórias tão desprovidas de evidências quanto a do papai noel.  E como, em ambientes desprovidos das luzes e efeitos especiais fica impossível demonstrar que alguém já voltou efetivamente para dizer o que quer que seja, ficamos assim com esse nosso estrito lampejo de consciência que temos e chamamos vida. Tomamos consciência dela em plena manobra e nossa experiência comparativa demonstra através de quem nos precedeu que nosso tempo aqui não é nada mais que isso; um lampejo.

Sem saber se existiu um antes, e pior ainda, se existirá um depois, não foram poucas as pessoas que usaram a nossa curiosidade a esse respeito como base para o controle e o domínio de uma massa de semelhantes pela ferramenta mais poderosa nesse caso: o medo, puro e simples. Assim, poucas pessoas controlam através de preceitos discutíveis, o comportamento de uma gigantesca quantidade de pessoas, que muitas vezes alegremente abrem mão da própria paz nesse nosso curto "vôo no ar" em favor de uma promessa feita com base em nada.

Mas, até que se prove o contrário (o que eu não apostaria), esse salto é tudo o que temos. É nele que nos conhecemos indivíduo; tomamos conhecimento dos outros, somos crianças, meninas e meninos, adultos e anciões. É nele que nossa vida se completa em contato com outras vidas e estabelecemos nossas relações; amamos, odiamos, e respiramos para também sermos amados e odiados; choramos e rimos, em proporções diferentes às vezes. Nesse espaço de tempo, somos livres, pois voamos sem amarras, embora tenham nos feito acreditar no contrário por tempo demais. Somos seres independentes, paradoxais porque em constante construção intelectual, mas ao mesmo tempo, acabados e dotados de todas as ferramentas para atingi-la desde nosso nascimento; como Saramago diz, nosso cérebro é de tal ordem que leva tudo dentro. 

Algumas pessoas realizam saltos prodigiosos e inscrevem-se decisivamente na história dos que lhe são próximos e o observam. Esses permanecem vivos na memória dos que o acompanharam, e sua lembrança perdura por muito tempo, mesmo quando sua presença não é mais que um traço no passado distante. Alguns aproveitam a luz do sol que os banha por um curto período e brilham ainda mais, tocando as pessoas à sua volta com uma luz ainda mais terna e precisa. E tal como as estrelas, sua luz continua brilhando mesmo quando a sua fonte parece ter se apagado. Gestos como esse são mais que suficientes para fazer toda essa aventura incerta e desconhecida ter valido à pena.

Então faça dessa sua trajetória o que lhe apetecer. Realize que você é livre, e será. E acima de tudo, aproveite o seu salto.

Grande abraço.


Em memória do Milton, um dos maiores saltadores que conheci.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Contrapontos

Acordei inspirado. Clicando aqui e ali, dei de cara com isso:

"A maior aventura de um ser humano é viajar,
E a maior viagem que alguém pode empreender
É para dentro de si mesmo.
E o modo mais emocionante de realizá-la é ler um livro,
Pois um livro revela que a vida é o maior de todos os livros,
Mas é pouco útil para quem não souber ler nas entrelinhas
E descobrir o que as palavras não disseram..."

Isso é, como não poderia deixar de ser, Augusto Cury. Mas, como eu disse, estava inspirado e normalmente assim, meu humor está em alta. Resolvi dar um voto de confiança e fui clicando em textos aleatórios até achar um que me dissesse algo.
Encontrei esse:

"O homem não consegue ficar de mãos abanando, contemplando o seu destino neste mundo, sem ficar desvairado. Por isto inventa formas de tirar sua mente deste horror. Trabalha, diverte-se. Acumula aquele grotesco nada, chamado propriedade. Persegue aquela piscadela esquiva da fama. Constitui uma família e dissemina a sua maldição sobre ela. E, todo o tempo, a coisa que o move é o desejo de se perder de si mesmo, de se esquecer de si mesmo e de escapar à tragicomédia que é ele próprio. Fundamentalmente, a vida não vale a pena ser vivida. Assim, ele cria artificialidades para fazê-la parecer que vale. E também por isto erige uma espalhafatosa estrutura para esconder o fato de que ela não vale."

Isso é H.L. Mencken, me lembrando do quanto é importante termos a palavra negro após a palavra humor. E lembro de ter pensado "eu tentei, Augusto... eu tentei". A diferença principal entre esses escritos é que no primeiro caso, temos o que eu chamo às vezes de literatura água com açucar. Você termina de ler e está exatamente como estava quando começou, só que mais entediado. A tautologia, o raciocínio circular, a rima fácil, os jargões banais sobre a vida, etc. por outro lado, o segundo texto trás algo que incomoda, ou desassossega para citar Fernando Pessoa (de cuja frase título esse blog usa, aliás). A vida não vale a pena ser vivida? Como assim? Se é assim, porque o escritor se dá ao trabalho de estar escrevendo? Mais do que isso, porque estaríamos nós aqui então? Você vai com o senso comum quando diz que a vida é o maior de todos os livros, mas considerar que ele ainda assim pode estar em branco na sociedade em que vivemos exige uma mente robusta pra não ficar achando Mencken um pessimista paranóico e sem sentido.


E ocorreu-me agora que a diferença básica na linguagem de cada um está ironicamente contida no texto do outro; a "viagem" que Cury propõe como maior aventura representa bem esse desejo de perder-se de si mesmo e escapar da tragicomédia que somos, especialmente para os que pautam seu comportamento por palavras de ânimo como algumas pessoas tanto parecem precisar ("você é especial", "o universo conspira ao seu favor", etc.). Ler as estrelinhas de Mencken, por outro lado, não é fácil fazê-lo e dá trabalho, mas nada seria mais útil em nossa futilidade contemporânea.

Brainstorm...1.

Às vezes eu fico tentado a publicar nesse blog posts somente sobre música, que é a minha vida. Mas então, eu penso na vida em si. E penso que a compreensão da música como fenômeno ou mesmo atividade passa pela compreensão do que a vida é. Mais do que isso, a própria natureza da expressão artística engloba compreender o que somos e onde vivemos.

Um exemplo disso é o espectro visível das cores. Observe essa figura.


Nela estão contidas as cores que podemos enxergar a olho nu. Isso que dizer que esse é um pequeno extrato de um continuo maior, e que para além de um extremo e do outro da barra não conseguimos ver. Termos como ultravioleta e infravermelho (grifos meus, obviamente) refletem frequências além desses extremos, e que são, por isso mesmo consideradas invisíveis.


Agora, quer uma coisa pra ficar pensando? Durma com isso: nada tem cor por natureza. Tudo o que vemos, seja uma pintura (um Rembrandt ou o desenho do seu sobrinho de dois anos, tanto faz), uma laranja, um carro, a palma da sua mão; nada disso tem cor por si. Tudo isso absorve determinadas faixas de frequencia da luz que incide sobre ela e reflete uma; essa é a cor que vemos. Isso quer dizer que basta você virar o rosto e sua bela cozinha de granito, mármore e o diabo "perde" todas as características visuais que podem ter lhe feito ficar horas escolhendo no catálogo.

Mas é mais do que isso: quer dizer que todo nosso esforço para ser compreendido em termos de textura (como no caso da pintura e escultura) usa meios que contraria nossa intuição, porque é dificil imaginar que um quadro cujo pintor passou semanas escolhendo cuidadosamente as relações de cor, "perdem" imediatamente essas características assim que alguém tira a vista dele. Agora, o que isso quer dizer? O que expressar-se através de materiais e texturas que podem ser tão relativisadas na visão de cada um diz sobre o que somos?

Não tenho certeza sobre isso, mas parece-me que tudo o que vemos são tentativas de tentar entender o que compõe esse nosso mundo. Cores "frias", "quentes", "profundas", etc, nada mais são que meios fisicos limitados que servem como a porta de entrada da nossa imaginação para essa incrível busca do que somos.

sábado, 6 de agosto de 2011

Comerciais...


Ser filha da puta é...



"Procurando por algo pra apimentar sua vida?"


"Selecione um papel maior!"

Carlos Drummond...

...e sua eterna capacidade de expressar o que penso, mas dito de forma muito, mas muito melhor...


"Casa


Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.

Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.

E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.

Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto…
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.

A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.

Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…

Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar."

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Barro...

Catei do Bule

Swingle Singers... o grupo na sua melhor forma.

1812 de Tchaikovisky 



Abertura da Flauta Mágica, Mozart


Saudades de Jobim...

... mas do Tom, não do Nelson, por favor!



Ler as entrelinhas pode ser uma tarefa dificil, mas é um exercício necessário, especialmente para quem não se acha com vocação para peão de manobra ideológica. E se você nunca se perguntou como um ministro do primeiro escalão do governo se presta ao papel de fuxico infantil sobre a professora que o deixou de castigo, então pode estar na hora de exercitar mais.

Pense comigo: se você está descontente com a escola onde trabalha, o que você faz? Vai à rádio da cidade e fala mal da administração do prefeito ou do cabelo que a secretária de educação usa (ainda que em off)? Claro que não. A não ser que essa fosse sua intenção, você seria fuzilado pela maré de diz-que-me-disse. Agora, imagine se você não é só um professor municipal, mas um advogado, ex-deputado federal, ex-ministro, ex-ministro da Corte Suprema e ministro da Defesa; o que você acha que aconteceria?

O cenário político se desenha de forma aparentemente casual na mídia, mas não tenha dúvidas: ele é cuidadosamente orquestrado. Ou surpreendeu alguém que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT) era (e convenhamos, ainda deve ser) uma farra de licitações fraudulentas e sem outro fim que o desvio do dinheiro público? Ora, basta andar pelas ruas da sua cidade. Mas, de repente, a "bomba" estoura. E os autores da matéria e da repercussão dela são provavelmente os mesmos que vivem o dia a dia no planalto em Brasília, engafinhados entre jantares e conversas informais. Então eu sei disso, você sabe, mas eles não?

Com a faxina feita no ministério dos Transportes, deixou de ser notícia; perdeu força. Basta correr os olhos nas notícias atuais para saber qual a real intenção por trás dessa manobra aparentemente tola: munição nova na manga de uma oposição política que beira o limiar da tolice. Álvaro Dias, líder do PSDB no Senado, diz que a escolha do substituto de Jobim, o ex chanceler Celso Amorim, foi escalar zagueiro pra jogar de centro avante. César Guerra, presidente nacional do mesmo partido, disse que a escolha foi indequada. O portal da Veja publica quase diariamente uma nova matéria enviesada sobre isso. E o quase inexistente deputado baiano ACM Neto renasceu das cinzas por breves instantes para tecer um comentário risível sobre a demissão do ministro ter sido motivada por ele ter tido uma posição ideológica.

A pergunta nem precisa ser feita, mas lá vai: se a experiência internacional que Celso Amorim adquiriu vivenciando situações de guerra in loco não se compara em nada que qualquer outra pessoa teria no Brasil, e se mesmo especialistas afirmam que ele não terá problemas no comando da pasta, porque deveríamos nos interessar pela opinião do senador Álvaro Dias, César Guerra e seus cosanguíneos? Pra mim, quando leio isso, sinto que minha rotina altera-se tanto quanto ler sobre a 'polêmica' entre Fred e os membros da torcida organizada do Fluminense, ou sobre a "revelação" das primeiras exigências de Britney Spears em sua (muito aguardada por mim [ironic mode on] ) vinda ao Brasil. Pertencem à mesma categoria.

Os militares, por outro lado, e para usar um dito gaúcho conhecido, "sentaram no patê". Com a polêmica sobre a revelação pública dos arquivos da ditadura, ter um ministro que se identifica com causas humanitárias pode até não dar em nada, mas me diverte imaginar os generais de pijama em casa choramingando em telefonemas noturnos se seu rosto vai aparecer no jornal do dia seguinte. Numa opinião pública tão frágil de julgamento, é irônico vê-los tentar em vão vender o absurdo gritante de que é justo anistiar não só o perseguido, mas também o carrasco. Mas isso é outra história...

Pra mim, Jobim já vai tarde. Mas o Nelson, não o Tom, por favor!!

domingo, 24 de julho de 2011

Incrível... para encerrar o fim de semana.

Esqueça a afinação dos coralistas e jeito meio vacilante da orquestra; se possível, procure não reparar demais na qualidade do vídeo também. Para o que quero demonstrar aqui, atenha-se apenas ao conceito. O vídeo a seguir é de uma orquestra venezuelana. Mas não uma orquestra qualquer; é uma orquestra presidiária! Isso mesmo, um grupo musical formado por presidiários... dá pra imaginar isso aqui no Brasil? É claro, por que não?


Me lembrei de passagem de uma cena no filme "Um Sonho de Liberdade", que se passa numa prisão e o personagem principal dribla a segurança e põe nos altos falantes do lugar uma ária qualquer. A execução nem chega ao fim, porque arrombam o lugar e levam ele, mas nas palavras de um amigo seu, eles não tinham a menor idéia de quem cantava, mas era como se por um breve momento um pássaro de luz tivesse adentrado o ambiente da cela escura e tocado cada um deles. E naquele instante, era como se todos fossem livres.


Enfim, nessas horas eu sinto um puta orgulho de fazer o que faço.

Boa semana a todos...

Coisas de campanha...

Vi muita gente que admiro falar bem de José Serra na campanha para presidente ano passado. Um dos muitos vídeos veiculados por ele tentava mostrar como seria o Brasil desse ano de 2011 em diante.

Compare o quanto dele se tornou verdade; e note a estratégia barata e rasteira de alguém que queria ser presidente de um país tão grande como o nosso.



Relacione as colunas...



      
  ( 1 )        
                  (   ) Indivíduo           
                         temeroso e 
                         confuso


                   (   )  Pensador livre
  ( 2 )        





Readaptei do Ateu.net.

Sobre a morte de Amy Winehouse

Esse vai ser rápido. Só passei pra registrar essa publicidade sobre a morte de Amy Winehouse e as reações histérico-verbais de alguns que vi e li. Lembram do Michael Jackson? Estuprador de crianças, racista (por ter vergonha da própria cor e mudado-'a') e mais um monte de adjetivos. E quando morreu? Bom, foi imediatamente santificado pela mídia (a mesma que o condenava diariamente) e pelas pessoas cuja opinião se baseia nessas publicações. Era "o maior artista do século"...

Com a cantora inglesa ocorre o mesmo. Enquanto escrevo ainda não se sabe a causa da morte, mas isso não interfere em nada do que vou dizer. Permanecendo bêbada e drogada a maior parte de seu tempo, ela protagonizou aparições públicas patéticas; esquecendo letras que nada tinham de complexas (vide Rehab) em pleno palco, ela beirava o limiar do insuportável com uma pronúncia arrastada e mal articulada, constrangendo os músicos que a acompanhavam e irritando as pessoas que a admiravam. Suas qualidades são um fato, mas sua postura não só desperdiçou seu talento nato e um timbre vocal invejável, mas a relegou àquela posição de mito contemporâneo, do artista inconformado e incompreendido, mas acima de tudo profundamente infeliz.

Não fosse sua fama anterior, qualquer pessoa lúcida iria querer seu dinheiro de volta ao pagar uma fortuna para ver isso: 



Acompanho agora os comentários mais apaixonados e encharcados de uma admiração que parece ter sido insuflada instantaneamente, tal como ocorreu com Michael Jackson. Bom, talvez isso demonstre no fundo o caráter supérfulo e banal com que a vida humana é encarada na nossa cultura tão midiática. A conversão imediata de uma boa cantora que beirava o limite da incapacidade de gerir a própria vida em um status de diva parece-me um sintoma disso.

Mas para deixar as coisas toda na perspectiva correta, termino dizendo que eu gostava de muitas das coisas dela; só acho que ela transformou-se, por seu mérito e esforço pessoal, numa sombra de si mesma. Eu encerro com a mensagem de Aretha Franklin, de "uma pequena prece mental por vc". Não por acaso, minha escolha recai na cantora negra genial natural de Memphis-Tenesse nos EUA, que venceu o racismo com sua voz marcante. Ela teve e tem uma vida longa para poder ver seu nome ser inscrito no hall da memória como uma das nossas maiores cantoras, e colhe os frutos disso em vida através de [só!] 19 prêmios Grammy, por exemplo.


sábado, 23 de julho de 2011

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Beethoven's salsa

A quinta sinfonia na leitura sensacional de Sverre Indris Joner.


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Michael Shermer no TED

Preciso, direto e embasado.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Hélio Leites: a máquina que pisca, ri e chora...

Mais uma evidência que comprova: cada ser humano é um universo.




segunda-feira, 18 de julho de 2011

Livros, cabras e profetas...

Quanto vale o conhecimento? Quão preciosa é a informação que ilumina nosso caminho, nos afasta da barbárie, nos permite uma convivência mais pacífica e com menos hipocrisia e intolerância? Para mim, esse tipo de informação não tem preço. Ele não devia ser negado a quem quer que fosse. Pelo contrário, ele devia ser incentivado, distribuído; devia estar disponível a todo indivíduo desde a sua infância mais tenra.

Vi recentemente o filme Ágora, que narra os eventos que cercaram a destruição da biblioteca de Alexandria no Egito no contexto do século IV. Escrito por Alejandro Amenábar e Mateo Gil e dirigido pelo primeiro, ele tem entre outros atores, Rachel Weisz no papel da filósofa Hipátia. Antes de mais nada, devo dizer que é uma experiência perturbadora quando penso a respeito... e a fotografia perfeita, que realça nosso mundo esférico girando no espaço visto de cima ao som das pessoas alegando as coisas mais bizarras em contrário acentua esse caráter.

Apesar das concessões dramáticas em favor da narrativa, o filme baseia-se em eventos reais, amplamente documentados. O cristianismo, recém tolerado pelo império com a conversão de Constantino, rapidamente passa a ver como um insulto à sua crença a presença das demais; sua ira se volta contra a cultura dos que chamavam pagãos, e da qual a grande biblioteca era sua máxima expressão. Numa revolta que não tardaria, o caldeirão alimentado pela fé cega faz marchar uma turba desordenada pelos seus corredores e instalações, destruindo e incendiando tudo pelo caminho. Hordas de analfabetos desprovidos de qualquer acesso à mínima informação, ostentavam cruzes e aos berros, transformaram o maior centro de conhecimento do planeta anotações minuciosas e conclusões que demandaram séculos de pesquisa e pensamento investigativo em cinzas. É sintomático que essas mesmas pessoas tenham transformado o local num estábulo para cabras...

Num movimento que só recrudesceria cada vez mais, o cristianismo parte do princípio que a sua suposição de mundo é a única real, não deixando alternativa aos que não acreditam; e vai tomando conta de toda a vida social, depondo governos e impondo uma hegemonia que culminou no que é conhecido hoje como Idade Média ou ‘das trevas’. Seu monopólio era tal que suas normas regiam todos os aspectos da vida social, mantendo o povo convenientemente na ignorância. Eu tenho vontade de rir cada vez que ouço alguém falar que a Igreja foi a forma de manutenção, através de seus escribas, de pensadores e culturas anteriores.

“Fazemos cumprir a palavra de deus”. Quantas vezes na história ainda veríamos esse mesmo tipo de argumento oco e banal, que por ser desprovido de qualquer evidência real, tinha de ser repetido e repetido ao nível da exaustão, imposto sem questionamento por meio da força coercitiva e colocando convenientemente os que se opunham como inimigos não deles, mas de seu próprio pseudo-criador em pessoa. A autoridade dos que alegavam não só que havia um criador como conheciam os seus desígnios era absoluta, em épocas que, usando um eufemismo macabro, você podia ser convidado para um churrasco e ao chegar no local, descobrir que o assado seria você.

Caminhamos muito e realizamos proezas em favor da nossa civilidade; provamos que a terra era redonda, não importa quantas pessoas fossem torturadas. Mostramos que o cozimento de pessoas vivas em óleo não faria a terra voltar a ficar estática no espaço, nem sua órbita ser redonda. Menos ainda que estacas enfiadas ao som do murmúrio das orações do carrasco devolveriam ao nosso pequeno mundinho o status de centro do universo. Demonstramos que mulheres não são uma sub-espécie, nem negros, nem judeus... mas somos uma espécie que tem sérias dificuldades em aprender.

Homoafetivos vivem hoje a mesma bizarra luta pelo direito simples de existir que qualquer um desses, e o argumento dos intolerantes continua sendo tão infundado quanto dos nossos primórdios, em que visões de estrelas, animais de barro e loucos no deserto ditavam o consenso.

A ignorância que se perpetua, não importa o que façamos. Nosso caráter falho e aleatório demonstra a facilidade com que a mente sucumbe às suas limitações mamíferas. Nossa história é, em resumo, um balanço entre o direito das minorias de existir quando a maioria gostaria de bom grado de fechar seus olhos às suas presenças.

No mundo moderno, em que criamos uma sociedade com altíssima tecnologia, com prédios, aviões, internet e sabe-se lá o que mais a seguir, ainda somos por dentro tão frágeis e crédulos quanto nossos antepassados. Ainda tememos os profetas com mensagens convenientemente (para eles) apocalípticas, do paternalismo autoritário e senil de alguém que tudo vê, nada faz, mas a todos pode condenar.

Mas isso, claro, são os pensamentos da vala comum, dos anônimos nas massas do dia a dia, que com razão não tem tempo para pensar na efemeridade da vida (quem teria mal tendo o que comer?). Os próprios tais profetas devem saber (se não forem tão ingênuos) que eles são simplesmente mamíferos que passam adiante a retórica que lhes permite distinção, admiração, favores especiais, e que isso nada tem a ver com a realidade em si. Queimar livros não é uma tentativa de discordância com o que se julga falso, mas uma forma de impedir que outras pessoas vejam a falácia em que se encontram.

Quão preciosa é a informação que ilumina nosso caminho, nos afasta da barbárie, nos permite uma convivência mais pacífica e com menos hipocrisia e intolerância? Para mim, esse tipo de informação não tem preço.