Acho queo autor do vídeo solta umas coisas nada a ver aqui e ali, mas a quantidade de informação, e sobretudo a qualidade delas, é tão boa que vale a pena. Por muito tempo se ouve falar em cura para quem é gay, como se fosse doença. Algumas pessoas podem não entender porque isso é considerado um preconceito tremendo, além de uma idiotice sem paralelo. Pois bem, esse vídeo demonstra porquê.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
quinta-feira, 26 de abril de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Correntes...
Pra quem gosta de correntes, aí vai uma boa:
PS: Goku é um desenho animado...
"Goku tem visto suas lutas, e
ele diz que elas estão chegando ao fim. Uma esfera do dragão está vindo
em sua direção: se você crê em Goku, por favor envie essa mensagem em
mais 20 comentários. Não ignore,voce está sendo testado. Se rejeitares,
lembre se: Goku disse: Pessoas da terra, me dêem um pouco de energia.
Dentro de 4 minutos receberás uma boa notícia!"
PS: Goku é um desenho animado...
sábado, 7 de abril de 2012
Páscoa... ah, a páscoa.
A história que Jesus morreu e rescussitou por nós é um dos aspectos mais incoerentes e ao mesmo tempo, mais lembrados e adorados pela maioria das pessoas que conheço. A história da barganha com deus, em que alguém tinha que pagar pelos pecados dos demais é uma ideia tão atrasada que remete-se aos primórdios da lingua escrita. O termo "bode espiatório" nasceu, nada mais, nada menos, que da crença antiga que era possível depositar no lombo do pobre animal todos os pecados de um vilarejo antigo e o bicho era deixado à própria sorte no deserto, para morrer de fome e sede.
O sacrifício de animais em toda Bíblia é de fato uma lei; deus não aceitou o sacrifício de Caim porque eram verduras e frutas. Quando Noé saiu da arca, a primeira coisa que fez foi matar um bichinho desses. Sabe-se que havia um imenso comércio no templo vendendo pombos, cabras, vacas e outros menos afortunados para serem abatidos como forma de sacrifício ao deus que lhes observava. Tal qual os Incas que sacrificavam pessoas ao seu deus-sol, há uma longa tradição em muitas das religiões de usar oferendas à sua divindade como prova de fidelidade partidária e um pedido de perdão. O que não entendo é como isso pode ser moral aos olhos das pessoas de hoje.
Se você fez algo errado,pode ser até que ninguém descubra, nunca. Mas em hipótese alguma, alguma outra pessoa vai poder livrar a sua culpa por isso; podem ir condenado em seu lugar, mas isso não te exime de nada. Da mesma forma, essa doutrina de dizer que cristo sofreu por nós é um claro reflexo de uma época em que se acreditava que era possível para alguém ser o "cordeiro, aquele que tira o pecado do mundo". Nada mais infantil.
Se eu cometi algo de ilícito, que claramente prejudicou a terceiros, é minha obrigação assumir meu erro e pagar por ele. Esperar que alguém me livre disso é um atitude semelhante às crianças que quebram algo e esperam não ser descobertas. Mas pior do que isso, quem acha que não só a minha culpa pode ser tranferida a outro, mas ela recai sobre meus filhos, meus netos, gente que ainda nem nasceu e não sabe de nada do que vai encontrar. Crianças pequenas e indefesas que, nessa sociedade fanática já nasce com a pecha de "pecador". E eles ainda acham graça tirar fotos de crianças ajoelhadas rezando, como se fé fosse virtude.
E como se isso por si não fosse pouco, deus precisava cobrar a conta pelos "pecado" que as criaturas que ele pretensamente fez e, ao que tudo indica, sabia exatamente como iam se comportar por conta do instinto que ele mesmo os dotou. Para isso, ele teria enviado seu próprio filho para ser morto e pagar uma dívida que ele podia ter simplesmente perdoado.
Mas não termina aí, como todo mundo que já assistiu àquele berreiro de programa religioso nas madrugadas na tv bem sabe; o filho é morto, mas... não pode ser morto, porque ele também é deus!! Que sacrifício foi esse então? Nem me pergunte.
Eu ainda assisto abismado esse monte de mensagens de páscoa dizendo que o coelho tomou o lugar de jesus como se fosse ruim; como se esse fosse nosso maior problema. É claro que não é. O coelho pelo menos me isenta de tomar parte dessa história toda que é, sob vários aspectos imoral. Primeiro: não nasci condenado porque meus antepassados fizeram algo... isso não é moral nem aqui nem em lugar nenhum. Especialmente de um que ninguém sabe se existiu. Segundo: mesmo que fosse o caso, como alguém que é credor envia o próprio filho para pagar a dívida???? Se ele faz as regras, porque o sofrimento? Porque ele mesmo não deu mostras do seu perdão infinito e sua bondade que é adulada por tudo que é religião e simplesmente perdoou. Porque essa imagem do nazareno ensanguentado precisa ser um sinal de amor todo ano, em todo lugar?
As pessoas tem medo de perguntar, porque certas perguntas podem dar repostas que elas não querem ouvir. Qualquer pessoa que se questionar friamente sobre isso percebe que a história é crivada de erros. Se eu sou o dono, senhor e mestre de uma criação, se tenho o poder de fazê-los como eu desejo, porque eu os faria dependentes de mim, ou de comida, de água? Porque não, simplesmente fazê-los sem essas necessidades, porque se eventualmente elas faltassem, ninguém precisaria morrer por isso.
Começando claro, pelo meu próprio filho para pagar uma dívida absurda que eu mesmo poderia ter evitado.
Definitivamente, não faz sentido.
O sacrifício de animais em toda Bíblia é de fato uma lei; deus não aceitou o sacrifício de Caim porque eram verduras e frutas. Quando Noé saiu da arca, a primeira coisa que fez foi matar um bichinho desses. Sabe-se que havia um imenso comércio no templo vendendo pombos, cabras, vacas e outros menos afortunados para serem abatidos como forma de sacrifício ao deus que lhes observava. Tal qual os Incas que sacrificavam pessoas ao seu deus-sol, há uma longa tradição em muitas das religiões de usar oferendas à sua divindade como prova de fidelidade partidária e um pedido de perdão. O que não entendo é como isso pode ser moral aos olhos das pessoas de hoje.
Se você fez algo errado,pode ser até que ninguém descubra, nunca. Mas em hipótese alguma, alguma outra pessoa vai poder livrar a sua culpa por isso; podem ir condenado em seu lugar, mas isso não te exime de nada. Da mesma forma, essa doutrina de dizer que cristo sofreu por nós é um claro reflexo de uma época em que se acreditava que era possível para alguém ser o "cordeiro, aquele que tira o pecado do mundo". Nada mais infantil.
Se eu cometi algo de ilícito, que claramente prejudicou a terceiros, é minha obrigação assumir meu erro e pagar por ele. Esperar que alguém me livre disso é um atitude semelhante às crianças que quebram algo e esperam não ser descobertas. Mas pior do que isso, quem acha que não só a minha culpa pode ser tranferida a outro, mas ela recai sobre meus filhos, meus netos, gente que ainda nem nasceu e não sabe de nada do que vai encontrar. Crianças pequenas e indefesas que, nessa sociedade fanática já nasce com a pecha de "pecador". E eles ainda acham graça tirar fotos de crianças ajoelhadas rezando, como se fé fosse virtude.
E como se isso por si não fosse pouco, deus precisava cobrar a conta pelos "pecado" que as criaturas que ele pretensamente fez e, ao que tudo indica, sabia exatamente como iam se comportar por conta do instinto que ele mesmo os dotou. Para isso, ele teria enviado seu próprio filho para ser morto e pagar uma dívida que ele podia ter simplesmente perdoado.
Mas não termina aí, como todo mundo que já assistiu àquele berreiro de programa religioso nas madrugadas na tv bem sabe; o filho é morto, mas... não pode ser morto, porque ele também é deus!! Que sacrifício foi esse então? Nem me pergunte.
Eu ainda assisto abismado esse monte de mensagens de páscoa dizendo que o coelho tomou o lugar de jesus como se fosse ruim; como se esse fosse nosso maior problema. É claro que não é. O coelho pelo menos me isenta de tomar parte dessa história toda que é, sob vários aspectos imoral. Primeiro: não nasci condenado porque meus antepassados fizeram algo... isso não é moral nem aqui nem em lugar nenhum. Especialmente de um que ninguém sabe se existiu. Segundo: mesmo que fosse o caso, como alguém que é credor envia o próprio filho para pagar a dívida???? Se ele faz as regras, porque o sofrimento? Porque ele mesmo não deu mostras do seu perdão infinito e sua bondade que é adulada por tudo que é religião e simplesmente perdoou. Porque essa imagem do nazareno ensanguentado precisa ser um sinal de amor todo ano, em todo lugar?
As pessoas tem medo de perguntar, porque certas perguntas podem dar repostas que elas não querem ouvir. Qualquer pessoa que se questionar friamente sobre isso percebe que a história é crivada de erros. Se eu sou o dono, senhor e mestre de uma criação, se tenho o poder de fazê-los como eu desejo, porque eu os faria dependentes de mim, ou de comida, de água? Porque não, simplesmente fazê-los sem essas necessidades, porque se eventualmente elas faltassem, ninguém precisaria morrer por isso.
Começando claro, pelo meu próprio filho para pagar uma dívida absurda que eu mesmo poderia ter evitado.
Definitivamente, não faz sentido.
sábado, 31 de março de 2012
Belchior em "Tudo Outra Vez"
Antes de eu ter saído de Imaruí; antes de muita da água que passou por baixo das pontes que trilhei; antes de tanta coisa que nem me lembro, uma canção que ecoa no silêncio que às vezes me permito... e cuja sensação me faz novo, como inspirar profundamente. O sol na lagoa no poente e eu sentado ali, olhando, com a incerteza no futuro como era natural na minha condição, mas sobretudo com o sentimento que eu daria conta se conseguisse me manter calmo nas adversidades, como a pequena e mal tratada lagoa à minha frente.
Hoje, com essas lembranças reavivadas e olhando em retrospecto, eu percebo que já andei por muitos lugares, mas que meu coração sempre esteve ali; não na cidade, não naquela época em especial, ou no pôr do sol, mas com aquela sensação que a cidade da época captava tão bem ao pôr do sol.
Uma lembrança terna e fraterna da minha época de colegial, onde as canções de Belchior sempre me soaram como o fundo musical de um horizonte possível. Uma dessas tantas gavetas que, depois de muito fechadas, se abrem inesperadamente e te faz voltar no tempo e no espaço.
Hoje, com essas lembranças reavivadas e olhando em retrospecto, eu percebo que já andei por muitos lugares, mas que meu coração sempre esteve ali; não na cidade, não naquela época em especial, ou no pôr do sol, mas com aquela sensação que a cidade da época captava tão bem ao pôr do sol.
Uma lembrança terna e fraterna da minha época de colegial, onde as canções de Belchior sempre me soaram como o fundo musical de um horizonte possível. Uma dessas tantas gavetas que, depois de muito fechadas, se abrem inesperadamente e te faz voltar no tempo e no espaço.
sexta-feira, 30 de março de 2012
Reiki = BABOSEIRA
Para os que ainda acham que essa embromação é verdadeira, um bom artigo sobre Reiki e seus resultados completamente nulos. Direto do Bule.
[abre aspas]
Autor: Felipe Campelo
Editor: Eduardo Patriota Gusmão Soares
Reiki para tratamento de fibromialgia:
Encerrado em 2005.
Conclusões: reiki não foi considerado eficaz no tratamento de fibromialgia.
Reiki em pacientes com AIDS em estágio avançado:
Concluído em 2003.
Conclusões: os resultados não foram publicados na literatura (o que já diz muita coisa).
Reiki para neuropatia dolorosa e fatores de risco cardíaco:
Concluído em 2004.
Conclusões: os resultados não foram publicados na literatura (de novo, já diz muita coisa).
Conclusões
[1] M. S. Lee, M. H. Pittler, E. Ernst, “Effects of reiki in clinical practice: a systematic review of randomised clinical trials“, International Journal of Clinical Practice 62(6): 947–54, 2008.
[2] S. vanderVaart, V.M.G.J. Gijsen, S.N. de Wildt, G. Koren, “A Systematic Review of the Therapeutic Effects of Reiki“, The Journal of Alternative and Complementary Medicine 15(11): 1157-69, 2009.
[fecha aspas]
[abre aspas]
Quando a superstição consegue se passar por ciência: o Reiki
Fonte: CampelogAutor: Felipe Campelo
Editor: Eduardo Patriota Gusmão Soares
Introdução:
Para entender as alterações biológicas do reiki, o psicobiólogo Ricardo
Monezi Julião de Oliveira testou o tratamento em camundongos com
câncer. “O animal não tem elaboração psicológica, fé, crenças e a
empatia pelo tratador. A partir da experimentação com eles, procuramos
isolar o efeito placebo”, diz. Para a sua pesquisa de mestrado na USP,
Monezi escolheu o reiki entre todas as práticas de imposição de mãos por
tratar-se da única sem conotação religiosa.
Depois de sacrificados, os animais foram avaliados quanto a sua
resposta imunológica, ou seja, a capacidade do organismo de destruir
tumores, de acordo com o tratamento recebido (impostação x placebo). Os
resultados mostraram que, nos animais do grupo “impostação”, os glóbulos
brancos e células imunológicas tinham dobrado sua capacidade de
reconhecer e destruir as células cancerígenas.
Isso me impressionou, confesso. Como um trabalho assim é aprovado
numa banca de mestrado da USP? Assume-se que o trabalho tenha atendido
às exigências da academia e seu conteúdo seja válido e procedente. Mas,
talvez, a banca examinadora não tenha conhecimento de diversos trabalhos
já feitos na área. Antes de começar a montar uma pesquisa a respeito,
Fábio Campelo escreveu em seu blog um breve texto refutando alguns
pontos centrais da pesquisa, bem como nos trouxe referência de muitos
estudos que apontam para resultados inconclusivos ou definitivamente
nulos quanto à eficácia do reiki.
Um ótimo texto para quando você precisar discutir com os terapeutas “alternativos”.
*****************************
Antes de passar à discussão, convém definir o que é Reiki. De acordo com o artigo da Wikipédia(a) (traduções e grifos meus):
(Reiki é uma prática
espiritual desenvolvida em 1922 pelo budista Japonês Mikao Usui. O Reiki
utiliza uma técnica comumente conhecida como cura pelas mãos como uma
forma de medicina alternativa e complementar, e é ocasionalmente
classificada como medicina oriental por entidades
profissionais. Através do uso desta técnica, o praticante de Reiki
afirma poder transferir energia curadora, na forma de ki, através das
palmas das mãos.)
Em outras palavras, o praticante de Reiki abre as
mãos sobre uma determinada parte do corpo, se concentra, e afirma poder
manipular ou transferir energias vitais para o paciente, de forma tratar
e curar as mais diversas moléstias. Isto torna o Reiki parte de uma
corrente conhecida como Vitalismo,
cuja premissa é a existência de algum tipo de energia vital que pode
ser manipulada ou alterada por adeptos ou praticantes de certas artes. O
fato de nenhuma destas energias vitais – ou seus efeitos – jamais terem
sido observadas de forma objetiva em mais de 200 anos de investigação
científica (Ben Franklin e outros cientistas já investigavam uma
modalidade de vitalismo conhecida como magnetismo animal no
final do século XVIII, com conclusões fortemente negativas) coloca a
plausibilidade prévia deste tipo de modalidade em um valor bastante
baixo. Para maiores informações, sugiro ler aqui, aqui,aqui, aqui, e principalmente aqui (este
último fala de Emily Rosa, a pessoa mais jovem a publicar um artigo no
prestigioso Journal of the American Medical Association, descrevendo o
protocolo e testes utilizados para examinar uma modalidade conhecida
como toque terapêutico, extremamente similar ao reiki).
Reiki na Literatura Científica
Suponhamos entretanto que possamos ignorar o fato de
que estas energias jamais foram detectadas e que não há qualquer
plausibilidade fisiológica ou física para sua existência. Dezenas de
estudos foram realizados para testar a eficácia do Reiki (e outras
modalidades de vitalismo) ao longo dos anos. O que a literatura médica
tem a dizer quanto a isto?
Uma revisão da literatura publicada em 2008[1] examinou
205 estudos potencialmente relevantes utilizando Reiki para o
tratamento de uma série de moléstias. Dentre estes 205 estudos, apenas 9
possuíam os critérios mínimos de qualidade metodológica para inclusão
na análise (randomização, cegamento duplo, descrição detalhada do
protocolo utilizado, etc.). Os critérios de seleção empregados na
revisão foram:
(Testes randomizados e
controlados foram incluídos no estudo nos casos onde o estudo foi
conduzido em humanos, tanto recebendo somente reiki quanto reiki
associado a uma modalidade convencional de tratamento. Testes onde o
reiki foi comparado contra qualquertipo de grupo controle foram
incluídos. Testes onde o reiki foi utilizado como parte de intervenções
complexas [N.T.: isto é, em associação com muitos outros fatores ou
tratamentos] foram excluídos. Estudos onde o objetivo era desenvolver
metodologias dos procedimentos de reiki, sem variáveis clínicas de
resposta definidas, foram excluídos. Aqueles que não reportaram dados ou
comparações estatísticas também não foram utilizados. Restrições de
língua não foram impostas. Dissertações e resumos foram incluídos.
Cópias impressas de todos os artigos foram obtidas e estudadas
completamente.)
Após o agrupamento dos dados e subsequente análise dos dados, os autores concluíram:
(Concluindo, a
evidência é insuficiente para afirmar que o reiki seja um tratamento
efetivo para qualquer condição. Assim sendo, o valor do reiki [N.T.:
enquanto terapia] permanece sem provas.)
Em uma outra revisão da literatura publicada no próprio Journal of Alternative and Complementary Medicine[2] (que não é sequer um dos mais rigorosos em termos de evidência) concluiu que:
(As severas
limitações metodológicas e de publicação dos escarsos estudos existentes
sobre reiki não permitem alcançar qualquer conclusão definitiva a
respeito de sua eficácia.)
Outros estudos de grande volume a respeito do uso de reiki para intervenções diversas foram organizados pelo National Center for Complimentary and Alternative Medicine, e são listados no NCCAM Watch. Os resultados obtidos também são pouco animadores:
Encerrado em 2005.
Conclusões: reiki não foi considerado eficaz no tratamento de fibromialgia.
Reiki em pacientes com AIDS em estágio avançado:
Concluído em 2003.
Conclusões: os resultados não foram publicados na literatura (o que já diz muita coisa).
Reiki para neuropatia dolorosa e fatores de risco cardíaco:
Concluído em 2004.
Conclusões: os resultados não foram publicados na literatura (de novo, já diz muita coisa).
Qualquer um familiar com a literatura científica, e
em particular com a literatura médica, consegue entender claramente o
que está implicado em todas estas conclusões: a despeito dos quase 90
anos de prática, não há na literatura nenhuma evidência que o reiki
funcione melhor que um placebo similarmente aplicado, e que qualquer
efeito específico se deve à sugestão do paciente (ou à autosugestão do
praticante). Mais recursos para o leitor interessado podem ser
encontrados aqui (em texto) e aqui (episódio 29 do excelente podcast Quackcast).
Os Experimentos da Revista Galileu
Mas e os experimentos descritos na reportagem da
Galileu? Não representariam uma nova vertente na pesquisa do reiki? (a
esta altura, o leitor observador já deveter percebido quepesquisa do
reiki provavelmente é uma área tão científica quanto aerodinâmica de
unicórnios). Bem, como diria Mark Crislip, lets look at the facts:
A reportagem trata principalmente dos experimentos do psicobiólogo (!) Ricardo Monezi a respeito dos supostos efeitos do reiki em ratos com câncer induzido. Nas palavras de Monezi:
“O animal não tem elaboração psicológica, fé, crenças e a empatia pelo tratador. A partir da experimentação com eles, procuramos isolar o efeito placebo”
Monezi, que segundo seu CV Lattes trabalhou com
metodologia experimental, de cara já coloca uma afirmação que não é
tecnicamente verdadeira: animais estão sujeitos *sim* a
efeitos similares ao placebo! Este fenômeno é conhecido já há bastante
tempo na pesquisa veterinária e médica, e é muito bem explicado aqui, aqui e aqui.
De forma breve, o placebo não precisa ocorrer necessariamente no
indivíduo (humano ou não) receptor do tratamento. No caso de pesquisa
com animais, por exemplo, estudos que não sejam duplo-cegos (ou seja,
onde o animal de teste não sabe se recebeu tratamento ou controle, mas o
administrador da intervenção sabe), observação seletiva e tendências pessoais (a famosa e quase inevitável tendência à confirmação) são praticamente garantidos.
Há outras formas através das quais efeitos similares
ao placebo podem ocorrer em pesquisas com animais, mas não vou me
alongar demais nisto: quero chamar a atenção aqui é para o fato de que,
de acordo com o que podemos inferir da reportagem, os experimentos de
Monezi carecem exatamente do tipo de controle duplo-cego que menciono
acima, o que – como expliquei – abre as portas para a infiltração de
todo tipo de tendência pessoal nos dados.
A métrica de avaliação dos resultados descrita
(capacidade do organismo de destruir tumores) é vaga o bastante para não
permitir uma discussão mais a fundo em relação a este aspecto.
Quaisquer que sejam as especificidades da métrica utilizada, entretanto,
o não-cegamento do experimentador invalidaria completamente o protocolo
experimental utilizado.
Outra razão para uma saudável dose de ceticismo é o
fato de o trabalho descrito na reportagem não ter sido publicado em
nenhuma revista científica com revisão por pares – muito menos naquelas
em que resultados tão impressionantes como os relatados deveriam estar –
JAMA, NEJM, talvez até a Nature. Embora o pesquisador tenha defendido
sua dissertação de mestrado sobre o assunto, o fato de seus resultados
não terem sido publicados na literatura técnica especializada (onde
estariam sujeitos às críticas e comentários da comunidade científica em
geral) não costuma ser um indicador de qualidade em pesquisa.
Examinando um pouco mais de perto a dissertação do Ricardo Monezi (onde os experimentos comentados na Galileu são relatados), observei alguns outros aspectos perturbadores:
1) a revisão da literatura em terapias energéticas é
feita de forma completamente crédula, sem nenhuma referência a trabalhos
refutando estas modalidades (como, por exemplo, o da Emily Rosa no JAMA);
2) o tamanho amostral utilizado (20 indivíduos/grupo)
foi pequeno o suficiente para que flutuações estatísticas pudessem ser
significativas, mesmo descontando os outros problemas metodológicos;
3) como eu havia suspeitado, na descrição da
metodologia utilizada não há nenhumamenção ao cegamento dos
experimentadores ou dos responsáveis pelas análises posteriores. Ao
contrário, a descrição do procedimento inclui as seguintes imagens,
também reproduzidas na reportagem da Galileu:
4) não há também nenhuma referência a medidas para prevenir contaminação cruzada das amostras;
5) O teste estatístico utilizado (Student t)
requer a satisfação de premissas fortes, que não foram validadas
durante ou após a análise estatística (normalidade, igualdade de
variâncias, independência das amostras).
5.a) Nota 1: os dados reportados na dissertação me
permitiram verificar a premissa da normalidade para a maioria dos
conjuntos. Entretanto, a premissa de isoscedasticidade – isto é,
igualdade de variâncias – foi violada brutalmente em todos os testes
realizados, o que possivelmente implica na não-validade do teste-t
utilizado, a menos que precauções extras tenham sido tomadas – o que não
foi reportado no texto.
6) Ainda na parte da análise estatística: o autor
falhou em corrigir seus valores de significância para múltiplas
hipóteses. Além disto, o trabalho testa uma grande quantidade de
hipóteses mal-definidas, frisa aquelas onde anomalias foram observadas, e
busca – na discussão final, a posteriori da execução dos experimentos –
ajustar quaisquer conjecturas às observações, o que é uma prática
falaciosa de análise conhecida como caça por anomalias;
Os experimentos e resultados relatados na revista
Galileu não fornecem evidências suficientes para quaisquer afirmações a
respeito do efeito do Reiki em ratos com tumores. A literatura médica
possui refutações bastante definitivas desta prática, tanto de um ponto
de vista de plausibilidade biológica quanto de efeitos clínicos. Reiki é
uma modalidade de pensamento mágico pré-científico, e pessoas deveriam
gastar seu tempo ou dinheiro com coisas mais produtivas e eficientes.
Para aqueles que tem o hábito de argumentar que “pelo menos não faz mal”, sugiro uma consulta cuidadosa aos arquivos do What’s the Harm.
(a) - Em tempo: o artigo da
Wikipédia em Português é escrito a partir de um ponto de vista
completamente crédulo em relação às medicinas alternativas em geral, e
ao Reiki em particular. O artigo equivalente na Wikipedia em Inglês,
geralmente muito mais bem embasada, traz uma seção sobre a completa falta de validade do Reiki de um ponto de vista científico.
[1] M. S. Lee, M. H. Pittler, E. Ernst, “Effects of reiki in clinical practice: a systematic review of randomised clinical trials“, International Journal of Clinical Practice 62(6): 947–54, 2008.
[2] S. vanderVaart, V.M.G.J. Gijsen, S.N. de Wildt, G. Koren, “A Systematic Review of the Therapeutic Effects of Reiki“, The Journal of Alternative and Complementary Medicine 15(11): 1157-69, 2009.
[fecha aspas]
Meu comentário:
Não acho que quem acredita vá se deixar convencer por esses argumentos, e não pela credibilidade que eles tem; a questão aqui é exatamente o oposto. Quem acredita que Reiki funciona, não quer saber de argumentos, especialmente se eles demonstram a falácia que o movimento é.
Então, acho que esse artigo é bacana para as pessoas que pagam por esses tratamentos e acham que isso trará algum benefício. Faça um favor a si mesmo: guarde seu dinheiro para um bom médico, se é o que precisa.
Proselitismo...
Passei um bom tempo sem publicar o que quer que fosse aqui; sem internet, em lugar estranho é osso pra qualquer um. Por outro lado, agora deu uma estabilizada, e como venho acompanhando as notícias pela internet, esbarrei como de costume nesses problemas cotidianos que surgem no embate de ideias, ou de ideias e maluquices, se você preferir.
Começando pela ideia infeliz, pra dizer o mínimo, de uma professora de história no ABC paulista que usava vinte minutos diários da sua aula para...orar.

E como desgraça pouca sempre é bobagem, acabou que o primeiro que ousou não participar da oração porque era de outra denominação, foi exposto a bullying pelos próprios colegas. E pra piorar ainda mais, a professora era de história. Você pode achar que não tem nada a ver ela dar aulas de história e que isso não vem ao caso, porque seria o mesmo se ela desse português ou matemática. Mas não é. Como professora de história ela deveria ter algo que as pessoas comuns não tem, que é o conhecimento dos erros no passado; ter ao menos ciência do que o movimento religioso realmente representou e representa na sociedade. O que ela ensinava quando tinha de falar sobre a Peste Negra, a Inquisição, o massacre dos huguenotes, o Holocausto? Que aulas de história eles estavam tendo afinal?? Se o que se ensinava ninguém sabe, sabe-se por outro lado que ela ameaçava dar zero a quem não orasse. Um exemplo didático que deixaria o ditador mais sorrateiro e hipócrita com inveja.
O trofeu dos sem noção ainda aguarda porque tem mais gente na fila; e como tem. Uma psicóloga do Paraná resolveu que não há distinção entre a igreja que frequenta e o consultório onde exerce a profissão. Resolveu nadar na contramão do que é considerado consenso entre todos os seus pares (laicos), e afirmar que homossexualismo é doença. Quando confrontada pelo Conselho de Psicologia, delirou abertamente ao dizer que estava sendo vítima de um complô ateísta. "Vítima" é uma palavra alegórica aqui e você verá muitos religiosos a usando para sua defesa, enquanto achacam os verdadeiros perseguidos nessa história toda.
Nos posts que coloca no Twitter, ela pede auxílio da oração de outros fiéis, diz que essa é uma provação que o diabo lhe impõe, além do que seu trabalho é "a ciência de Deus (...) Seu código de ética é a Bíblia. Seu psicólogo, Jesus. Seu juramento, “Eu voltarei”". Ou seja, você paga uma consulta à psicóloga para tratar de problemas reais, e acaba levando de brinde uma enxurrada dos seus delírios pessoais, incluindo toda uma pleiade de códigos e amigos que, sendo imaginários, só ela vê, ouve e conversa.
Mas quando se refere ao Conselho que deveria prestar contas, a santidade dos seus argumentos rapidamente se turvam para dar lugar ao que na verdade eles aparentemente escondem: o preconceito grosseiro e rasteiro, a arrogância e a infantilidade.
Note que ela clama por alguém "macho", um termo que seria discutível nesse contexto para qualquer pessoa, mas que no de uma psicóloga é praticamente um absurdo. Além do que, ela demonstra ou quer fazer crer aos outros que o fato que parece importar aos seus "acusadores" não é a sua falta de compostura profissional, mas o quanto sua crença os incomoda.
O que esses casos tem em comum é simples de identificar; são pessoas, macacos pelados como eu e você, que um dia alguém botou na cabeça que estavam destinados a serem balizas morais dos outros. O que isso quer dizer é o de menos para quem desenvolve esse tipo de patologia. Para chegar a esse ponto, tiveram de abandonar completamente o bom senso, o senso crítico, sem falar, claro, no famoso e tão útil nesses casos, o senso de ridículo. Trocaram os questionamentos que nos deram os alicerces da civilização moderna pelo jogo de pique-esconde e o ta-ti-bi-ta-te metafísicos.
Essas pessoas deixam ver mais de si mesmas do que gostariam através da sua atitude. São pessoas que sofrem de algum tipo de carência gigantesca, e tem uma necessidade deprimente de se sentirem importantes, destemidas, heróicas; mais ou menos como as histórias de mártires que ouviram no passado.
Não gosto de crianças mal educadas, mas definitivamente, ver pessoas adultas falando como crianças é de dar azia em qualquer um. Façamos o seguinte: quer pregar? Vá para a igreja, onde as pessoas pretensamente vão para ouvir coisas desse tipo. Agora, não use sua posição social para impingir suas crenças e fantasias, porque diferente do que essas pessoas pensam, eu não preciso ser salvo. Sou um cidadão livre, com direito a acreditar no que eu quiser sem ser importunado, mas acima de tudo, eu mereço ser respeitado por isso, deixando os espaços públicos livres de delírios pessoais.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
A revolta, por Humberto P. Charles
O texto não é meu e ponho entre aspas. Meus comentários aqui são somente pra dizer que achei o texto esclarecedor, preciso e direto. Segue:
Se tem uma coisa que todo ateu já ouviu uma vez é que ele é revoltado. Que ele é nervoso ou rancoroso. Alguns religiosos justificam essa “característica” como sendo oriunda do fato dele “não ter deus no coração”, de ter um “vazio dentro de si”.
O ateu em geral também é invariavelmente condenado por ser muito racional. Eu mesmo já ouvi isso com a pior conotação possível. “Ah, mas você é muito racional, nunca será feliz assim”. Já deveria estar acostumado, mas ainda me impressiono quando ouço alguém criticar a racionalidade e dar-lhe um sentido negativo. Bom, parece que os religiosos não entendem mesmo que, nós ateus, só conseguimos ser felizes em nossa racionalidade. É isso que nos traz paz. Nossa capacidade de separar o real do ilusório e ainda assim apreciar tudo o que a vida traz de belo.
Como se não bastasse o ateu, segundo pesquisas, figurar em primeiro lugar na lista de preconceitos, sendo colocado à frente dos negros, dos homossexuais, dos usuários de drogas e das prostitutas, ele ainda é considerado um ser revoltado, uma pessoa raivosa.
Somos divididos em estúpidos sub-grupos baseado na patética argumentação de que se você diz que não crê em deus você é ateu, mas se você não crê em deus e diz “porque” você não crê em deus você é neo-ateu. Brilhante né?
É claro que nunca vi grupos de ateus se reunindo para agredir homossexuais na Avenida Paulista ou na orla de Copacabana. Nunca vi também associações de ateus colocarem capuzes brancos e queimarem negros. Tão pouco vi ateus dizendo que quem não concorda com eles será torturado por toda a eternidade.
Mas dessa vez sou obrigado a concordar com os religiosos. Isso mesmo: NÓS ATEUS SOMOS REVOLTADOS! Pronto admito para quem quiser ouvir. Somos revoltados e pronto.
Somos revoltados porque existem professores de ciência de escolas públicas que ainda se recusam a ensinar a evolução, somos revoltados porque a Igreja Católica não admite o uso de preservativos em continentes como a África onde a Aids é uma doença endêmica, condenando milhares a morte por via indireta.
Somos revoltados, porque missionários espancam suas mulheres quase até a morte porque afirmam que é a vontade de deus que elas se submetam a seus maridos. Somos revoltados porque em países como a Índia, com seus néscios sistemas de castas, pessoas são doutrinadas para acreditar que sua pobreza é merecida e fruto do carma de vidas passadas onde foram ruins.
Somos revoltados porque até hoje pessoas são mortas e mutiladas na África por facões cegos bradados por padres católicos que acusam pessoas de bruxaria. E antes que perguntem: sim, isso acontece hoje, não estou falando da idade média não.
Somos revoltados porque pessoas são ensinadas a odiarem sua sexualidade sob pena de irem para o inferno. Somos revoltados porque mulheres são convencidas a não exercer sua feminilidade, mesmo que existam igrejas onde a poligamia masculina seja permitida. Igrejas onde as meninas são convencidas a se casarem contra a sua vontade para não serem cobradas em suas pós-vida.
Somos revoltados por ensinarem crianças a odiarem homossexuais, por as doutrinarem a reprimir a sua homossexualidade e a odiarem seus corpos. Somos revoltados por dizerem que se forem gays são doentes e precisam “de cura”.
Somos revoltados porque pais religiosos frequentemente expulsam seus filhos de casa por serem gays quando o certo, o “cristão” a se fazer, seria amar-los e acolher-los, assim como um tal de “Jesus” faria.
Somos revoltados porque humilham e agridem quem é diferente deles com uma mão enquanto na outra seguram algo que é chamado de o “bom livro”.
Somos revoltados porque obras de arte de valor inimaginável como os Budas de Bamiyan foram destruídas pelos Talibãs, por aversão à “idolatria”. Somos revoltados pela pratica monstruosa da infibulação, que consiste em mutilar o clitóris de meninas e mulheres a fim de frear-lhes a sexualidade, e isso tudo com fundamentação em interpretação teológica.
Somos revoltados com a teocracia islâmica onde um o simples desobedecer ao pai ou mero namoro fora do casamento e da religião é punível com açoitamento público e dependendo do caso até a pena de morte por apedrejamento.
Somos revoltados quando sabemos que crianças de 10 anos de idade são forçadas a casar por mero atendimento à crenças e costumes religiosos oriundos de uma época onde as pessoas defecavam no mesmo local em que comiam.
Somos revoltados porque aqui mesmo no Brasil, onde uma outra criança de 9 anos foi estuprada e engravidou e ter um aborto autorizado, ser comunicada que tanto os médicos que fizeram o procedimento, assim como a família que a permitiu, foram excomungados pela Igreja Católica. Somos revoltados também, porque essa mesma igreja Católica não teve essa mesma atitude para com o animal que praticou tal estupro e não o excomungou também. Ora, que pesagem é essa? Que mensagem é essa perpetuou?
Nós ateus nos revoltamos com o fato de que essa mesma Igreja Católica só reconheceu e se desculpou em 1992 pela injustiça que praticou com Galileu em 1663. Nos revoltamos porque 300 anos é muito tempo até se pedir desculpas.
Nós ateus ficamos revoltados quando vemos pessoas diariamente sendo roubadas e abusadas em sua fé por pastores que lhes passam a perna sem a menor piedade. Por larápios disfarçados de cordeiro com suas mansões na Flórida e seus aviões a jato.
Nós ateus ficamos revoltados quando ouvimos que forças sobrenaturais ou entidades atuam e produzem efeitos sobre um mundo natural, mas são totalmente invisíveis e indetectáveis nesse mesmo mundo natural.
Nós ateus ficamos revoltados quando religiosos nos afirmam que não podemos julgar ou discernir os atos ou omissões divinas faces às tragédias do cotidiano e dizer que deus é mal por isso, vez que nosso critério, por ser humano, é falho, quando esses mesmos religiosos, usam esse mesmo critério humano e falho, para dizer que deus é bom e justo.
Nós ateus somos revoltados vez que não aceitamos com passividade o fato da humanidade se matar de forma rotineira com base em livros sagrados contraditórios e sem nenhuma justificativa que os sustente a não ser a fé de quem os professa.
Nós ateus nos revoltamos quando assistimos aviões serem jogados a 500 KM por hora contra prédios. Nos revoltamos quando vemos cristãos matarem muçulmanos e muçulmanos matarem judeus em um loop de violência infinita em nome de um deus que nunca apareceu nem para um cafezinho.
Nós ateus nos revoltamos sim. E temos orgulho dessa revolta. Temos orgulho de propagarmos o pensamento crítico, o embasamento científico doa a quem doer. Temos orgulho de colocar o dedo na ferida. Temos orgulho de dizer que todos que afirmam suas certezas deveriam ter a obrigação de demonstrar-las com evidências ao invés de empurrar a sujeira para baixo do tapete.
Nós ateus temos vergonha quando religiosos aduzem que a terra foi feita para eles quando sabemos que somos apenas poeira estelar e que a humanidade é um mero piscar de olhos na vastidão do tempo e do espaço.
Nós ateus ficamos revoltados quando religiosos nos chamam de radicais e intolerantes por dizermos: “nós não concordamos com vocês”, “que evidências vocês tem para corroborar o que afirmam”.
Nós ateus nos revoltamos quando religiosos querem tentam passar a imagem de que a revolta ateísta pela religião ocorra não pela religião em si e suas mazelas de clareza meridiana, mas sim porque há algo de errado conosco.
Mas sobretudo, nós ateus nos revoltamos, porque vocês religiosos não se revoltam. Porque não se indignam com tudo o que acontece ao redor do mundo em seu próprio país nas bem nas suas barbas. Que legado deixarão para seus filhos? Um país baseado nas ideias da bancada evangélica? É isso mesmo!?!?! Que não reclamem depois!
Por derradeiro que fique claro que, enquanto essas injustiças forem praticadas, esse tapa na cara do bom senso e da postura intelectualmente mais correta continuar, vocês religiosos terão que lidar com esses “ateus revoltados”.
Esses mesmos ateus revoltados que, durante muitos séculos e até nos dias de hoje, foram e são, perseguidos torturados e mortos. Esses ateus revoltados que, ao longo da história, contribuíram para que a ilusão nunca sobrepujasse a razão. Que trabalharam incessantemente para entregar maravilhas científicas. Que de forma inelutável sangraram para que o ser humano fosse reconhecido por sua mortalidade, falibilidade e racionalidade e ainda assim fosse imprescindível. Termino lembrando o belo questionamento de Douglas Adams: Será que não é o bastante ver que um jardim é bonito sem acreditar que ha fadas escondidas nele?”. Penso que sim…e vocês?
Humberto P. Charles"
"“ATEUS REVOLTADINHOS”
Se tem uma coisa que todo ateu já ouviu uma vez é que ele é revoltado. Que ele é nervoso ou rancoroso. Alguns religiosos justificam essa “característica” como sendo oriunda do fato dele “não ter deus no coração”, de ter um “vazio dentro de si”.
O ateu em geral também é invariavelmente condenado por ser muito racional. Eu mesmo já ouvi isso com a pior conotação possível. “Ah, mas você é muito racional, nunca será feliz assim”. Já deveria estar acostumado, mas ainda me impressiono quando ouço alguém criticar a racionalidade e dar-lhe um sentido negativo. Bom, parece que os religiosos não entendem mesmo que, nós ateus, só conseguimos ser felizes em nossa racionalidade. É isso que nos traz paz. Nossa capacidade de separar o real do ilusório e ainda assim apreciar tudo o que a vida traz de belo.
Como se não bastasse o ateu, segundo pesquisas, figurar em primeiro lugar na lista de preconceitos, sendo colocado à frente dos negros, dos homossexuais, dos usuários de drogas e das prostitutas, ele ainda é considerado um ser revoltado, uma pessoa raivosa.
Somos divididos em estúpidos sub-grupos baseado na patética argumentação de que se você diz que não crê em deus você é ateu, mas se você não crê em deus e diz “porque” você não crê em deus você é neo-ateu. Brilhante né?
É claro que nunca vi grupos de ateus se reunindo para agredir homossexuais na Avenida Paulista ou na orla de Copacabana. Nunca vi também associações de ateus colocarem capuzes brancos e queimarem negros. Tão pouco vi ateus dizendo que quem não concorda com eles será torturado por toda a eternidade.
Mas dessa vez sou obrigado a concordar com os religiosos. Isso mesmo: NÓS ATEUS SOMOS REVOLTADOS! Pronto admito para quem quiser ouvir. Somos revoltados e pronto.
Somos revoltados porque existem professores de ciência de escolas públicas que ainda se recusam a ensinar a evolução, somos revoltados porque a Igreja Católica não admite o uso de preservativos em continentes como a África onde a Aids é uma doença endêmica, condenando milhares a morte por via indireta.
Somos revoltados, porque missionários espancam suas mulheres quase até a morte porque afirmam que é a vontade de deus que elas se submetam a seus maridos. Somos revoltados porque em países como a Índia, com seus néscios sistemas de castas, pessoas são doutrinadas para acreditar que sua pobreza é merecida e fruto do carma de vidas passadas onde foram ruins.
Somos revoltados porque até hoje pessoas são mortas e mutiladas na África por facões cegos bradados por padres católicos que acusam pessoas de bruxaria. E antes que perguntem: sim, isso acontece hoje, não estou falando da idade média não.
Somos revoltados porque pessoas são ensinadas a odiarem sua sexualidade sob pena de irem para o inferno. Somos revoltados porque mulheres são convencidas a não exercer sua feminilidade, mesmo que existam igrejas onde a poligamia masculina seja permitida. Igrejas onde as meninas são convencidas a se casarem contra a sua vontade para não serem cobradas em suas pós-vida.
Somos revoltados por ensinarem crianças a odiarem homossexuais, por as doutrinarem a reprimir a sua homossexualidade e a odiarem seus corpos. Somos revoltados por dizerem que se forem gays são doentes e precisam “de cura”.
Somos revoltados porque pais religiosos frequentemente expulsam seus filhos de casa por serem gays quando o certo, o “cristão” a se fazer, seria amar-los e acolher-los, assim como um tal de “Jesus” faria.
Somos revoltados porque humilham e agridem quem é diferente deles com uma mão enquanto na outra seguram algo que é chamado de o “bom livro”.
Somos revoltados porque obras de arte de valor inimaginável como os Budas de Bamiyan foram destruídas pelos Talibãs, por aversão à “idolatria”. Somos revoltados pela pratica monstruosa da infibulação, que consiste em mutilar o clitóris de meninas e mulheres a fim de frear-lhes a sexualidade, e isso tudo com fundamentação em interpretação teológica.
Somos revoltados com a teocracia islâmica onde um o simples desobedecer ao pai ou mero namoro fora do casamento e da religião é punível com açoitamento público e dependendo do caso até a pena de morte por apedrejamento.
Somos revoltados quando sabemos que crianças de 10 anos de idade são forçadas a casar por mero atendimento à crenças e costumes religiosos oriundos de uma época onde as pessoas defecavam no mesmo local em que comiam.
Somos revoltados porque aqui mesmo no Brasil, onde uma outra criança de 9 anos foi estuprada e engravidou e ter um aborto autorizado, ser comunicada que tanto os médicos que fizeram o procedimento, assim como a família que a permitiu, foram excomungados pela Igreja Católica. Somos revoltados também, porque essa mesma igreja Católica não teve essa mesma atitude para com o animal que praticou tal estupro e não o excomungou também. Ora, que pesagem é essa? Que mensagem é essa perpetuou?
Nós ateus nos revoltamos com o fato de que essa mesma Igreja Católica só reconheceu e se desculpou em 1992 pela injustiça que praticou com Galileu em 1663. Nos revoltamos porque 300 anos é muito tempo até se pedir desculpas.
Nós ateus ficamos revoltados quando vemos pessoas diariamente sendo roubadas e abusadas em sua fé por pastores que lhes passam a perna sem a menor piedade. Por larápios disfarçados de cordeiro com suas mansões na Flórida e seus aviões a jato.
Nós ateus ficamos revoltados quando ouvimos que forças sobrenaturais ou entidades atuam e produzem efeitos sobre um mundo natural, mas são totalmente invisíveis e indetectáveis nesse mesmo mundo natural.
Nós ateus ficamos revoltados quando religiosos nos afirmam que não podemos julgar ou discernir os atos ou omissões divinas faces às tragédias do cotidiano e dizer que deus é mal por isso, vez que nosso critério, por ser humano, é falho, quando esses mesmos religiosos, usam esse mesmo critério humano e falho, para dizer que deus é bom e justo.
Nós ateus somos revoltados vez que não aceitamos com passividade o fato da humanidade se matar de forma rotineira com base em livros sagrados contraditórios e sem nenhuma justificativa que os sustente a não ser a fé de quem os professa.
Nós ateus nos revoltamos quando assistimos aviões serem jogados a 500 KM por hora contra prédios. Nos revoltamos quando vemos cristãos matarem muçulmanos e muçulmanos matarem judeus em um loop de violência infinita em nome de um deus que nunca apareceu nem para um cafezinho.
Nós ateus nos revoltamos sim. E temos orgulho dessa revolta. Temos orgulho de propagarmos o pensamento crítico, o embasamento científico doa a quem doer. Temos orgulho de colocar o dedo na ferida. Temos orgulho de dizer que todos que afirmam suas certezas deveriam ter a obrigação de demonstrar-las com evidências ao invés de empurrar a sujeira para baixo do tapete.
Nós ateus temos vergonha quando religiosos aduzem que a terra foi feita para eles quando sabemos que somos apenas poeira estelar e que a humanidade é um mero piscar de olhos na vastidão do tempo e do espaço.
Nós ateus ficamos revoltados quando religiosos nos chamam de radicais e intolerantes por dizermos: “nós não concordamos com vocês”, “que evidências vocês tem para corroborar o que afirmam”.
Nós ateus nos revoltamos quando religiosos querem tentam passar a imagem de que a revolta ateísta pela religião ocorra não pela religião em si e suas mazelas de clareza meridiana, mas sim porque há algo de errado conosco.
Mas sobretudo, nós ateus nos revoltamos, porque vocês religiosos não se revoltam. Porque não se indignam com tudo o que acontece ao redor do mundo em seu próprio país nas bem nas suas barbas. Que legado deixarão para seus filhos? Um país baseado nas ideias da bancada evangélica? É isso mesmo!?!?! Que não reclamem depois!
Por derradeiro que fique claro que, enquanto essas injustiças forem praticadas, esse tapa na cara do bom senso e da postura intelectualmente mais correta continuar, vocês religiosos terão que lidar com esses “ateus revoltados”.
Esses mesmos ateus revoltados que, durante muitos séculos e até nos dias de hoje, foram e são, perseguidos torturados e mortos. Esses ateus revoltados que, ao longo da história, contribuíram para que a ilusão nunca sobrepujasse a razão. Que trabalharam incessantemente para entregar maravilhas científicas. Que de forma inelutável sangraram para que o ser humano fosse reconhecido por sua mortalidade, falibilidade e racionalidade e ainda assim fosse imprescindível. Termino lembrando o belo questionamento de Douglas Adams: Será que não é o bastante ver que um jardim é bonito sem acreditar que ha fadas escondidas nele?”. Penso que sim…e vocês?
Humberto P. Charles"
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Contos suiços 2
Duas brasileiras...
(irritantemente inaudivel)
-Oi... lembra de mim?
-Não, eu deveria?
-Eu estive aqui duas vezes há uns seis meses atrás.
-Ah, deve ser por isso, é muito tempo e recebo muita gente aqui.
(risinhos)
-Você ia voltar pro Brasil, não?
-Pois é, eu voltei... mas resolvi voltar de novo.
(ri de novo sem se dar conta que ninguém acha graça)
-Mas... sabe... é que sou arquiteta de interiores, vim pra cá há uns anos estudar Feng Chui... acabei descobrindo o meu 'eu' interior, minha vida se transformou aqui como eu nunca imaginei... é quase parte do que sou.
-Hm... bom saber. Mas você queria voltar para o Brasil, não?
-É, por causa da família... você sabe, saudades e tal.
-Mas então?
-Então eu fui, fiquei lá um pouco e precisava voltar. Percebi que não era completa lá.
-Desculpa, não entendi... onde você se sente bem.
-Lá e aqui... lá eu tenho amizades, amigos. Também aproveitei para ir até o Planalto Central e meditar à espera dos discos voadores que têm aterrizado lá.
-Viu algum?!
-Não... mas comprei esse chaveiro, não é uma gracinha?
-... Tá, mas tava falando que tá de volta...?
-Ah, sim... eu precisava de espaço.
-Mais espaço que no Brasil daquele tamanho?
-Ah, mas é que a energia lá não tava boa, sabe... as coisas são assim pra mim, quando é pra ser, não tem jeito.
-Mas e voltou porque, mulher...? Parece tão triste...
-Ah, você percebeu?
(fingindo mal uma surpresa)
-Nada não... eu sou assim. Acabou que não vim direto... parei na França por dois meses. Quis ver onde o Kardec viveu, mas me perdi...
-Que Kardec? Allan Kardec?
-É, eu gosto de estar em contato com pessoas de bons fluídos... mas como eu falava, me perdi naquela droga de cidade, aí resolvi: "vou pra Inglaterra". E fui.
-Londres?
-Não, aquela cidade é horrorosa. Fui para uma cidadezinha do interior, linda, onde teve alguns pousos confirmados.
-Pousos?
-É, ficaram conhecidos como círculos nos campos de trigo...
-Mas isso deu na tevê; dois rapazes que fizeram.
-Nããoo...!! Isso é para as pessoas não se apavorarem.
(se curva na direção da outra e sussurra)
-Sabia que eles estão me observando?
-...
-Não olha agora, mas aquela máquina de café no outro lado da rua é um deles.
-... Mas... (engole em seco e tenta reconduzir a conversa) você falava que aqui é que se encontrou?
-Simm! Adoro isso aqui. Mas as vezes é tão triste, sabe...?
-O que?
-Assim, viver longe do Brasil...
-Mas você tem de se decidir. Lá ou cá.
-Mas eu gosto dos dois, e não consigo decidir.
(faz uma pausa rápida e volta a cochichar)
-O que foi isso?
-Isso o que? Tá me assustando...
-Não ouviu?
-Não...
-Deixa pra lá, deve ser só o vento.
-Não tem vento.
-Não? Hm... Acho que eu vou indo então.
-Claro, apareça sempre.
-Porque?
-... Como assim? Porque você é bem vinda aqui.
-E porque não seria?? Quem é você??
-Eu?
-Onde está a Maria?
-Aqui nunca teve Maria nenhuma.
-Bom, quando ela aparecer, diz que eu mandei lembranças.
-Tá, beijinho, querida.
-Tchau...
(assim que ela sai, a outra corre e fecha a porta. Se senta pra respirar e ouve a batida no vidro atrás de si. Olha assustada e de sobressalto vê a outra com o rosto colado no vidro a poucos centímetros dela)
-Aí!!! Que susto!
(com voz abafada e quase chorando)
-Quer tomar um café comigo?
-Não posso! Vou trabalhar agora.
-Tudo bem, eu volto amanhã.
-Claro.
-Sabe, acho que vou pra China ver a muralha...
(e vira as costas sem parar de falar e caminha até a outra perdê-la de vista na neve).
...
(irritantemente inaudivel)
-Oi... lembra de mim?
-Não, eu deveria?
-Eu estive aqui duas vezes há uns seis meses atrás.
-Ah, deve ser por isso, é muito tempo e recebo muita gente aqui.
(risinhos)
-Você ia voltar pro Brasil, não?
-Pois é, eu voltei... mas resolvi voltar de novo.
(ri de novo sem se dar conta que ninguém acha graça)
-Mas... sabe... é que sou arquiteta de interiores, vim pra cá há uns anos estudar Feng Chui... acabei descobrindo o meu 'eu' interior, minha vida se transformou aqui como eu nunca imaginei... é quase parte do que sou.
-Hm... bom saber. Mas você queria voltar para o Brasil, não?
-É, por causa da família... você sabe, saudades e tal.
-Mas então?
-Então eu fui, fiquei lá um pouco e precisava voltar. Percebi que não era completa lá.
-Desculpa, não entendi... onde você se sente bem.
-Lá e aqui... lá eu tenho amizades, amigos. Também aproveitei para ir até o Planalto Central e meditar à espera dos discos voadores que têm aterrizado lá.
-Viu algum?!
-Não... mas comprei esse chaveiro, não é uma gracinha?
-... Tá, mas tava falando que tá de volta...?
-Ah, sim... eu precisava de espaço.
-Mais espaço que no Brasil daquele tamanho?
-Ah, mas é que a energia lá não tava boa, sabe... as coisas são assim pra mim, quando é pra ser, não tem jeito.
-Mas e voltou porque, mulher...? Parece tão triste...
-Ah, você percebeu?
(fingindo mal uma surpresa)
-Nada não... eu sou assim. Acabou que não vim direto... parei na França por dois meses. Quis ver onde o Kardec viveu, mas me perdi...
-Que Kardec? Allan Kardec?
-É, eu gosto de estar em contato com pessoas de bons fluídos... mas como eu falava, me perdi naquela droga de cidade, aí resolvi: "vou pra Inglaterra". E fui.
-Londres?
-Não, aquela cidade é horrorosa. Fui para uma cidadezinha do interior, linda, onde teve alguns pousos confirmados.
-Pousos?
-É, ficaram conhecidos como círculos nos campos de trigo...
-Mas isso deu na tevê; dois rapazes que fizeram.
-Nããoo...!! Isso é para as pessoas não se apavorarem.
(se curva na direção da outra e sussurra)
-Sabia que eles estão me observando?
-...
-Não olha agora, mas aquela máquina de café no outro lado da rua é um deles.
-... Mas... (engole em seco e tenta reconduzir a conversa) você falava que aqui é que se encontrou?
-Simm! Adoro isso aqui. Mas as vezes é tão triste, sabe...?
-O que?
-Assim, viver longe do Brasil...
-Mas você tem de se decidir. Lá ou cá.
-Mas eu gosto dos dois, e não consigo decidir.
(faz uma pausa rápida e volta a cochichar)
-O que foi isso?
-Isso o que? Tá me assustando...
-Não ouviu?
-Não...
-Deixa pra lá, deve ser só o vento.
-Não tem vento.
-Não? Hm... Acho que eu vou indo então.
-Claro, apareça sempre.
-Porque?
-... Como assim? Porque você é bem vinda aqui.
-E porque não seria?? Quem é você??
-Eu?
-Onde está a Maria?
-Aqui nunca teve Maria nenhuma.
-Bom, quando ela aparecer, diz que eu mandei lembranças.
-Tá, beijinho, querida.
-Tchau...
(assim que ela sai, a outra corre e fecha a porta. Se senta pra respirar e ouve a batida no vidro atrás de si. Olha assustada e de sobressalto vê a outra com o rosto colado no vidro a poucos centímetros dela)
-Aí!!! Que susto!
(com voz abafada e quase chorando)
-Quer tomar um café comigo?
-Não posso! Vou trabalhar agora.
-Tudo bem, eu volto amanhã.
-Claro.
-Sabe, acho que vou pra China ver a muralha...
(e vira as costas sem parar de falar e caminha até a outra perdê-la de vista na neve).
...
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
O fantasma da palavra "aborto".
É com certo enfado que acompanho as discussões fomentadas pelas declarações recentes da ministra da Secretaria de Política para Mulheres, Eleonora Meniccuci, favorável à descriminalização do aborto. Basta uma palavra sobre o tema e recomeça os gritos e vaias dos que simplesmente não querem ouvir, com uma maturidade comparável à uma criança de seis anos. E seus porta-vozes são, como sempre, aqueles que muitas vezes deveriam estar calados. É o caso de Dom José Beneditino Simão, bispo de Assis e integrante da CNBB católica. Não contente por ter passado para a história como um sacerdote delirante ao imprimir panfletos alucinados afirmando que Lula era o novo Herodes em 2010, ele agora é notícia com o comentário de uma fineza impar sobre a ministra Meniccuci: "infeliz, mal-amada e irresponsável". Aparentemente, ele baseou seu comportamento no ensinamento dado pelo próprio cristo, que tratou com fineza igual sua mãe em João 2,4.
O fato é que algumas perguntas, para o terror e confusão de alguns segmentos da sociedade, requerem respostas que não podem ser resumidas em sim ou não. É por isso que quando a pergunta "você é a favor do aborto?" é feita, eu já sei que a pessoa não tem a mínima condição de entender a questão, especialmente colocando-a já sob uma pergunta capciosa. Isso porque a onda new age dos que se dizem contra o aborto (aborto é crime, eles avisam!), partem do princípio que a vida se origina na fecundação, ou como eles gostam de chamar, na concepção. De onde tiraram isso é que ninguém sabe. Nem eles, na verdade, porque basta apertar um pouco e a pérola "ah, mas é o que eu acredito" surge clara como o dia.
Quem diz que a vida começa na fecundação dormiu na aula de biologia. Simples assim. Não há nada evidência alguma fora da especulação causada pelo falatório que garanta isso. A fecundação é feita por duas células reprodutoras cujo pré-requisito necessário é que estejam (surpresa) vivas! Os espermatozóides percorrem um grande trajeto (para eles, claro) até o óvulo formando... uma terceira célula. Essa, por sua vez inicia um processo de divisão interna de células que, a priori, estão tão vivas quanto àquelas que a geraram. É verdade que isso causa um certo desconforto patético aos que querem avidamente fixar um ponto onde a alma é instalada como um programa no casulo em formação.
A vida assim não pode ter começo; ela não inicia de um ponto específico. Isso está fartamente demonstrado por uma série de procedimentos e experimentos. Ela é um processo contínuo de um ser vivo ao outro de transmissão genética. Tem sido assim por gerações, independente se alguns de nós entendem o processo ou não. Da mesma forma, o sol nunca girou ao redor da terra, sempre foi o contrário, embora até pouco tempo todos acreditassem nisso.
Esse conhecimento coloca uma série de questões sob um novo ponto de vista em relação ao aborto; se a vida não "começa" num ponto exato, então espere um pouco... a menstruação mensal das mulheres é um aborto também!! E a masturbação masculina então... um verdadeiro genocídio!!! Esse pensamento paranóico demonstra como a visão dos que não detém conhecimento para o que alegam é falho e superficial.
Sem o tabu social imposto sem reflexão, o processo de interrupção da gravidez pode ter uma discussão mais sadia e sensata. Antes de mais nada, que fique claro, se tem alguém que realmente sofre com o aborto, esse alguém é a gestante que o pratica. Mas claro, a imagem dos que tem os ouvidos vedados a esses argumentam preferem pintá-las no seu imaginário assim:
Retirei essa imagem e a traduzi livremente daqui. O site em questão se chama pelo direito de decidir.
E depois, uma coisa que aparentemente (ou convenientemente) as pessoas que condenam indiscrinadamente essa prática não querem ver é que descriminalizar o aborto não significa que as pessoas serão obrigadas a fazê-lo, nem que está simplesmente liberado para todos. É muita ingenuidade, especialmente das pessoas que lidam com saúde pública e pensam assim, achar que a questão se resolve nisso. A decisão de interromper a gravidez não é fácil, deixa sequelas e com certeza necessita de apoio psicológico para que seja feita. O que essas pessoas não enxergam é que essa criminalização sem sentido (já que a vida não começa num ponto específico, mas é um fluxo contínuo) é que essa situação força o grande número de abortos clandestinos, feitos em clínicas suspeitas, quando não em casa, com agulhas de tricô, por exemplo.
A verdade é que não me cabe decidir se fulana ou beltrana podem ou não interromper a gravidez. O corpo é dela, ela sobretudo e talvez os seus próximos é que devem decidir isso. Porque nada é mais terno que uma criança recém nascida, mas nada é mais deprimente que uma mulher com oito filhos sem poder sustentar a si própria. Ou só com um, mas indesejado. Afinal, a questão não se resume entre os humildes de posses. Quantas famílias eu conheci com aquele ranço velado de uma gravidez que teve, obrigatoriamente que seguir seu curso; de pais que não se separaram ainda por causa desses filhos, daqueles para quem o relacionamento estava no começo e não tinha chance de prosperar, mas aí surge um filho indesejado que mudaria do avesso a vida deles até o fim. A amargura, o ressentimento, a sensação de culpa que algumas dessas pessoas devem sentir quando pensam que talvez tivesse sido melhor interromper a gravidez, mas que desejar isso faz dela uma criminosa e imoral aos olhos dos formadores de opinião atuais.
Não tenho dúvidas que provavelmente muitas dessas mulheres optarão por ter essas crianças com sérias propensões à marginalidade social nessas condições. Mas para aquelas que desejarem a interrupção da gravidez, com o acompanhamento certo, em condições médicas seguras, como eu, da minha casa confortável e aquecida, mesa farta e filhos criados, mas acima de tudo, sem ter absolutamente nada a ver com a vida de quem quer que seja, posso lhe condenar?
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Ligando alguns pontos.....
Como tantas vezes afirmei aqui, uma coisa são os fatos em si, outra sua interpretação. Criar um link entre fatos aparentemente independentes justapondo-os em um panorama mais amplo, que não só ajuda a explicá-los como também contribui a uma compreensão em níveis mais profundos do mundo em que vivemos é uma tarefa nobre, embora deva ser embasada em argumentos convincentes. Algumas vezes, esses fatos me aparecem casualmente, e quando menos espero, o lampejo da conexão enter eles se estabelece. Um exemplo?
Vi de relance um link de notícias que falava sobre a liderança da rede Record de tv sobre a Rede Globo, tudo por conta de um seriado sobre Davi... no caso em questão, não o meu nobre amigo trompista pernambucano que está em Salvador-BA, mas o rei bíblico. Há nesses números, claro, aqueles que já abandonaram a audiência servil da rede criada
por Roberto Marinho; mas esses, desconfio, tampouco dariam Ibope à
Record. Alguns dos comentários que li rapidamente demonstram bem que essa liderança foi obtida porque acertaram em cheio um filão de religiosos evangélicos, que rapidamente abandonam a novela quando o assunto é a bíblia.
Cansados de perder os lucros exorbitantes com as vendas de cds por conta da internet e dos piratas, empresas como a Som Livre passaram a mirar nesse mesmo público, já que, como se sabe, eles não fazem download dos cds, mas os obtém diretamente nas igrejas. Lucro na certa. E a Globo, da qual a Som Livre faz parte, caiu pra dentro anunciando um festival Gospel no fim do ano passado (que vários amigos meus do curso relataram como um dos eventos mais desafinados dos últimos tempos, musicalmente falando, claro). Além disso, incluíram a cantora Aline Barros, um dos ícones desse nicho no especial de fim de ano da emissora carioca, e o nome de jesus figurou estranhamente entre pagodes e axés, sem nenhuma manifestação de incongruencia aparente.
A mesma Globo, aliás, mostrou com certo ar de otimismo a queda dos diversos governantes que viviam em regimes ditatoriais no norte da África e Oriente Médio, no evento conhecido como primavera árabe. Acontece que os ditadores em questão foram ou estão sendo rapidamente substituídos por líderes religiosos fanáticos, e o fato é que ninguém sabe onde vai parar; e nem se estávamos na panela antes e agora fomos para o fogo ou o contrário.
E aqui eu arremato pra dizer que esses eventos são didáticos para demonstrar que quando uma ditadura se vai, é preciso estar atento para não cair em outra. Os contra-a-Globo comemoram a sua aparente fragilidade, mas esquecem que o que vem no lugar é uma rede cujos recursos parecem infinitos, e na prática trazem o embrião que tem brotado das formas mais bizarras, como os trízimos, as canetas abençoadas para concursos e as promessas de curas impossíveis e falsas relações de causalidade entre tragédias e comportamentos.
Essa fé cega que se manifesta na comemoração vibrante que seus seguidores fazem a cada aparição pública do nome de seu deus, ou no aumento do número de fiéis como se estivessem num placar pode parecer ingênua e sem propósito, mas não é. Toda religião e por extensão boa parte dos religiosos (e até não religiosos) são unânimes em pedir liberdade de crenças. Mas, se deixadas por sua própria conta, esses movimentos tendem a tentar dominar o ambiente social em que se encontram. Isso porque a quem se considera ungido, abençoado, um militante das causas divinas, não basta apenas que ele acredite ou siga esses ou aqueles preceitos. É preciso que a pseudo vitória total sobre todos os outros seja sua ou da sua igreja, o que dá no mesmo; que no fim, promessas que nada tem de originais e que lhe chegam por centésima mão por manuscritos e reimpressões que foram feitas a pastores e camponeses na Era do Ferro se cumpram, e que então os pseudo justos sejam elevados, o que quer que isso signifique.
Estou convencido que a natureza do processo religioso é naturalmente seletiva, segregacionista e por isso mesmo, profundamente prejudical ao nosso desenvolvimento como espécie. Católicos criticam evangélicos, que abominam espiritas, e todos juntos odeiam até o último centavo os praticantes de candomblé. E assim por diante. Claro que a liberdade de credo só pode ser garantida por uma entidde independente, de fora desse contexto, para quem não importa o que ou no que você crê, mas sim o que você faz.
Por isso o estado laico é tão importante. Tire isso, e a derrocada de uma rede tradicionalmente sensacionalista como a rede Globo pelo fanatismo dos que vendem canetas Bic como item sagrado troca seis por meia dúzia. Da mesma forma, o apego cego que essas pessoas devotam ao professarem sua fé no imaginário dá a quem controla ou materializa esse imaginário no mundo poderes incalculáveis. Mais um deputado de jesus, e todos aplaudem. Mais uma rede para glória de jesus, idem. E quando tudo estiver cercado, os tais caídos e humilhados serão uma multidão ensandecida, que aprendeu que é certo controlar a vida do outro; que todos devem viver sob as regras biblicas e renderem graças ao seu amigo imaginário, não importa que se diga que vivemos num mundo livre, porque então, a palavra liberdade não terá qualquer sentido. E para espanto dos menos perspcazes, eles farão isso sequer se comoverem, porque acreditam estar certos, e pronto.
Seremos então uma única nação em cristo, sem ou com uma ciência tão deturpada porque contradiz a bíblia que não terá validade alguma; impedidos de navegar sobre os mares à luz do sol da razão que duramente conquistamos por conta dessas caravelas que preferem viajar sob os nevoeiros sem ver o que está à sua frente. E a cada nau perdida na colisão com os rochedos, uma prece e um aceno, e a conveniente atitude de ovelhas sob o comando do pastor; condenando assim todos nós ao ostracismo.
Não é possível, não nesses dias em que tanto sabemos sobre o que fazemos e onde estamos, que as opiniões dos crédulos impeça a liberdade individual. Cada um de nós que nasce carrega a herança de gerações e gerações de pessoas que como nós, que lutaram, venceram e foram vencidos, mas sobretudo triunfaram sobre seus medos, ou não estaríamos aqui.
É preciso que aprendamos com nosso passado e projetemos a partir desse aprendizado o nosso futuro.
Sinais europeus...
Acompanho de longe (embora não tanto agora) a situação espanhola atual. Em meio à ruína econômica que assola o país, não falta quem diga que o acesso para o caos já era nítido há algum tempo. A forma absurda com a qual o sitema de controle aeroportuário barrava brasileiros de forma completamente arbitrária é um dos pontos chaves para entender o processo. Diariamente, acompanho no noticiário a frequencia assustadora de depoimentos desses brasileiros que demonstram mesmo o uso da força desnecessária, dos quais o caso do violonista e compositor Guinga não é uma das exceções, infelizmente.
Uma sociedade secular, que já foi um dos grandes centros de transmissão cultural do mundo, obviamente não cai por acaso. Para isso, normalmente contribuem o desleixo do poder público com suas obrigações mais básicas, introduzindo o descaso geral como norma. Aos poucos, esses descaso leva ao cada um por si, chegando às raias do desespero quando, numa tentativa de conter a entrada de imigrantes ilegais, chega-se ao cúmulo de nivelar por baixo toda uma nação e seus cidadãos.
Mas a Espanha dá outros sinais externos disso, ao demonstrar que seu sistema judiciário também ameaça desabar. É largamente criticado atualmente o afastamento por incríveis onze anos de Baltazar Galzón, um dos juízes que mais promoveu limpezas dentre os torturadores e evasores de divisas; em outras palavras, exatamente o tipo de pessoa que levou o país ao ponto em que se encontra. Ao condenar o magistrado que ficou famoso por levar o ditador Pinochet aos tribunais, a mensagem que transpassa é de que a justiça como tal já é passado naquele país.
Conheci uma argentina que vivia na Espanha por doze anos. De uma hora pra outra, sem emprego, sem ter onde ir. Como ela, venho conhecendo muitos outros, italianos, turcos, portugueses; viajantes, nômades em sua própria terra, em busca de emprego, de uma vida decente e feliz. O rosto de todos se ilumina quando peço detalhes da sua terra natal, mas o brilho rapidamente se esvai. Só reascende quando falo do Brasil, de como estamos indo, de como lentamente, depois de anos de uma política irresponsável que quase dilapidou nosso patrimonio, parece que estamos relativamente mais coesos do que jamais fomos como nação.
E como deve ter ocorrido em outros tempos, percebo nesse interesse pelo nosso país um eco de um passado não tão distante, em que outros europeus em semelhante estado buscavam melhor sorte num lugar que julgavam quase selvagem, mas rico em oportunidades.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
A vitrola quebrada
Em todo lugar que se olhe, parece haver uma tendência à generalização. Somos um povo que a tevê insiste em mostrar como trabalhador mediano, que passa o ano regados a futebol e novela esperando chegar as férias. A rotina diária parece ser compensada pela ênfase que se dá nos feriados; natal, ano novo, carnaval...
Nessa mesma esteira, cantores e músicas que nada tem de especiais são pinçados ao acaso e elevados aos píndaros da exposição pública, criados em laboratório pra fazer sucesso; leia-se para alguém (geralmente não o cantor) ganhar muito dinheiro. A vitrola quebrada que repete insistentemente nesses últimos dias a música de Michel Teló faz parte desse processo. Alçado ao topo por uma explosão midiática instantânea, o fenômeno "ai, se eu te pego" que invade você onde quer que esteja esconde por trás de si um aparato absurdo de marketing onde quem menos ganha é o próprio Teló.
Não há nada de errado com músicas passageiras, que vão e vem toda semana. São um gênero como qualquer outro. Mas, asim como a ênfase em qualquer aspecto tende a ofuscar os demais, esse efeito de agulha saltando no vinil e repetindo sempre o mesmo trecho (no caso, as mesmas músicas), cria a falsa impressão que isso é o melhor da nossa produção cultural. Ela literalmente emburrece o gosto musical do ouvinte mediano que tem na tevê sua única e maior diversão. O passante que busca na tevê uma forma de se informar sobre o que acontece no restante do país tem na verdade uma amostra selecionada como se a realidade fosse aquilo.
A própria rede Globo, que protagoniza vexames desse tipo, é pródiga em criar o que não existe. Diariamente, ela tem nos brindado com esse programa infame chamado big brother, que nada mais é do que uma ode à imbecilidade. Literalmente estuprando o bom senso, as três consoantes BBB viraram um sinônimo daquilo que de pior o ser humano tem a oferecer. A ostentação, a mentira, a dissimulação, a fofoca, o cultivo da aparência em detrimento do intelecto. Como se isso não bastasse, ela insiste em tornar essa aberração pública, valendo-se de uma concessão estatal que deveria propor uma contrapartida de divulgação cultural (real e sem apelação). E quando a agenda distorcida a que se propõe é materializada em cadeia nacional de forma criminosa, ela ainda faz graça na figura patética de um Pedro Bial e seus poemas pra lá de duvidosos.
Não que isso espante vindo de onde vem. Qualquer pessoa interessada em saber a história de Roberto Marinho e sua organização sabe como seu império foi construído e quais foram suas metas. O duro é ver as pessoas à sua volta com a capacidade de pensar moldada pelo personagem raso da novela, o comentário sem sentido ou tendencioso de alguns jornais; pessoas em que a tevê ligada governa a vida familiar, está no centro da sala, domina as conversas, as refeições, os encontros e reencontros. Sem perceber, as pessoas participam passivamente de cerimônias reais pomposas onde a sanidade é mantida de fora, e a estupidez adentra o salão com garbo e é coroada sob a alegria geral.
Pessoalmente, minha sugestão é nunca acreditar em quem fala "em nome do Brasil", mas não foi eleito pra isso. Tento compensar cada programa, cada bizarrice elevada falsamente a um evento nacional com um pensamento simples: o que o vizinho que não conheço está fazendo agora...? E as pessoas da minha rua, da minha cidade, do meu estado...? E aquele grupo de maracatu que vi um dia, por onde anda? Tendemos a não nos dar conta que existe vida inteligente fora da tevê e que expurgar essa dependência é mais do que uma feliz curiosidade, mas uma forma efetiva de viver melhor.
sábado, 31 de dezembro de 2011
2012 e o balanço anual
E 2011 agoniza em suas últimas horas.
Um ano. "Passou voando", dirão uns; "passou se arrastando", dirá o encarcerado.
Eu estive em vários lugares, conheci muita gente, deixei o convívio de outras, vivi várias vidas. Vi o sol nascer e se pôr muitas vezes, amei e fui amado.
Trago comigo todos os meus grandes amigos, suas melhores tiradas, seu sorriso mais debochado, aquele aperto de mão inesperado, o abraço despretencioso mas tão necessário...
Também carrego em pensamento seus momentos mais tristes, o desânimo dos que se julgam pequenos, incapazes, dos que se cobram demais. Suas lágrimas, incertezas, dúvidas...
Mas não só eles... também trago pessoas que conheci pouco, as que só ouço falar, as que nunca vi. Seus pensamentos, materializados por uma idéia, um lampejo de criatividade, um livro, uma frase. Uma música que bailou incólume em sua imaginação, anotada em algumas linhas e que todos nós agora tentamos reconstruir cada vez que tocamos.
Também trago comigo a vida dos que já se foram; a longa marcha de meus ancestrais que atravessaram savanas e continentes, campos e cidades. Entre cavernas e tavernas, o medo que o fogo do conhecimento afugentou...
E de todos eles, absolutamente todos, tenho aqui comigo uma parte. E desse gigantesco caledoscópio do qual sou sou composto, dificilmente saberia dizer ao certo onde eles terminam e eu começo.
Esse pensamento me embala e me acorda. Permite que eu veja além da trama dos fios que cobre o céu. A cada dia, eu tenho a sensação que, como representante dessa longa jornada de pessoas, descendente de guerreiros, nobres, artesãos, carpinteiros; de todos eles, aprendi também eu a ser um forte. A não me curvar ao que não se conhece, nem me deixar vencer pelo desânimo. A combater a maldade e a ignorância, a ironizar os obtusos e rir da hipocrisia.
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E como uma formiga, eu sigo a marcha traçada há muito por força de circunstância, embora tenha aprendido cada vez mais a delinear eu mesmo seu contorno e trajetória.
Nesse ano novo, não faço promessas. Não salto ondas, nem peço nada. Eu aprendi do que a fumaça é feita. Só agradeço a todos esses que, conscientes ou não, cruzaram meu caminho e incrustraram em mim o desejo de viver e de ser esse elo entre os que viveram e os que ainda viverão.
Boas festas e um grande abraço!!
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