Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(...)
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.
(...)
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.
Trechos de Passagens das Horas, por Álvaro de Campos (também conhecido por Fernando Pessoa)
segunda-feira, 22 de março de 2010
domingo, 21 de março de 2010
"Traduzir-se" por Ferreira Gullar
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?
Ferreira Gullar
sábado, 20 de março de 2010
Um pensamento...
O fato de um crente ser mais feliz que um cético não quer dizer muito mais que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que um sóbrio.
George Bernard Shaw
quarta-feira, 17 de março de 2010
Augusto Cury é Paulo Coelho reencarnado?
Não é de hoje que os livros de Paulo Coelho não me chamam a atenção. Já li alguns deles no passado e confesso que por um tempo eles até tiveram algum respaldo pra mim. Comecei por "Brida", depois "O Monte Cinco" e, por último, "Verônica decide morrer". O que transparece na leitura é aquela sensação estranha de fórmula manjada, como uma banda que grava sempre músicas parecidas com um antigo rit de sucesso. Não espere em nenhum desses livros qualquer desfecho diferente daquele que naturalmente se deseja em novelas televisivas: que a ala do bem fique numa boa (apartamento em Copacabana, viagens ao exterior e festas reunindo todo mundo) e a galera do mal sofra (prisão, morte, loucura, sofrimento, etc...).
Pois bem, eis algumas das suas pérolas:
Embora meu objetivo seja compreender o amor, e embora sofra por causa das pessoas a quem entreguei meu coração, vejo q aqueles q me tocaram a alma ñ conseguiram despertar meu corpo, e aqueles que tocaram meu corpo ñ conseguiram atingir minha alma.
...
Tudo que acontece uma vez poderá nunca mais acontecer, mas tudo o que acontece duas vezes, certamente acontecera uma terceira.
...
Todos os dias Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. O instante mágico é o momento em que um 'sim' ou um 'não' pode mudar toda a nossa existência.
As coisas mais simples da vida são as mais extraordinárias, e só os sábios conseguem vê-las.
...
Ninguém consegue mentir, ninguém consegue esconder nada quando olha direto nos olhos.
E toda mulher, com um mínimo de sensibilidade, consegue ler os olhos de um homem apaixonado.
Construí amigos, enfrentei derrotas, venci obstáculos, bati na porta da vida e disse-lhe: Não tenho medo de vivê-la.
Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam as suas mãos para cultivá-las.
Quando somos abandonados pelo mundo, a solidão é superável; quando somos abandonados por nós mesmos, a solidão é quase incurável.
Os problemas nunca vão desaparecer, mesmo na mais bela existência. Problemas existem para serem resolvidos, e não para perturbar-nos.
A vaidade é o caminho mais curto para o paraíso da satisfação,porém ela é, ao mesmo tempo, o solo onde a burrice melhor se desenvolve.
Os que desprezam os pequenos acontecimentos nunca farão grandes descobertas. Pequenos momentos mudam grandes rotas.
Se um dia fecharem-lhe as portas da vida, pule a janela.
E toda mulher, com um mínimo de sensibilidade, consegue ler os olhos de um homem apaixonado.
...
Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado, consegue estar certo duas vezes por dia.
...
Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo.
Pois bem, nessa onda de best sellers onde a importância de um autor aparentemente é medida pela quantidade de livros vendida, Augusto Cury vem ganhando destaque na mídia em geral e, por conseguinte, nas prateleiras de muitos aficcionados pela sua literatura. Autor de livros como "Pais Brilhantes, Professores Fascinantes", "Você é insubstituível" e "Análise da inteligência de Cristo: o mestre inesquecível" (?), ele justapõe conceitos óbvios da auto-ajuda com uma linguagem rebuscada de médico, psiquiatra e psicoterapeuta. O resultado é uma coleção de lugares comuns típicos, no melhor estilo "se não chutar, não sai gol".
Algumas dessas pérolas:
Pois bem, nessa onda de best sellers onde a importância de um autor aparentemente é medida pela quantidade de livros vendida, Augusto Cury vem ganhando destaque na mídia em geral e, por conseguinte, nas prateleiras de muitos aficcionados pela sua literatura. Autor de livros como "Pais Brilhantes, Professores Fascinantes", "Você é insubstituível" e "Análise da inteligência de Cristo: o mestre inesquecível" (?), ele justapõe conceitos óbvios da auto-ajuda com uma linguagem rebuscada de médico, psiquiatra e psicoterapeuta. O resultado é uma coleção de lugares comuns típicos, no melhor estilo "se não chutar, não sai gol".
Algumas dessas pérolas:
Construí amigos, enfrentei derrotas, venci obstáculos, bati na porta da vida e disse-lhe: Não tenho medo de vivê-la.
Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam as suas mãos para cultivá-las.
Quando somos abandonados pelo mundo, a solidão é superável; quando somos abandonados por nós mesmos, a solidão é quase incurável.
Os problemas nunca vão desaparecer, mesmo na mais bela existência. Problemas existem para serem resolvidos, e não para perturbar-nos.
A vaidade é o caminho mais curto para o paraíso da satisfação,porém ela é, ao mesmo tempo, o solo onde a burrice melhor se desenvolve.
Os que desprezam os pequenos acontecimentos nunca farão grandes descobertas. Pequenos momentos mudam grandes rotas.
Se um dia fecharem-lhe as portas da vida, pule a janela.
Com exceção desse último pensamento, que pode ser extremamente perigoso se entendido ao pé da letra (especialmente se vc mora no 23º andar), os demais são todos copilações de frases de efeito, que não por acaso tem esse nome. Elas buscam sempre trazer ao leitor uma compreensão "filtrada" da realidade, um lugar comum e fácil onde brota a comodidade e o conforto através da mera consciência e do desejo pessoal.
A comparação com autores consagrados na literatura é injusta, mas serve como ponto de apoio para exemplificar o que quero dizer; personagens como Don Quixote¹, Dorian Gray², Gilliat³, Sydney Carton¹¹ e (li esse recentemente, presente da keko²²) Geraldo Viramundo³³ não são meras criações literárias para exibições de frases de efeito. Eles são, sim, personagens complexos e profundos, que exploram intensamente nosso caráter ambíguo e contraditório, nossa doçura e raiva, como seres caridosos e mesquinhos. Já foi dito que o Jesus bíblico seria uma caricatura sem graça se comparado à complexidade visceral de qualquer personagem da obra de Dostoiéviski. Acho que o mesmo vale aqui.
O problema da história do "universo ao seu favor" é que ela não encontra respaudo no mundo real. Como sábios visionários também não. E pessoas que não sentem medo. E bondade absoluta. E assim por diante.
Somos formigas presas numa garrafa tentando ler o mundo lá fora através de um vidro trincado, sujo e desfocado, mas ainda assim somos fortes e profundamente corajosos diante do desconhecido (viu como pega... rsrs). Entender nossa falibilidade demonstra a extensão da nossa insignificância, mas também a grandeza do nosso caráter e a nossa honestidade frente ao que não conhecemos, minimizando nossa ignorância, ajustando nossos ponteiros com um universo já em rotação própria e não o contrário, sob todos os aspectos.
Tenho de proclamar a minha incredulidade. Para mim não há nada de mais elevado que a ideia da inexistência de Deus. O Homem inventou Deus para poder viver sem se matar.
Fiodor Dostoiéviski
1. O cavaleiro errante, que tenta a todo custo viver seu sonho medieval num mundo onde o cavalheirismo não tinha mais espaço. Da obra homônima de Miguel de Cervantes.
2. O personagem de Oscar Wilde imortalizado através de um retrato, que passa por sua vez a envelhecer em seu lugar, embora seu caráter desvirtuado não o permita encarar a pintura, como alguém que evita espiar a própria consciência.
3. O pescador de Victor Hugo em "Os trabalhadores do mar", que sonha com um amor platônico e termina facilitando a fuga da sua amada com outra pessoa, morrendo lentamente na subida da maré ao vê-la partir.
11. O fantástico antipático e irônico personagem de Charles Dickens em "Um Conto de Duas Cidades", que termina assumindo o lugar de um desafeto no cadafalso, morrendo por alguém que nem conhecia, nem gostava direito.
22. Minha negrinha... "a linda flor do meu sertão pernambucano".
33. O grande mentecapto de Fernando Sabino em obra homônima, que percorre um estado de Minas Gerais quase pictórico, oscilando entre a extrema bondade, profunda ingenuidade, grande sabedoria e loucura demente.
33. O grande mentecapto de Fernando Sabino em obra homônima, que percorre um estado de Minas Gerais quase pictórico, oscilando entre a extrema bondade, profunda ingenuidade, grande sabedoria e loucura demente.
Curtas e boas... ou rindo pra não chorar!!
Comédia sem precedentes, seleção natural onde as baboseiras se valem de uma educação ineficiente, incompleta e obtusa para se proliferarem. Faz me lembrar ironicamente o evangelho de marcos, capítulo 13, versículo 7:
"Porque naqueles dias haverá tribulações tais, como não as houve desde o princípio do mundo que Deus criou até agora, nem haverá jamais".
Pastor transforma metais em ouro!!!
Lipoaspiração pentecostal (tb conhecido como pastor "Dr Hollywood"!!!)
Enquanto isso, na saída de alguma fonte miraculosa em algum lugar do mundo, essa imagem que poderia ser livremente traduzida por cura à frente.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Pat Condell arrasador...
Pat Condell é um humorista inglês que tem um talento impressionante com as palavras. Ele também é extremamente contundente nas suas colocações e muita gente reclama disso. Mas no fundo, apesar dessa aparência agressiva do discurso, é impossível não ficar admirado, porque não vejo ninguém refutando suas opiniões com outras com o mesmo nível de elaboração e evidências.
Segue um sobre o clero... ah, esqueci de avisar, ele é ateu convicto, como vcs podem ver, então, aos religiosos apavorados com a iminência do juízo final, por favor, tirem as crianças da sala.
sábado, 6 de março de 2010
A palavra do dia é: PEDANTE
Tem palavras que eu leio e com frequencia esqueço o significado. Vou postar algumas delas até como lembrete pra mim mesmo.
Pedante
Pedante
"Pedante é aquela pessoa que possuiu muita “vaidade” na maneira com que fala das coisas, e que acaba de forma arrogante e precipitada ostentando conhecimentos que na verdade não possui. Todos que foram adolescentes um dia sabem o que é isso. Geralmente este comportamento está relacionado com uma necessidade de auto-afirmação, uma necessidade de se impor ideologicamente. O profissional pedante é aquele que vai se apegar a detalhes desnecessários e vai se esquecer do principal."
Disponível aqui.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Suicídio homeopático fracassa na Inglaterra
Numa demonstração/protesto contra a completa ineficácia dos chamados medicamentos "homeopáticos", nada mais, nada menos que 400 britânicos tomaram juntos uma série deles buscando uma overdose que, claro, não ocorreu.
O protesto foi no dia 30 de janeiro, precisamente às 10:23h. A homeopatia é muito disseminada na Inglaterra, onde foi regulamentada como prática médica desde 1950.
Postagens...
Escrever dá trabalho. É a conclusão a que chego cada vez que me posiciono em frente ao computador para postar algo aqui. Não quero fazer isso de qualquer jeito e sair falando coisas que podem perfeitamente passar por dignas de confiança, mas que são o mais completo disparate. E isso independente que a maioria das poucas pessoas que lêem nunca descubram. Já existe ignorância demais nesse planeta para que eu seja mais um disseminador.
Como falei em outro post, recebo frequentemente mensagens de todo tipo, como qualquer pessoa que tenha e-mail e uma comunidade razoável de amigos virtuais. Mas me impressiona a quantidade de pessoas que se propõe a passar adiante a primeira coisa que lhes cai à mão, sem consultar uma única fonte independente. Um exemplo:
Recebi quatro mensagens independentes (não eram remetentes comuns) sobre a o vídeo misterioso que mostrava luzes no céu da Noruega no começo de dezembro de 2009.
Antes mesmo de qualquer esclarecimento ou investigação, todas as mensagens que recebi atiravam todas as fichas em "acontecimentos que ninguém explica", ou "eles estão entre nós". Bastou dois dias para a verdade ser revelada: a imagem é na verdade de um míssel russo num teste mal sucedido que acabou se convertendo num fiasco para a própria Rússia.
Ao que tudo indica, o fantástico, o sobrenatural, o impossível, são a primeira opção de explicação para aqueles que buscam avidamente um ponto de apoio para suas convicções. O que pode não ficar claro nesse comportamento é que, agindo instintivamente dessa forma, não somos muito diferentes dos nossos antepassados quando contemplavam relâmpagos em tempestades noturnas nos vales e planícies e atribuiam isso às mais variadas divindades.
Ser cético, nesse contexto não é ser frio, calculista, sem paixão. Considero, ao contrário, que escrever citando as melhores e mais confiáveis fontes, embasando o pensamento naqueles que nos antecederam de forma brilhante, não é um mero capricho ou exercício intelectual desnecessário, mas uma necessidade real contra a gigantesca aura de superficialidade e pseudo-mistério que nos ronda constantemente. Isaac Newton disse a célebre frase que se pode ver mais longe foi porque estava apoiado sobre ombros de gigantes. Fazia uma referência a todos aqueles que pesquisaram e acumularam esse vasto campo que é o conhecimento humano.
Somos todos, direta ou indiretamente, o resultado final de uma espécie com uma longa jornada genético-evolutiva, que cruzou os tempos mais remotos sob as formas mais diversas, e que num período relativamente recente, iniciou o acúmulo de conhecimento de uma geração para outra. Perceber a forma como esse conhecimento foi acumulado nos permite entender as avanços da nossa sociedade atual, com seus problemas e consequencias; mas também nos torna portadores de uma responsabilidade velada, quase silenciosa: a de velar por essas conquistas e propagá-las.
Acabou ficando sério demais o texto, mas acho que traduz bem o que sinto hoje, então vou deixar assim...
Grande abraço a todos!
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Sobre Poços de Caldas e outras coisas...
Estive no mês de janeiro no Festival de Música de Poços de Caldas que é sem dúvida um evento singular. Não só pelo fato de estar bem acompanhado (e eu estava), mas também pela oportunidade única de ver e ouvir de perto pessoas que admiro sinceramente, especialmente pela aparente paradoxo do jeito tranquilo e despreocupado de ser com uma leitura extremamente refinada da vida e do mundo através da própria arte. E digo aparente porque a gente percebe depois, olhando com mais frieza, que elas na verdade se completam; essa transparência, essa calma, o jeito divertido de dizer as coisas mais incríveis, de fazer as coisas mais difíceis musicalmente falando soarem como uma conversa despretenciosa, isso tudo é prova mais que suficiente do erro que é considerar certas formas mais refinadas de arte como erudita em detrimento de outras consideradas como populares.
A mesma desenvoltura que vi nos palcos em apresentações e concertos sensacionais como o de Nailor Proveta, Luis Afonso Montanha, Quarteto São Paulo e o quinteto de clarinetas Sujeito a Guincho com a cantora Monica Salmasso, encontrei também na conversa com vários deles numa pizzaria da cidade.
Foram dias sensacionais, cujas lembranças vão se perpetuar na memória...
Depois disso, é engraçado ver vídeos como esse, em que essas pessoas aparecem fazendo o que sabem melhor, num evento que reúne a OSESP, a Banda Mantiqueira e a cantora Mônica Salmasso na Sala São Paulo, sem pensar que esse cenário fantástico e surreal é feito com pessoas simples e despretenciosas.
Dá só uma olhada nesse arranjo fenomenal de "Chiclete com Banana"... a tal questão diplomática entre Brasil e Estados Unidos que Lucca Raele fala de forma bem humorada na versão do Sujeito a Guincho é nitidamente vista aqui; temas brasileiros e norte-americanos que brincam numa bem humorada batucada brasileira.
Haiti: deus e a desgraça coletiva
Estou habituado a ler bobagens de todo o tipo na internet e como outras pessoas que conheço, desenvolvi anticorpos para não me deixar afetar por elas. Assim, boa parte dessa montanha de absurdos passam incólumes por mim e não perco meu tempo mais respondendo arquivos feitos no PowerPoint, que sem citar referência alguma, pregam sobre uma pseudo cura do câncer, "provas científicas" da passagem dos hebreus pelo mar vermelho por pessoas que nem sabem o significado da palavra 'prova', e as mensagens que são as melhores de todas na minha opinião: "se apagar isso sem ler, sinceramente vc não tem coração". E segue a choradeira, um exemplar da desgraça humana a que estão sujeitos qualquer um de nós, mas elevada a uma potência extrema, com música em mid e frases de efeito (frequentemente com autoria trocada, como uma que recebi essa semana que atribuía a Einsten uma frase de Shakespeare... é, nem me pergunte). Bom, só pra pontuar essa parte, e sob esse aspecto em particular, EU NÃO TENHO CORAÇÃO MESMO...
Entretanto, algumas vezes o pessoal pega pesado demais, mesmo para os padrões habituais de ignorância e mal gosto a que certas pessoas estão acostumadas. Com essa tragédia no Haiti, eu imaginei que não ia demorar a aparecer aqueles adeptos da livre associação. Só não imaginei tamanho absurdo...
Através de blogs e sites, pessoas tem manifestado opiniões de deixar qualquer um boquiaberto; a de que existe um culpado pela desgraça no Haiti... e esses culpados são, acredite, os pobres moradores de lá!
Num blog intitulado Teologia Pentecostal, o autor afirma com todas as letras que a culpa pela tragédia é do homem e do pretenso e cansativo argumento do pecado original (aquele terrível acontecimento que envolve duas pessoas nuas e frutas de feira). O pastor norte-americano Pat Roberson diz (a versão integral aqui com o vídeo original) que a culpa é do pacto com o diabo feito pelos haitianos para serem livres do domínio francês. E até o cônsul do Haiti em São Paulo deu mostras do quanto esse pensamento estúpido está arraigado; sem saber da gravação, ele afirma a um jornalista do SBT que "essa desgraça está sendo boa pra nós [?]" e que acha que a culpa é da prática do vodu (!!). E mais, ele diz que o africano em si tem maldição e que "todo lugar que tem africano tá fodido" (a censura corta, mas eu não). Como se sabe, 90% do país é (era...?) de ascendência africana. E por ai vão..........
Não vou nem comentar caso a caso; eles não merecem mais que uma citação aqui nesse espaço. Mas me sinto na obrigação de dizer como contemporâneo do meu tempo que suposições como essa me deixam horrorizado. Eu sei que o homem na sua história relacionou causas e efeitos de forma arbitrária, como prova a história das religiões, uma tentativa, ainda que primitiva, de explicação do mundo. Só acho que não é mais admissível nos dias de hoje utilizar argumentos da época em que se julgava que o mundo era plano, o céu uma redoma, monstros marinhos era uma ameaça real...
Desastres acontecem, como esse do Haiti, furacões no Pacifico, o tsunami na Indonésia; não é nada mais que o planeta e suas forças internas trabalhando, placas tectônicas se ajustando. Isso é pouco perto das violentas mudanças que o planeta já sofreu no passado remoto, com choques de asteróides e variações climáticas abruptas.
Zilda Arns foi uma vítima como eu também poderia ter sido, se tivésse escolhido o Haiti como destino na mesma época. Da mesma forma, as pessoas do Haiti são vitimas inocentes e desorientadas, cuja condição anterior de miseráveis só dá contornos ainda mais dramáticos ao cenário. Pessoas vagando sem rumo se sobrepõem a corpos putrefados e o mal cheiro geral... Foi como tirar tudo de quem já não tinha nada. Creditar uma vingança divina nesse caso é atestar o caráter mesquinho e incompetente de quem tudo podia e nada fez.
Zilda Arns foi uma vítima como eu também poderia ter sido, se tivésse escolhido o Haiti como destino na mesma época. Da mesma forma, as pessoas do Haiti são vitimas inocentes e desorientadas, cuja condição anterior de miseráveis só dá contornos ainda mais dramáticos ao cenário. Pessoas vagando sem rumo se sobrepõem a corpos putrefados e o mal cheiro geral... Foi como tirar tudo de quem já não tinha nada. Creditar uma vingança divina nesse caso é atestar o caráter mesquinho e incompetente de quem tudo podia e nada fez.
Se isso é prova de misericórdia, eu já estou servido, obrigado.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Google Earth captura tubarões em volta de surfista...
O nível de detalhamento da imagem é impressionante... e o pessoal da Discovery ainda permite a ampliação gradual cena à cena.
Não consegui linkar direito, então para ir à página, CLIQUE AQUI.
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Natal de novo...
Pois é, nem parece que mais um ano passou... sempre temos a referência do transcorrer do tempo em marcos importantes, como aniversários, datas festivas e encontros familiares. Normalmente a rotina do dia a dia passa meio despercebida, ao menos o bastante pra não ser notada.
Quando a gente olha prá trás numa época dessas, normalmente tem a irresistível vontade de basear-se somente nessas referências marcantes; nesse contexto, claro, "o ano passou voando"...
Mas é claro que não é assim; estivemos aqui marcando nossa passagem nesse planeta em cada uma das vinte e quatro horas do dia a dia; em cada uma das quatro longas semanas do mês, cada um dos doze intermináveis meses do ano (que o diga o pessoal que estuda!!!)...
É impossível lembrar dos detalhes de tudo isso, o que é antes de tudo uma grande vantagem; o cérebro vai selecionando o que importa e arquiva, enquanto o restante é relegado a um segundo plano, para deixá-lo livre para novas associações. Assim, feliz daqueles que possuem essa incrível capacidade de esquecer... rsrs.
Por outro lado, um balanço cuidadoso pode revelar aspectos importantes das metas que nos propomos a cumprir pulando as ondas na praia e levando rolhas de champagne na cabeça adoidados.
Bom, às vezes acho que não tem nada mais manjado que fazer feedbacks no fim de ano, mas no final das contas, é disso que nós vivemos; isso permite que, a todo momento, possamos nos posicionar diante da nossa própria vida... e pra onde ela está indo. É fato que nossa contagem de tempo é arbitrária, já que nossos referenciais são no fundo muito pessoais; o passado pode nos parecer um baú de experiências boas e ruins, que temos de aprender e revisar no presente para que tenhamos um futuro melhor; mas também é possível que passado e futuro não existam, e sejam ambos vazios de significados além de delimitar aquilo que realmente importa: nosso momento presente. Esse momento, vivo, multicolor, presente e único, poderia ser um ponto que se move, ao mesmo tempo, alimentando-se do futuro e projetando no passado sua sombra, deixando pra trás seu lastro.
O que quer que quer que quer que seja, sempre é bom poder chegar à conclusão que esse último ano não foi em vão; que fizemos valer à pena cada minuto, cada riso, cada beijo. Preocupar-se demais com passado e futuro pode nos fazer esquecer do que temos de melhor e uma das nossas poucas certezas: nosso momento presente. Por isso, nesse novo ano que se inicia, to pensando seriamente em abolir minha lista interminável de promessas, os dez mandamentos, as regras de ortografia (nova e velha), normas da ABNT, estereótipos, costumes, "tradição"; ao invés disso, entro no novo ano pensando somente nisso: fazer valer à pena...
Quem ganha com isso? Bom, se você riu um pouco, então com certeza foi você mesmo...
Grande abraço às grandes pessoas que estiveram comigo, poucos presentes fisicamente, a maioria na minha lembrança e pensamento; amigos de perto e de longe, de ontem e de hoje, mas sobretudo, de sempre...
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Da série "O que não faz a marvada...."
Ao som de "Saia Rodada" (sim, é esse o nome, e não, não foi idéia minha), uma excelente demonstração de instabilidade, imprevisibilidade e oscilações aleatórias...
sábado, 12 de dezembro de 2009
Fim de semana em ritmo de festa...
"Dale a tu cuerpo alegria Macarena
Que tu cuerpo es pa' darle alegria y cosa buena
Dale a tu cuerpo alegria, Macarena
Hey Macarena"
sábado, 5 de dezembro de 2009
Comerciais para o Accord da Honda...
Dois comerciais legais, provando que a propaganda (criativa, bem feita) é a alma do negócio...
O primeiro é uma sequencia incrível de transmissão de movimentos através das peças do carro (Accord Honda), que vão sendo acionadas uma a uma e como consequencia do movimento anterior durante mais de dois minutos... simplesmente impressionante. Foi rodado em tomada única e sem cortes, o que exigiu centenas de tomadas até ser possível que tudo funcionasse como planejado. Ao final (e quase como ironia), o narrador pergunta "não é bom quando as coisas simplesmente... funcionam?"
O segundo é mais curto, e feito em 3D... mas achei bem legal. Ao som de Miriam Makeba, cantora e ativista contra o Apartheid, a proposta é mostrar que o porta malas do carro é espaçoso, cabendo de tudo...
Tirinhas de Carlos Ruas
Retiradas do site http://www.umsabadoqualquer.com/.
Se não der pra ler, basta clicar em cada imagem que ela abre em nova janela maior...
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