Tem gente que usa muitas cordas pra nada...
Enquanto outros, só precisam de quatro pra fazer acontecer...
Mais de Botswana aqui.
domingo, 4 de dezembro de 2011
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Valdemiro e a cara de pau sem fim
Com vocês, o comediante da igreja que é um deboche a qualquer pessoa de raciocinio mediano...
E aqui, alguns da bancada evangélica fazendo pose e dizendo bobagem ao lado de quem? Ele, é claro... "a maior autoridade hoje reconhecida"...por quem é inteligível.
E aqui, alguns da bancada evangélica fazendo pose e dizendo bobagem ao lado de quem? Ele, é claro... "a maior autoridade hoje reconhecida"...por quem é inteligível.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Minha Dissertação de Mestrado: Fantasia Sul América para Clarineta Solo de Cláudio Santoro.
Definitivamente, nossas ferramentas de compartilhamento de informações melhoram a cada dia. Ainda lembro de uma época em que tínhamos de pedir cópias pelo correio a um custo alto e sob pena de não ser algo que você realmente estivesse interessado.
Os tempos são outros...
Bom, durante os anos de 2006 a 2008, estive cursando o mestrado em execução musical na clarineta em Salvador-BA, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Meu tema foi sobre uma obra importante para a clarineta mas ainda pouco estudada até então: a Fantasia Sul América para clarineta solo de um dos grandes compositores brasileiros, Cláudio Santoro.
Aproveitando esses meio de divulgação, e do fato de algumas pessoas me pedirem pra enviar a minha dissertação, estou disponibilizando ela abaixo. Pode ser lida online mesmo, basta clicar em "Expand".
Fisioterapia para músicos
Apesar dos músicos atuarem profissionalmente há muito tempo, ainda divulga-se pouco sobre os cuidados com o corpo nessa atividade que exige um esforço repetitivo altíssimo pela própria natureza da prática. Pois bem, clicando aqui e ali topei com esse livro sobre fisioterapia para músicos, que pode ser lido online (basta clicar em "Expand") e trata, como uma linguagem clara e direta, de algumas das nossas características e problemas. Achei bem bacana.
Boa leitura.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
O foco é (e sempre foi) você.
Para quem estuda um instrumento musical, não são poucas as indagações, seja sobre a própria profissão em si, seja sobre aspectos técnicos do fazer musical ou mesmo filosóficos do porquê fazer. Nesse sentido, embora correndo o risco de parecer simplista já que todo músico tem seus próprios dilemas e demônios para contornar, acho que algumas questões são recorrentes e podem ser encontradas em nove de cada dez músicos. Dentre elas, o caráter competitivo obviamente destaca-se, e não é difícil perceber porque.
Ao concorrer a um cargo qualquer, normalmente os critérios de escolha são baseados em audições públicas, que tentam dar conta de avaliar um processo criativo individual da forma mais imparcial possível. Embora as características de cada um sejam levadas em conta, não digo nenhuma novidade ao afirmar que a banca já tem seus próprios critérios que o candidato deve satisfazer. Concepções individualizadas demais são desfavorecidas em prol daqueles músicos que apresentam idéias (sejam elas quais forem) mais coerentes do ponto de vista do ouvinte ali sentado, banca ou não. E, seja como causa ou consequencia, assim formam-se o que chamo de cânones da interpretação, que nada mais são que parâmetros escolhidos arbitrariamente e que passam a ser aceitos por uma comunidade de intérpretes/ouvintes.
Não cabe aqui explorar em que medida isso acontece, mas eu gostaria de me debruçar um pouco sobre os efeitos negativos dessa atitude. Encontrei muitas vezes colegas estudantes frustrados porque se propuseram a um perfil profissional sem compreendê-lo em profundidade. Muitos deles replicam o repertório do instrumento sem uma reflexão mais séria sobre o do porquê fazer, e a balança é definitivamente desequilibrada quando os objetivos limitam-se a executar as obras de maior dificuldade técnica, algumas uma verdadeira provação. E, quase sem perceber, temos uma massa de estudantes de música que replicam os cânones estabelecidos e relegam sua própria criatividade a um segundo plano.
Talvez esse seja um dos problemas pouco fomentados pela academia, embora qualquer pessoa concorde que há obras fundamentais para a criação e o desenvolvimento de um currículo em um instrumento musical. Meu problema não é com esse currículo mas com a forma de abordá-lo. A carga de informação nesses casos é grande, e os campos de estudo que a atividade musical gera só aumentam a cada dia. As conexões entre a música, seus processos de ensino e de performance, bem como a sua compreensão envolvem áreas tão distantes quanto complexas, sendo a didática, a neurologia, a acústica, a filosofia, a história e a anatomia somente algumas delas.
Bach (sério, ao lado), Vivaldi, Brahms, Mozart, Beethoven, Stravisnki, Debussy, Berio, Nielsen e Puccini são nomes que pincei aleatoriamente; todos são grandes compositores que cada, um a seu tempo, compuseram narrativas e estruturas geniais, obras que não por acaso figuram em programas de concerto do mundo todo. Mas, e aqui vai a pergunta central, eu preciso executar um concerto de Nielsen, por exemplo, para ser reconhecido como músico "sério"? Executar bem essas obras deve ser uma condição para que eu seja aceito pelos meus pares? Não são essas obras elas próprias ápices da manifestação de um processo criativo? E se for assim, não perco boa parte da desse processo ao transformá-las em cotas de produção que devem ser cumpridas?
Antes de mais nada, ninguém deve nada. É fato que às vezes nos sujeitamos a repertórios em processos de formação, quando nos submetemos à audições e mesmo na rotina de grupos profissionais de música como bandas e orquestras. No entanto acho importante que mantenhamos acesa lá no fundo aquela chama da curiosidade inicial que nos fez buscar o instrumento como meio de expressão. A experimentação, a pesquisa sobre o que fazemos, as dúvidas sobre o contexto inicial em que cada obra dessa foi produzida, o do porquê devo tocar desse ou daquele jeito; são todos aspectos que, muito mais do que ampliar os horizontes da profissão, permitem uma realização mais completa do indíviduo em si.
Com isso em mente, ir a um master class ou tocar em uma audição pública não deve prioritariamente ser encarado como se o que você está fazendo é bom ou ruim em relação ao outro. O outro não importa muito quando seu maior oponente é você mesmo. É perceber que foram suas pernas que te trouxeram até ali, diante daquele professor e platéia, para executar a obra de alguém, ela própria uma remissão a um contexto específico. Em que medida esse contexto dialoga com o momento em que você toca diz muito mais sobre você mesmo do que sobre a peça. Por isso, um instrumentista não é só mais uma peça nesse conjunto, especialmente pra ele próprio.
As dificuldades de qualquer execução devem ser associadas sempre com o objetivo mais amplo da sua satisfação pessoal em transmitir ou recriar idéias de outras pessoas, desse ou de outros tempos. O que professores e outros estudantes fazem é dar suas próprias impressões sobre o processo. Mas é essencial que você se pergunte o tempo todo o que te move nessa direção, para não acordar num lampejo diante do público perguntando-se o que está fazendo ali tocando uma peça que te diz muito pouco. Acho que você deve se ver como um impulsionador; alguém cujo objeto de estudo é levar adiante as suas melhores idéias, especialmente num mundo onde se diz tanta tolice.
Não quero, entretanto, dizer com isso que se deva ignorar o que se sabe. Nem tampouco que você passe a cochichar um mantra repetindo "eu sou especial; eu sou importante; o universo conspira a meu favor"; nada disso, embora você provavelmente seja especial para alguém. O que proponho é um exercício para reestabelecer suas prioridades em relação ao que estuda e faz, considerando obviamente que você que lê é um musicista.
Porque, no fim, é disso que se trata. Tocar Beethoven ou Stravinski não é um favor para eles; é pouquissímo provável inclusive que eles estejam vendo isso. Também não é para o seu professor, que já tem uma carreira consolidada. Em última instância, é um processo que fala sobre o que você quer dizer; você artista, você criador. Livre das amarras do que a tradição diz que é porque é, é comum começar a sentir o gostinho da realização plena chegando, onde Mozart, Pixinguinha, Nielsen e as canções que sua mãe cantava na infância servem todos a um propósito maior que a mera repetição; servem para a sua satisfação plena como pessoa humana.
Bach: "aqui pro ceis..."
domingo, 13 de novembro de 2011
Sobre Manaus e Imaruí...
O blog de Luis Nassif publicou hoje uma matéria de sua autoria intitulada "Primavera em Manaus". Dividida em sete capítulos, ela narra como a truculência e o coronelismo ainda dominam as relações políticas em nosso país. Uma médica grávida de oito meses perseguida sem cessar por um radialista patético porque ousou protestar contra uma taxa de coleta de lixo. Essa história infame é a faceta visível de um esquema mais profundo que mescla apadrinhamento político, favorecimento ilícito e até pedofilia.
A matéria é estupendamente bem escrita e demonstra, passo a passo, como o radialista Ronaldo Tiradentes e seus comparsas achacam os que ousam pensar que são livres em terra de tiranos.
Seguem os links:
A Primavera de Manaus
Twitteiros versus coronéis da selva.A fonte de poder dos coronéis regionais.
As primeiras represálias ao movimento.
O radialista que amava Roberto Carlos.
A invasão do posto de saúde.
A suspensão com base em um documento falso.
O terror no jogo político do Amazonas.
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Esse tipo de acontecimento expõe a real situação em que vivemos; ele demonstra que o sistema político que temos é fruto direto da nossa atitude como pessoas sem consciência do que é um sistema democrático. A esse respeito, lembro de uma frase de George Carlin, um grande humorista norte americano que já estrelou outros post aqui no blog. Segundo ele, tendemos a pensar que políticos são criaturas diferentes so que somos, que se materializam em nossa realidade vindas de um outro lugar, como uma outra espécie.
Não são.
São pessoas como eu e você, que elegemos para nos representar, embora não seja difícil demonstrar como essa representação é fraudulenta (porque não funciona) e, ao mesmo tempo, justificável. Conheço muitas pessoas que falam demonstrando conhecimento dos desmandos na política. Porém, muitas delas parecem no fundo lamentar não ser elas e estar lá, fraudando, recebendo sem trabalhar... enfim, não me espanta que sejamos governados por imbecis.
Imaruí - Os fatos sobre a capital nortista me fizeram lembrar da minha cidade ao sul de Santa Catarina. A "pequena jóia" (que é como a chamamos) foi mais um dos tantos redutos espalhados pela país governados por clãs familiares durante boa parte da sua história e que distribuíam migalhas como se fosse banquete aos miseráveis. Fazendo o mínimo do que deveriam mas alardeando como se fosse um favor, eles posavam numa clara atitude paternalista, favorecendo correligionários e sufocando as vozes discordantes.
Num lugar desses, se você não é da "situação" vê seus direitos se esvairem na sua cara, as portas se fechando nos momentos mais inusitados e pelos motivos mais absurdos; eu mesmo fui preterido em no mínimo três oportunidades diferentes de trabalho por pessoas claramente menos qualificadas, mas que eram conhecidos de pessoas ditas influentes.
Em matéria do Diário Catarinense (23/10/11, pág. 10) sobre a polêmica aposentadoria em massa dos funcionários da Assembléia Legislativa de SC em 1983, há um texto sobre Imaruí que apenas ratifica o que todos que moram ou moraram lá sabem: se não for "carneiro", esqueça. Assim era como chamávamos os que se beneficiavam do esquema. A matéria informa que o sobrenome Bittencourt pairou incólume na administração da cidade de 1930 a 1996 (com pausas para aliados de outros sobrenomes, o que dá no mesmo).
E embora seja ruim só a concessão do beneficiozinho aqui, o jeitinho ali aqui, o problema é mais profundo. O pior é o sistema viciado que criou pessoas com um sistema moral parcial e que não via nada de errado no fato do seu filho ser indicado sem lisura alguma ao que quer que fosse, e muitas vezes à revelia das suas escassas capacidades. E na tentativa de manter o que julgavam um direito adquirido, vi muitos amigos em contendas banais, infantis e sem fundamento. Os "carneiros", sem ter do que rotular os outros, resolveram chamá-los de "porcos", talvez sinalizando que o quinhão deles deveria ser as sobras. E assim seguiram, como numa fazenda, degladiando-se por quem tinha mais espaço no cocho.
Campanhas eleitorais eram uma época triste; amigos por anos a fio dividiam-se em dois times como torcidas fanáticas disputando o que julgavam a cereja do bolo. Ânimos inflamados, fogos de artifício no telhado alheio, a desgraça de sempre.
Mas cidades como Imaruí não são únicas e pipocam no interior do Brasil, em situações que variam de mais brandas a muito mais críticas. Esses pequenos feudos terminaram criando massas de pessoas sem consciência política adequada, divididos quando deveriam estar unidas pelo bem comum, sorrindo orgulhosos quando conseguem lamber os farelhos no tapete sem saber que pagaram a conta pelo banquete completo...
sábado, 12 de novembro de 2011
Stephen Hawking no documentário "Curiosidade"
São quarenta minutos que você não perde, investindo em si mesmo. Sem comentários.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Caminhando... sempre.
De pé e caminhando... porque o ato de andar fortalece a caminhada.
Mas é preciso estar atento para evitar o ritmo frenético; não cair na tentação de seguir a manada que corre desordenada e sempre atrasada... para o quê, raramente se perguntam.
Assim eu cruzo meus dias nesse mundo, buscando a serenidade me preparando pra guerra.
Com a sensação que devo continuar, não importa o que aconteça... e assim eu faço.
Defendendo a utopia que é possível amar sem pedir nada em troca. E amo minha mulher, minha vida...
Amo meu filho que ainda não nasceu, meu pai que já se foi... duvido que qualquer um deles possa me ver agora, mas eu sei que ambos vivem em mim porque sou a ponte que os conecta. Pra que um dia um saiba da existência do outro, não apenas de ouvir falar, mas que possa desenvolver seu potencial para o desenho, a caligrafia, o grande coração...
Penso que o mundo não me tem em conta; já estava aqui antes de mim, estará depois.
Nada disso foi planejado pra mim, mas ainda assim, sou parte disso; era parte antes, serei depois.
Não espero recompensa por nada, e não acho que alguém me vigie...
Evito o mal porque é a coisa certa a ser feita; para que esse mundo seja melhor para a infinidade de pessoas que estão por vir e ser também eles, senhores de si mesmo, como eu sou.
Mas é preciso estar atento para evitar o ritmo frenético; não cair na tentação de seguir a manada que corre desordenada e sempre atrasada... para o quê, raramente se perguntam.
Assim eu cruzo meus dias nesse mundo, buscando a serenidade me preparando pra guerra.
Com a sensação que devo continuar, não importa o que aconteça... e assim eu faço.
Defendendo a utopia que é possível amar sem pedir nada em troca. E amo minha mulher, minha vida...
Amo meu filho que ainda não nasceu, meu pai que já se foi... duvido que qualquer um deles possa me ver agora, mas eu sei que ambos vivem em mim porque sou a ponte que os conecta. Pra que um dia um saiba da existência do outro, não apenas de ouvir falar, mas que possa desenvolver seu potencial para o desenho, a caligrafia, o grande coração...
Penso que o mundo não me tem em conta; já estava aqui antes de mim, estará depois.
Nada disso foi planejado pra mim, mas ainda assim, sou parte disso; era parte antes, serei depois.
Não espero recompensa por nada, e não acho que alguém me vigie...
Evito o mal porque é a coisa certa a ser feita; para que esse mundo seja melhor para a infinidade de pessoas que estão por vir e ser também eles, senhores de si mesmo, como eu sou.
domingo, 6 de novembro de 2011
terça-feira, 30 de agosto de 2011
A despedida...
Tantos anos na empresa o tinham feito esquecer-se do quanto dela esteve presente em sua vida. Em seu último dia, ele foi recebido no portão como de costume; passe privilegiado, a saudação habitual. Com a documentação assinada, ele caminhou lentamente pelos prédios e viu pessoas nos afazeres do dia a dia; afazeres que se algum dia foram seus, hoje fazem parte do seu passado e lhe são completamente alheios. A visão de lugares ali o fez lembrar de situações que viveu, com seus altos e baixos. Os momentos afloram indo e vindo na memória com aquele local como palco; tantas alegrias e as incontáveis vezes em que seu riso correu solto contrastam com algumas das grandes decepções que teve, os dias mais sombrios...
Mas ele sequer pensa nisso agora. Seus passos já vão longe e o vemos caminhando indo rever os colegas que com ele trabalharam e lhe organizaram uma despedida singela mas sincera. Ali despediu-se de algumas das melhores pessoas que já teve o prazer de conhecer em toda vida, muitos dos quais desconhecem seu verdadeiro potencial, como elefantes que cresceram amarrados a um cepo sem poder se soltar, e quando adultos, mesmo atados a cadeiras, desistem de tentar a liberdade.
O dia já ia adiantado, o sol caminhava para o poente. Apesar de todos os passos terem sido feitos, parecia faltar algo. E antes que seu pensamento realizasse, seus pés já estavam a caminho do lugar. Encontrou o garoto no local de sempre, usando óculos e aparelho, sempre lendo mas, por sua ingenuidade, sempre alvo de gozações dos demais. Apesar disso o outro nunca se zangava e respondia com um sorriso estampado. Todas as vezes que trabalharam juntos, o garoto sempre lhe tinha sido solicito, reservado e responsável. Mas, além disso, seu interesse por leitura fez com que ambos compartilhassem quase sempre boas conversas que o destacaram dos demais. Agora já diante dele, entendeu a mão e disse "estou indo embora, passei para me despedir". O sorriso e a interjeição de surpresa foram a resposta, com um "puxa, fico feliz". "É", voltou ele, "passei para dizer também que continue assim, que estude, que busque o seu melhor... se houvessem mais pessoas aqui como você, minha vida teria sido muito melhor aqui dentro". A surpresa tornou-se emcabulação, e o garoto sempre alvo de risos teve seus olhos rasos d'água por um instante pelo reconhecimento assim direto. Despediram-se, ele saiu dali e deu uma última olhada em tudo, nas coisas e pessoas banhadas pelo sol amarelado do poente e disse consigo "é isso, está feito!".
Entrou no carro, girou a chave e conduziu lentamente em direção ao portão. Não havia saudades, nem tristezas, nem receios e seu rosto estampava um leve sorriso. Passou pelo portão pela última vez como um empregado respeitável do local. Se alguma vez tiver que voltar ali, será como um anônimo sem quaisquer privilégios, nem ser chamado de senhor, e cuja identificação não será diferente de qualquer passante que queira entrar. Mas nada disso desfaz o sorriso insistente nos lábios.
De carona no carro, levava apenas um leve receio, que no entanto, desceu na primeira curva logo após o bambuzal e dali observou o carro acelerar mais e mais, como o sorriso que se abria no rosto do condutor, e sumindo no horizonte juntamente com a última réstia de sol. Estava feito, e nada podia pará-lo.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Os "deixa disso"
Basta um rasante por nossa história para constatar que a contemporaneidade de cada época é marcada entre outras coisas, pelo embate entre o novo e o velho, o inovador e o mais do mesmo. No outro post, falei sobre minorias e seus direitos ou a ausência deles, melhor dizendo (as mulheres não eram necessariamente minorias em todos os casos, mas vivam como uma delas). Ocorreu-me que em todo esse tempo que falei, não faltaram os canhotos que se resignaram a inverter a duras penas sua programação genética pedindo aos outros canhotos que se acalmassem, afinal "qual era o problema?" Também não devem ter faltado pessoas em regime de escravidão dizendo que pelo menos tinham o que comer, ou mulheres como respeitosas donas de casa criticando a vizinha que usa cabelo curto, fuma ou vive só.
Essas pessoas não mudam a sociedade; são do mesmo gênero dos "deixa disso" que tanto presenciei em minha vida na escola e tanto azia me deram e dão ainda hoje. Aqueles que não podiam ver uma briga que queriam separar dizendo "gente, o que é isso?", mas eram incapazes de dirigir uma palavra punitiva ao provocador inicial. A essas pessoas, pouco importa que haja pessoas descontentes e sofredoras nesse mundo, ou se importa, melhor não pensar a respeito; o que as leva às lágrimas é a contenda, a briga, ver o estouro da manada. Pessoas de raciocínio raso, que adoram auto-ajuda adocicada, religiões conformadoras, leem o "Segredo", repetem "se deus quiser" o tempo todo como remédio para as frustrações. Esse pensamento parte sempre do mesmo princípio: evite o conflito. Então, não são elas o motor de mudança social. Elas são o status quo.
Frequentemente, as pessoas preocupadas em manter o status de uma época incorrem em erros grosseiros ao enquadrar minorias como um ultraje. Agora, junte dois dos aspectos que mencionei antes (mulher e negra, no caso) e você terá o coquetel explosivo que mais mexe com a imaginação e a criatividade do preconceituoso, ou se preferir (eu prefiro) aquele que passará para a história como um testemunho da mais completa imbecilidade de sua época. Observe a imagem a seguir.
A menina negra ao centro é Elizabeth Eckford e essa foto foi tirada no seu primeiro dia de aula numa escola de ensino médio no estado de Arkansas nos Estados Unidos em setembro de 1957. Ela foi um dos primeiros nove estudantes negros aprovados numa escola "branca". Ela se desencontrou dos outros e acabou tendo de caminhar sozinha até a escola, e foi cercada por outras alunas que julgavam aquilo um absurdo. Nascida em 1941, Elizabeth não contava com mais de meros 16 anos; uma menina, pura e simplesmente, cujo ato ergueu atrás de si uma muralha de mal amadas raivosas (não se engane com aquela da direita; ela foi quem resgatou-a da multidão).
Agora olhe novamente as expressões na foto. Pode olhar, eu espero.
Poucas pessoas hoje em dia conseguem olhar essa foto e não ver a desproporção das forças medidas e simbolizadas nela; eu diria que seríamos unânimes em considera-las um absurdo. Mas claramente esse absurdo não ocorria às pessoas que achacavam feito hienas a menina.
Hoje, cada vez que vejo manifestações contrárias ao direito de minorias, imagens como essa me vem à cabeça. E não tenho dúvida que o pensamento mesquinho dos que hoje condenam sem quaisquer critérios vão fazê-los passar à história tal como foram as pessoas em volta de Elizabeth: covardes.
O que não falei antes sobre a foto do fotógrafo Will Counts é que sua repercussão foi absurda. Pois é, quem diria que um momento onde as pessoas achavam-se no "direito de manifestação" para não serem 'sufocados' pela "mordaça de raça" que os terríveis negros estavam impondo à sociedade ia ser captada e transformada num ícone mundial contra a intolerância?
E acabou que foi. Sabe aquela baixinha bocuda que vai atrás de Elizabeth na foto? Seu nome é Hazel Bryant.
(E sim, eu espero você olhar outra vez).
Olha ela aí, quarenta anos depois tendo de pedir desculpas publicamente à menina que só queria estudar.
Ela era uma adolescente também na época. Mas isso não justifica a atitude covarde que teve, com reflexos presumíveis em toda a sua vida ("você é neto daquela racista que xingou a menina do Arkansas?"). Tá aí um bom recado aos homofóbicos de hoje: continuem assim e quem sabe não teremos um de vocês expostos e famosos dessa forma daqui a alguns anos também?!
"Evangelicofobia", "orgulho hétero" e outras merdas
Os movimentos da humanidade na sua história são geralmente descontinuados e aleatórios. É possível ver isso nas contendas locais que ocorrem e quase não repercutem em nenhum outro lugar. Entretanto, de tempos em tempos, algumas dessas contendas ganham contornos maiores e mais amplos, seja porque dizem respeito a direitos fundamentais dos seres humanos como um todo, seja porque a conjuntura social e política de uma época possibilita essa manifestação. O fato é que vozes discordantes sempre existiram e chocaram-se no ar; seja pela suas insitencias, seja por uma feliz coincidência, os maiores avanços da nossa civilidade vieram quando essas vozes descontinuadas se uniram em torno de causas comuns.
Como exemplo, interlocutores da Idade Média eram pródigos em afirmar que ser canhoto era uma aberração que contrariava as leis de deus. Era escrever com a "mão errada" e não foram poucas as pessoas que nasceram, viveram e morreram nesse nosso mundo a se adaptar a uma condição tao absurda quanto a uma pessoa com os dois pés aprender a pular num só. E isso era impetrado pelas famílias, pais e mães, aos seus filhos, pelas escolas aos seus alunos, pelas cidades aos seus indivíduos. Demoramos muito tempo pra nos livrar desse engodo, e em muitos lugares, mesmo depois de provado o absurdo que representava esse pensamento, ainda perdurou por muito tempo.
Na próxima, foram os escravos. O ato vil até então praticado por todas as civilizações antigas estourou em movimentos abolicionistas em todo o mundo ao longo do século XVIII e XIX (sendo o Brasil um dos últimos a adotá-lo, a propósito). De novo, isso era reflexo de pessoas acreditando firmemente que tinham o sagrado direito de possuir outra como propriedade, seja porque eram inferiores sob seus próprios e equivocados critérios, seja porque a leitura da biblia na época autorizava (uma leitura literal dela ainda 'autoriza'). Pessoas boas e decentes sob quaisquer outro critério não viam nada demais em cumprir o que chamavam de vontade de deus nesse quesito, inclusive não poupando a correção merecida no tronco daqueles ingratos que recusavam a boa vida de pão e água nas suas masmorras a céu aberto. E de novo, mesmo depois da idéia inicial ter se mostrado vergonhosa à nossa espécie, foi preciso muito tempo para que a maioria se convencesse do absurdo. Desnecessário dizer que alguns ainda não se convenceram.
O céu das mulheres, por outro lado, demorou um pouco mais a se abrir. Foi preciso esperar até o século XX, quando a revolução industrial e científica já tinham dado passos consideráveis para que a mulher tivesse direito a voto, pudesse construir sua independencia financeira e um destino diferente da dona de casa como sombra do marido, com infinitas obrigações mas poucos direitos. Não foram poucos os homens a chiar com as primeiras 'revoltosas', acusando-as de destruidora de lares, vagabundas e tudo que é coisa. Também nesse caso, a biblia dizia e legislava sobre o homem ser a "cabeça" do lar, então qual era o problemas delas afinal? Porque desestabilizar a sociedade que julgavam perfeita?
"Mas isso era o pensamento da época", me dizem alguns. "Hoje em dia não fazemos mais isso". "Além do mais", prosseguem os mais entusiastas, "essa leitura era equivocada". Bom, se você se prende pelos atos em si, claro, não discriminamos mais os canhotos, nem admitimos a escravidão como forma de vida aceitável. Além disso, apesar do humor covarde que tenta desmerecer a mulher através da caricatura fácil e estúpida, as mulheres ganharam espaço considerável em nossa sociedade moderna. Mas, e isso quero sublinhar efusivamente, se tivemos esses avanços, não foi porque as crenças da época levaram a uma melhora no comportamento, e sim, a crítica aos que sem evidências aceitáveis, imputavam aos outros suas próprias crenças. Não foi a religião, mas a sociedade laica que trouxe consigo a efetiva idéia (para alguns, absolutamente surpreendente) que basta você se colocar sob a perspectiva de uma dessas minorias pra saber que tem algo errado.
Por outro lado, basta você focar no modo operante do raciocínio nessas épocas e vai perceber que a história é cíclica.
Nos tempos atuais, vivemos situação semelhante com a aceitação dificil mas necessária dos homossexuais na sociedade. As igrejas continuam fazendo o que sempre fizeram, ditando "a vontade de deus", propagando a "calamidade e abominação" do que não concordam. E os religiosos que perderam o espaço que tinham quando a igreja dominava o estado, resolveram se organizar em bancadas "evangélicas" (seja lá o que diabos isso é) e através de uma estratégia estúpida, mas organizada, difundir na população carente de tudo que o deus que acreditam está horrorizado com a atitude das mulheres e homens porque estão seguindo o instinto que, pretensamente, ele os dotou.
Se bato continuamente nessa tecla é porque quero pontuar nesse meu espaço minha indignação com a covardia dessa atitude. Com gente de má fé, com propósitos espúrios, que transferem aos seus fiéis seus medos, receios, maldade e insegurança. Mas essa insegurança e essa má fé também são extensíveis às pessoas em geral que compactuam com isso. Àquelas que negam seus filhos, vizinhos e amigos pela opção sexual sem sequer se dar ao trabalho de pensar no absurdo que isso é; àqueles que choram copiosamente porque o mundo não é como eles queriam e isso quer dizer que é pior. E, àqueles que, acostumados a discriminar sem ser importunado, criam agora o termo "evangelicofobia" para confundir o sentido dos rasos de raciocinio.
Nada mais estúpido, nada mais descabido. E somente esse pensamento doentio pode aceitar um dia de "orgulho hétero", como se houvesse um real "perigo iminente" à "família e aos valores". Isso é colocar como iguais o capitão do mato que bateu a vida toda a largas braçadas com o escravo que, cansado disso, num dia apanhou o chicote e arrebentou a fuça do outro. De novo, e de novo, as pessoas com esse preconceito arraigado pela ignorância buscam desesperadas um bastião de trazer a razão para o seu lado da forma mais infantil, que é acusando o outro daquilo que mais cometeu: a destruição do nosso senso crítico e da capacidade das famílias de discutirem sensatamente suas diferenças sem dogmas ou condenações.
Liberdade aos diferentes, sejam canhotos, negros, mulheres e homossexuais, sempre incomoda aos incapazes de brilhar por conta própria. Será isso inveja da purpurina nas suas manifestações, do sorriso leve de quem vive a vida como gosta e não como os outros ditam?
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Hugo Chavez e a imprensa
Meio amalucado, com pouco gosto para suas aparições, simplista e um pouco prepotente, Chavez seria minha melhor opção se o cargo fosse um comandante militar ou coisa que o valha; nunca para presidência.
Mas a justiça tem de lhe ser feita: sua imagem aqui é pintada como um lunático ditador e isso parece carecer de fatos. Ele não renovou a concessão pública ao funcionamento de uma tv venezuelana e sua fama de censura é alta aqui. O que não se noticia é que essa mesma tv armou uma tentativa de golpe contra ele. E depois, longe de fechar a empresa com aparato militar como fazem crer alguns noticiários, ele deixou de renovar a concessão, o que é, convenhamos, bem diferente.
Abaixo dois vídeos exemplares de como pensa o presidente da Venezuela, por suas próprias palavras.
Aqui ele responde a um entrevistador do programa Roda Viva.
E aqui a um repórter da Fox News norte americana (que Barak Obama chama de um partido disfarçado de tv). Não achei as legendas em português e sequer em espanhol, mas essas em italiano devem quebrar nosso galho latino.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Manuel Bandeira em "O último poema."
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Saramago em "A viagem do elefante"
"(...) uma vaca se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha, a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, ao fim dos doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais. (...)"
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
O grande saltador.
Sai pra caminhar dia desses e sentei-me numas pedras à beira mar. O vento era ameno e de calmo, quase não havia ondas no mar. De repente, daquela imensidão escura salta um pequeno peixe fazendo uma curta peripécia no ar para novamente mergulhar no silêncio. E de uma coisa assim simples me ocorreu uma série de pensamentos e paralelos; de onde ele veio e pra onde foi? Do mar seria a resposta óbvia.
Claro, eu não pensava mais naquele peixe em específico, mas no paralelo com as nossas vidas. Em como ela pode caber dentro de um curto espaço de tempo, em que emergimos do nada, criamos nossa própria peripécia e sumimos no silêncio novamente. E no arco que compomos nessa trajetória do momento em que nos tornamos visíveis no nascimento até nosso fim, ocorre-me que é dele que tiramos todas as nossas conclusões sobre o que veio antes e o que virá depois.
Apesar de existir pessoas que afirmam conhecer o que chamam vidas passadas, é fato que nenhuma delas pode provar o que quer que aleguem, e o argumento da experiência pessoal é inútil nesse caso, como demonstra uma visita a qualquer hospício mais próximo. Uma vez mais, não custa lembrar que acreditar no que achamos que somos nada tem a ver com o que somos de fato.
A maioria das religiões concentram-se no depois, mas com histórias tão desprovidas de evidências quanto a do papai noel. E como, em ambientes desprovidos das luzes e efeitos especiais fica impossível demonstrar que alguém já voltou efetivamente para dizer o que quer que seja, ficamos assim com esse nosso estrito lampejo de consciência que temos e chamamos vida. Tomamos consciência dela em plena manobra e nossa experiência comparativa demonstra através de quem nos precedeu que nosso tempo aqui não é nada mais que isso; um lampejo.
Sem saber se existiu um antes, e pior ainda, se existirá um depois, não foram poucas as pessoas que usaram a nossa curiosidade a esse respeito como base para o controle e o domínio de uma massa de semelhantes pela ferramenta mais poderosa nesse caso: o medo, puro e simples. Assim, poucas pessoas controlam através de preceitos discutíveis, o comportamento de uma gigantesca quantidade de pessoas, que muitas vezes alegremente abrem mão da própria paz nesse nosso curto "vôo no ar" em favor de uma promessa feita com base em nada.
Mas, até que se prove o contrário (o que eu não apostaria), esse salto é tudo o que temos. É nele que nos conhecemos indivíduo; tomamos conhecimento dos outros, somos crianças, meninas e meninos, adultos e anciões. É nele que nossa vida se completa em contato com outras vidas e estabelecemos nossas relações; amamos, odiamos, e respiramos para também sermos amados e odiados; choramos e rimos, em proporções diferentes às vezes. Nesse espaço de tempo, somos livres, pois voamos sem amarras, embora tenham nos feito acreditar no contrário por tempo demais. Somos seres independentes, paradoxais porque em constante construção intelectual, mas ao mesmo tempo, acabados e dotados de todas as ferramentas para atingi-la desde nosso nascimento; como Saramago diz, nosso cérebro é de tal ordem que leva tudo dentro. Algumas pessoas realizam saltos prodigiosos e inscrevem-se decisivamente na história dos que lhe são próximos e o observam. Esses permanecem vivos na memória dos que o acompanharam, e sua lembrança perdura por muito tempo, mesmo quando sua presença não é mais que um traço no passado distante. Alguns aproveitam a luz do sol que os banha por um curto período e brilham ainda mais, tocando as pessoas à sua volta com uma luz ainda mais terna e precisa. E tal como as estrelas, sua luz continua brilhando mesmo quando a sua fonte parece ter se apagado. Gestos como esse são mais que suficientes para fazer toda essa aventura incerta e desconhecida ter valido à pena.
Então faça dessa sua trajetória o que lhe apetecer. Realize que você é livre, e será. E acima de tudo, aproveite o seu salto.
Grande abraço.
Em memória do Milton, um dos maiores saltadores que conheci.
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