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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Contos suiços 2

Duas brasileiras...

(irritantemente inaudivel)
-Oi... lembra de mim?

-Não, eu deveria?
-Eu estive aqui duas vezes há uns seis meses atrás.
-Ah, deve ser por isso, é muito tempo e recebo muita gente aqui.
(risinhos)
-Você ia voltar pro Brasil, não?
-Pois é, eu voltei... mas resolvi voltar de novo.
(ri de novo sem se dar conta que ninguém acha graça)
-Mas... sabe... é que sou arquiteta de interiores, vim pra cá há uns anos estudar Feng Chui... acabei descobrindo o meu 'eu' interior, minha vida se transformou aqui como eu nunca imaginei... é quase parte do que sou.
-Hm... bom saber. Mas você queria voltar para o Brasil, não?
-É, por causa da família... você sabe, saudades e tal.
-Mas então?
-Então eu fui, fiquei lá um pouco e precisava voltar. Percebi que não era completa lá.
-Desculpa, não entendi... onde você se sente bem.
-Lá e aqui... lá eu tenho amizades, amigos. Também aproveitei para ir até o Planalto Central e meditar à espera dos discos voadores que têm aterrizado lá.
-Viu algum?!
-Não... mas comprei esse chaveiro, não é uma gracinha?
-... Tá, mas tava falando que tá de volta...?
-Ah, sim... eu precisava de espaço.
-Mais espaço que no Brasil daquele tamanho?
-Ah, mas é que a energia lá não tava boa, sabe... as coisas são assim pra mim, quando é pra ser, não tem jeito.
-Mas e voltou porque, mulher...? Parece tão triste...
-Ah, você percebeu?
(fingindo mal uma surpresa)
-Nada não... eu sou assim. Acabou que não vim direto... parei na França por dois meses. Quis ver onde o Kardec viveu, mas me perdi...
-Que Kardec? Allan Kardec?
-É, eu gosto de estar em contato com pessoas de bons fluídos... mas como eu falava, me perdi naquela droga de cidade, aí resolvi: "vou pra Inglaterra". E fui.
-Londres?
-Não, aquela cidade é horrorosa. Fui para uma cidadezinha do interior, linda, onde teve alguns pousos confirmados.
-Pousos?
-É, ficaram conhecidos como círculos nos campos de trigo...
-Mas isso deu na tevê; dois rapazes que fizeram.
-Nããoo...!! Isso é para as pessoas não se apavorarem.
(se curva na direção da outra e sussurra)
-Sabia que eles estão me observando?
-...
-Não olha agora, mas aquela máquina de café no outro lado da rua é um deles.
-... Mas... (engole em seco e tenta reconduzir a conversa) você falava que aqui é que se encontrou?
-Simm! Adoro isso aqui. Mas as vezes é tão triste, sabe...?
-O que?
-Assim, viver longe do Brasil...
-Mas você tem de se decidir. Lá ou cá.
-Mas eu gosto dos dois, e não consigo decidir.
(faz uma pausa rápida e volta a cochichar)
-O que foi isso?
-Isso o que? Tá me assustando...
-Não ouviu?
-Não...
-Deixa pra lá, deve ser só o vento.
-Não tem vento.
-Não? Hm... Acho que eu vou indo então.
-Claro, apareça sempre.
-Porque?
-... Como assim? Porque você é bem vinda aqui.
-E porque não seria?? Quem é você??
-Eu?
-Onde está a Maria?
-Aqui nunca teve Maria nenhuma.
-Bom, quando ela aparecer, diz que eu mandei lembranças.
-Tá, beijinho, querida.
-Tchau...
(assim que ela sai, a outra corre e fecha a porta. Se senta pra respirar e ouve a batida no vidro atrás de si. Olha assustada e de sobressalto vê a outra com o rosto colado no vidro a poucos centímetros dela)
-Aí!!! Que susto!
(com voz abafada e quase chorando)
-Quer tomar um café comigo?
-Não posso! Vou trabalhar agora.
-Tudo bem, eu volto amanhã.
-Claro.
-Sabe, acho que vou pra China ver a muralha...
(e vira as costas sem parar de falar e caminha até a outra perdê-la de vista na neve).

...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O fantasma da palavra "aborto".

É com certo enfado que acompanho as discussões fomentadas pelas declarações recentes da ministra da Secretaria de Política para Mulheres, Eleonora Meniccuci, favorável à descriminalização do aborto. Basta uma palavra sobre o tema e recomeça os gritos e vaias dos que simplesmente não querem ouvir, com uma maturidade comparável à uma criança de seis anos. E seus porta-vozes são, como sempre, aqueles que muitas vezes deveriam estar calados. É o caso de Dom José Beneditino Simão, bispo de Assis e integrante da CNBB católica. Não contente por ter passado para a história como um sacerdote delirante ao imprimir panfletos alucinados afirmando que Lula era o novo Herodes em 2010, ele agora é notícia com o comentário de uma fineza impar sobre a ministra Meniccuci: "infeliz, mal-amada e irresponsável". Aparentemente, ele baseou seu comportamento no ensinamento dado pelo próprio cristo, que tratou com fineza igual sua mãe em João 2,4.

O fato é que algumas perguntas, para o terror e confusão de alguns segmentos da sociedade, requerem respostas que não podem ser resumidas em sim ou não. É por isso que quando a pergunta "você é a favor do aborto?" é feita, eu já sei que a pessoa não tem a mínima condição de entender a questão, especialmente colocando-a já sob uma pergunta capciosa. Isso porque a onda new age dos que se dizem contra o aborto (aborto é crime, eles avisam!), partem do princípio que a vida se origina na fecundação, ou como eles gostam de chamar, na concepção. De onde tiraram isso é que ninguém sabe. Nem eles, na verdade, porque basta apertar um pouco e a pérola "ah, mas é o que eu acredito" surge clara como o dia.

Quem diz que a vida começa na fecundação dormiu na aula de biologia. Simples assim. Não há nada evidência alguma fora da especulação causada pelo falatório que garanta isso. A fecundação é feita por duas células reprodutoras cujo pré-requisito necessário é que estejam (surpresa) vivas! Os espermatozóides percorrem um grande trajeto (para eles, claro) até o óvulo formando... uma terceira célula. Essa, por sua vez inicia um processo de divisão interna de células que, a priori, estão tão vivas quanto àquelas que a geraram. É verdade que isso causa um certo desconforto patético aos que querem avidamente fixar um ponto onde a alma é instalada como um programa no casulo em formação.

A vida assim não pode ter começo; ela não inicia de um ponto específico. Isso está fartamente demonstrado por uma série de procedimentos e experimentos. Ela é um processo contínuo de um ser vivo ao outro de transmissão genética. Tem sido assim por gerações, independente se alguns de nós entendem o processo ou não. Da mesma forma, o sol nunca girou ao redor da terra, sempre foi o contrário, embora até pouco tempo todos acreditassem nisso.

Esse conhecimento coloca uma série de questões sob um novo ponto de vista em relação ao aborto; se a vida não "começa" num ponto exato, então espere um pouco... a menstruação mensal das mulheres é um aborto também!! E a masturbação masculina então... um verdadeiro genocídio!!! Esse pensamento paranóico demonstra como a visão dos que não detém conhecimento para o que alegam é falho e superficial.

Sem o tabu social imposto sem reflexão, o processo de interrupção da gravidez pode ter uma discussão mais sadia e sensata. Antes de mais nada, que fique claro, se tem alguém que realmente sofre com o aborto, esse alguém é a gestante que o pratica. Mas claro, a imagem dos que tem os ouvidos vedados a esses argumentam preferem pintá-las no seu imaginário assim:

 Retirei essa imagem e a traduzi livremente daqui. O site em questão se chama pelo direito de decidir

E depois, uma coisa que aparentemente (ou convenientemente) as pessoas que condenam indiscrinadamente essa prática não querem ver é que descriminalizar o aborto não significa que as pessoas serão obrigadas a fazê-lo, nem que está simplesmente liberado para todos. É muita ingenuidade, especialmente das pessoas que lidam com saúde pública e pensam assim, achar que a questão se resolve nisso. A decisão de interromper a gravidez não é fácil, deixa sequelas e com certeza necessita de apoio psicológico para que seja feita. O que essas pessoas não enxergam é que essa criminalização sem sentido (já que a vida não começa num ponto específico, mas é um fluxo contínuo) é que essa situação força o grande número de abortos clandestinos, feitos em clínicas suspeitas, quando não em casa, com agulhas de tricô, por exemplo.

A verdade é que não me cabe decidir se fulana ou beltrana podem ou não interromper a gravidez. O corpo é dela, ela sobretudo e talvez os seus próximos é que devem decidir isso. Porque nada é mais terno que uma criança recém nascida, mas nada é mais deprimente que uma mulher com oito filhos sem poder sustentar a si própria. Ou só com um, mas indesejado. Afinal, a questão não se resume entre os humildes de posses. Quantas famílias eu conheci com aquele ranço velado de uma gravidez que teve, obrigatoriamente que seguir seu curso; de pais que não se separaram ainda por causa desses filhos, daqueles para quem o relacionamento estava no começo e não tinha chance de prosperar, mas aí surge um filho indesejado que mudaria do avesso a vida deles até o fim. A amargura, o ressentimento, a sensação de culpa que algumas dessas pessoas devem sentir quando pensam que talvez tivesse sido melhor interromper a gravidez, mas que desejar isso faz dela uma criminosa e imoral aos olhos dos formadores de opinião atuais.

Não tenho dúvidas que provavelmente muitas dessas mulheres optarão por ter essas crianças com sérias propensões à marginalidade social nessas condições. Mas para aquelas que desejarem a interrupção da gravidez, com o acompanhamento certo, em condições médicas seguras,  como eu, da minha casa confortável e aquecida, mesa farta e  filhos criados, mas acima de tudo, sem ter absolutamente nada a ver com a vida de quem quer que seja, posso lhe condenar? 
     

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Ligando alguns pontos.....

Como tantas vezes afirmei aqui, uma coisa são os fatos em si, outra sua interpretação. Criar um link entre fatos aparentemente independentes justapondo-os em um panorama mais amplo, que não só ajuda a explicá-los como também contribui a uma compreensão em níveis mais profundos do mundo em que vivemos é uma tarefa nobre, embora deva ser embasada em argumentos convincentes. Algumas vezes, esses fatos me aparecem casualmente, e quando menos espero, o lampejo da conexão enter eles se estabelece. Um exemplo?

Vi de relance um link de notícias que falava sobre a liderança da rede Record de tv sobre a Rede Globo, tudo por conta de um seriado sobre Davi... no caso em questão, não o meu nobre amigo trompista pernambucano que está em Salvador-BA, mas o rei bíblico. Há nesses números, claro, aqueles que já abandonaram a audiência servil da rede criada por Roberto Marinho; mas esses, desconfio, tampouco dariam Ibope à Record. Alguns dos comentários que li rapidamente demonstram bem que essa liderança foi obtida porque acertaram em cheio um filão de religiosos evangélicos, que rapidamente abandonam a novela quando o assunto é a bíblia. 

Cansados de perder os lucros exorbitantes com as vendas de cds por conta da internet e dos piratas, empresas como a Som Livre passaram a mirar nesse mesmo público, já que, como se sabe, eles não fazem download dos cds, mas os obtém diretamente nas igrejas. Lucro na certa. E a Globo, da qual a Som Livre faz parte, caiu pra dentro anunciando um festival Gospel no fim do ano passado (que vários amigos meus do curso relataram como um dos eventos mais desafinados dos últimos tempos, musicalmente falando, claro). Além disso, incluíram a cantora Aline Barros, um dos ícones desse nicho no especial de fim de ano da emissora carioca, e o nome de jesus figurou estranhamente entre pagodes e axés, sem nenhuma manifestação de incongruencia aparente.

A mesma Globo, aliás, mostrou com certo ar de otimismo a queda dos diversos governantes que viviam em regimes ditatoriais no norte da África e Oriente Médio, no evento conhecido como primavera árabe. Acontece que os ditadores em questão foram ou estão sendo rapidamente substituídos por líderes religiosos fanáticos, e o fato é que ninguém sabe onde vai parar; e nem se estávamos na panela antes e agora fomos para o fogo ou o contrário. 

E aqui eu arremato pra dizer que esses eventos são didáticos para demonstrar que quando uma ditadura se vai, é preciso estar atento para não cair em outra. Os contra-a-Globo comemoram a sua aparente fragilidade, mas esquecem que o que vem no lugar é uma rede cujos recursos parecem infinitos, e na prática trazem o embrião que tem brotado das formas mais bizarras, como os trízimos, as canetas abençoadas para concursos e as promessas de curas impossíveis e falsas relações de causalidade entre tragédias e comportamentos.

Essa fé cega que se manifesta na comemoração vibrante que seus seguidores fazem a cada aparição pública do nome de seu deus, ou no aumento do número de fiéis como se estivessem num placar pode parecer ingênua e sem propósito, mas não é. Toda religião e por extensão boa parte dos religiosos (e até não religiosos) são unânimes em pedir liberdade de crenças. Mas, se deixadas por sua própria conta, esses movimentos tendem a tentar dominar o ambiente social em que se encontram. Isso porque a quem se considera ungido, abençoado, um militante das causas divinas, não basta apenas que ele acredite ou siga esses ou aqueles preceitos. É preciso que a pseudo vitória total sobre todos os outros seja sua ou da sua igreja, o que dá no mesmo; que no fim, promessas que nada tem de originais e que lhe chegam por centésima mão por manuscritos e reimpressões que foram feitas a pastores e camponeses na Era do Ferro se cumpram, e que então os pseudo justos sejam elevados, o que quer que isso signifique. 

Estou convencido que a natureza do processo religioso é naturalmente seletiva, segregacionista e por isso mesmo, profundamente prejudical ao nosso desenvolvimento como espécie. Católicos criticam evangélicos, que abominam espiritas, e todos juntos odeiam até o último centavo os praticantes de candomblé. E assim por diante. Claro que a liberdade de credo só pode ser garantida por uma entidde independente, de fora desse contexto, para quem não importa o que ou no que você crê, mas sim o que você faz.


Por isso o estado laico é tão importante. Tire isso, e a derrocada de uma rede tradicionalmente sensacionalista como a rede Globo pelo fanatismo dos que vendem canetas Bic como item sagrado troca seis por meia dúzia. Da mesma forma, o apego cego que essas pessoas devotam ao professarem sua fé no imaginário dá a quem controla ou materializa esse imaginário no mundo poderes incalculáveis. Mais um deputado de jesus, e todos aplaudem. Mais uma rede para glória de jesus, idem. E quando tudo estiver cercado, os tais caídos e humilhados serão uma multidão ensandecida, que aprendeu que é certo controlar a vida do outro; que todos devem viver sob as regras biblicas e renderem graças ao seu amigo imaginário, não importa que se diga que vivemos num mundo livre, porque então, a palavra liberdade não terá qualquer sentido. E para espanto dos menos perspcazes, eles farão isso sequer se comoverem, porque acreditam estar certos, e pronto.

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Seremos então uma única nação em cristo, sem ou com uma ciência tão deturpada porque contradiz a bíblia que não terá validade alguma; impedidos de navegar sobre os mares à luz do sol da razão que duramente conquistamos por conta dessas caravelas que preferem viajar sob os nevoeiros sem ver o que está à sua frente. E a cada nau perdida na colisão com os rochedos, uma prece e um aceno, e a conveniente atitude de ovelhas sob o comando do pastor; condenando assim todos nós ao ostracismo.

Não é possível, não nesses dias em que tanto sabemos sobre o que fazemos e onde estamos, que as opiniões dos crédulos impeça a liberdade individual. Cada um de nós que nasce carrega a herança de gerações e gerações de pessoas que como nós, que lutaram, venceram e foram vencidos, mas sobretudo triunfaram sobre seus medos, ou não estaríamos aqui.
É preciso que aprendamos com nosso passado e projetemos a partir desse aprendizado o nosso futuro.



Sinais europeus...

Acompanho de longe (embora não tanto agora) a situação espanhola atual. Em meio à ruína econômica que assola o país, não falta quem diga que o acesso para o caos já era nítido há algum tempo. A forma absurda com a qual o sitema de controle aeroportuário barrava brasileiros de forma completamente arbitrária é um dos pontos chaves para entender o processo. Diariamente, acompanho no noticiário a frequencia assustadora de depoimentos desses brasileiros que demonstram mesmo o uso da força desnecessária, dos quais o caso do violonista e compositor Guinga não é uma das exceções, infelizmente.

Uma sociedade secular, que já foi um dos grandes centros de transmissão cultural do mundo, obviamente não cai por acaso. Para isso, normalmente contribuem o desleixo do poder público com suas obrigações mais básicas, introduzindo o descaso geral como norma. Aos poucos, esses descaso leva ao cada um por si, chegando às raias do desespero quando, numa tentativa de conter a entrada de imigrantes ilegais, chega-se ao cúmulo de nivelar por baixo toda uma nação e seus cidadãos.

Mas a Espanha dá outros sinais externos disso, ao demonstrar que seu sistema judiciário também ameaça desabar. É largamente criticado atualmente o afastamento por incríveis onze anos de Baltazar Galzón, um dos juízes que mais promoveu limpezas dentre os torturadores e evasores de divisas; em outras palavras, exatamente o tipo de pessoa que levou o país ao ponto em que se encontra. Ao condenar o magistrado que ficou famoso por levar o ditador Pinochet aos tribunais, a mensagem que transpassa é de que a justiça como tal já é passado naquele país.

Conheci uma argentina que vivia na Espanha por doze anos. De uma hora pra outra, sem emprego, sem ter onde ir. Como ela, venho conhecendo muitos outros, italianos, turcos, portugueses; viajantes, nômades em sua própria terra, em busca de emprego, de uma vida decente e feliz. O rosto de todos se ilumina quando peço detalhes da sua terra natal, mas o brilho rapidamente se esvai. Só reascende quando falo do Brasil, de como estamos indo, de como lentamente, depois de anos de uma política irresponsável que quase dilapidou nosso patrimonio, parece que estamos relativamente mais coesos do que jamais fomos como nação.

E como deve ter ocorrido em outros tempos, percebo nesse interesse pelo nosso país um eco de um passado não tão distante, em que outros europeus em semelhante estado buscavam melhor sorte num lugar que julgavam quase selvagem, mas rico em oportunidades.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A vitrola quebrada

Em todo lugar que se olhe, parece haver uma tendência à generalização. Somos um povo que a tevê insiste em mostrar como trabalhador mediano, que passa o ano regados a futebol e novela esperando chegar as férias. A rotina diária parece ser compensada pela ênfase que se dá nos feriados; natal, ano novo, carnaval...

Nessa mesma esteira, cantores e músicas que nada tem de especiais são pinçados ao acaso e elevados aos píndaros da exposição pública, criados em laboratório pra fazer sucesso; leia-se para alguém (geralmente não o cantor) ganhar muito dinheiro. A vitrola quebrada que repete insistentemente nesses últimos dias a música de Michel Teló faz parte desse processo. Alçado ao topo por uma explosão midiática instantânea, o fenômeno "ai, se eu te pego" que invade você onde quer que esteja esconde por trás de si um aparato absurdo de marketing onde quem menos ganha é o próprio Teló.

Não há nada de errado com músicas passageiras, que vão e vem toda semana. São um gênero como qualquer outro. Mas, asim como a ênfase em qualquer aspecto tende a ofuscar os demais, esse efeito de agulha saltando no vinil e repetindo sempre o mesmo trecho (no caso, as mesmas músicas), cria a falsa impressão que isso é o melhor da nossa produção cultural. Ela literalmente emburrece o gosto musical do ouvinte mediano que tem na tevê sua única e maior diversão. O passante que busca na tevê uma forma de se informar sobre o que acontece no restante do país tem na verdade uma amostra selecionada como se a realidade fosse aquilo.

A própria rede Globo, que protagoniza vexames desse tipo, é pródiga em criar o que não existe. Diariamente, ela tem nos brindado com esse programa infame chamado big brother, que nada mais é do que uma ode à imbecilidade. Literalmente estuprando o bom senso, as três consoantes BBB viraram um sinônimo daquilo que de pior o ser humano tem a oferecer. A ostentação, a mentira, a dissimulação, a fofoca, o cultivo da aparência em detrimento do intelecto. Como se isso não bastasse, ela insiste em tornar essa aberração pública, valendo-se de uma concessão estatal que deveria propor uma contrapartida de divulgação cultural (real e sem apelação). E quando a agenda distorcida a que se propõe é materializada em cadeia nacional de forma criminosa, ela ainda faz graça na figura patética de um Pedro Bial e seus poemas pra lá de duvidosos.

Não que isso espante vindo de onde vem. Qualquer pessoa interessada em saber a história de Roberto Marinho e sua organização sabe como seu império foi construído e quais foram suas metas. O duro é ver as pessoas à sua volta com a capacidade de pensar moldada pelo personagem raso da novela, o comentário sem sentido ou tendencioso de alguns jornais; pessoas em que a tevê ligada governa a vida familiar, está no centro da sala, domina as conversas, as refeições, os encontros e reencontros. Sem perceber, as pessoas participam passivamente de cerimônias reais pomposas onde a sanidade é mantida de fora, e a estupidez adentra o salão com garbo e é coroada sob a alegria geral.

Pessoalmente, minha sugestão é nunca acreditar em quem fala "em nome do Brasil", mas não foi eleito pra isso. Tento compensar cada programa, cada bizarrice elevada falsamente a um evento nacional com um pensamento simples: o que o vizinho que não conheço está fazendo agora...? E as pessoas da minha rua, da minha cidade, do meu estado...? E aquele grupo de maracatu que vi um dia, por onde anda?  Tendemos a não nos dar conta que existe vida inteligente fora da tevê e que expurgar essa dependência é mais do que uma feliz curiosidade, mas uma forma efetiva de viver melhor.

sábado, 31 de dezembro de 2011

2012 e o balanço anual

E 2011 agoniza em suas últimas horas.

Um ano. "Passou voando", dirão uns; "passou se arrastando", dirá o encarcerado.
 
Eu estive em vários lugares, conheci muita gente, deixei o convívio de outras, vivi várias vidas. Vi o sol nascer e se pôr muitas vezes, amei e fui amado. 

Trago comigo todos os meus grandes amigos, suas melhores tiradas, seu sorriso mais debochado, aquele aperto de mão inesperado, o abraço despretencioso mas tão necessário...  

Também carrego em pensamento seus momentos mais tristes, o desânimo dos que se julgam pequenos, incapazes, dos que se cobram demais. Suas lágrimas, incertezas, dúvidas...    

Mas não só eles... também trago pessoas que conheci pouco, as que só ouço falar, as que nunca vi. Seus pensamentos, materializados por uma idéia, um lampejo de criatividade, um livro, uma frase. Uma música que bailou incólume em sua imaginação, anotada em algumas linhas e que todos nós agora tentamos reconstruir cada vez que tocamos.

Também trago comigo a vida dos que já se foram; a longa marcha de meus ancestrais que atravessaram savanas e continentes, campos e cidades. Entre cavernas e tavernas, o medo que o fogo do conhecimento afugentou...

E de todos eles, absolutamente todos, tenho aqui comigo uma parte. E desse gigantesco caledoscópio do qual sou sou composto, dificilmente saberia dizer ao certo onde eles terminam e eu começo.

Esse pensamento me embala e me acorda. Permite que eu veja além da trama dos fios que cobre o céu. A cada dia, eu tenho a sensação que, como representante dessa longa jornada de pessoas, descendente de guerreiros, nobres, artesãos, carpinteiros; de todos eles, aprendi também eu a ser um forte. A não me curvar ao que não se conhece, nem me deixar vencer pelo desânimo. A combater a maldade e a ignorância,  a ironizar os obtusos e rir da hipocrisia.

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E como uma formiga, eu sigo a marcha traçada há muito por força de circunstância, embora tenha aprendido cada vez mais a delinear eu mesmo seu contorno e trajetória.

Nesse ano novo, não faço promessas. Não salto ondas, nem peço nada. Eu aprendi do que a fumaça é feita. Só agradeço a todos esses que, conscientes ou não, cruzaram meu caminho e incrustraram em mim o desejo de viver e de ser esse elo entre os que viveram e os que ainda viverão.

Boas festas e um grande abraço!!

 

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um dia para pensar...

Algumas pessoas acreditam que no dia de hoje, há pouco mais de dois mil anos atrás, um ser humano diferente nasceu. E que, em função disso, também devemos todos renascer a cada fim de ano nesse mesmo dia. A comemoração do nascimento que definiu o início da nossa era, a paz entre os homens...
A base do presépio de cada árvore de natal carece no entanto de realidade...

Sabe-se que Jesus não nasceu no ano 1, nem tampouco no dia 25 de dezembro. De acordo com fontes da época, como as datações de governantes e eventos, sabemos que a atribuição do ano 1 como sendo o do nascimento foi arbitrário. Ele teria, de fato nascido quatro anos antes. O dia 25, destinado até então ao sol e seus deuses, foi uma associação feita durante o processo pelo qual a igreja cristã passou a ser a religião oficial do império romano. Esse é, como muitos outros na história da cristandade, um exemplo da proximidade existente entre os mitos biblícos e de outras culturas ou crenças.

Depois, a idéia que renascemos a cada ano tende a fazer certas pessoas acharem que, não importa o quão ruim o ano seja (ou elas sejam durante esse tempo), "no fim, tudo dá certo". Mas não dá. Estatisticamente, em vários lugares desse nosso mundo, esse ano foi o último de inúmeras pessoas. Vários pisca-pisca que apagaram-se pra não mais acender, até onde sabemos. Sem dúvida, dentre elas haviam aquelas que não diziam o quanto alguém lhe era importante pessoalmente, não tinham o hábito de desculpar; pessoas que deixaram pra depois porque acreditavam, dentre outras coisas, que a razão pela qual estavam aqui ainda não tinham se revelado. Claro está que para eles, o anjo chegou tarde.

Eu gosto, honesta e sinceramente do Natal, embora duvide de inúmeras fontes que o originaram. E acho que a idéia simples é essa: o sentido que damos. As luzes, as cores, os sorrisos e até os choros. Percebo nessa época uma maior aproximação entre as pessoas e isso é bacana. Há também uma maior propensão ao perdão, à tolerância e ao reencontro. Não tínhamos que escolher um dia do ano para nos comportar assim, ou pior, para nos lembrar do que devemos fazer. Mas é assim que somos. Enfeitamos lentamente nossa árvore nesses anos todos que são nossa trajetória humana nesse planetinha. Aprendemos a duras penas em termos de espécie, e serão necessárias muitas perdas humanas ainda até que aprendamos a ser melhores de fato.

Eu aproveito para rever as pessoas que me são caras nessa minha curta vida. E são tantas, de tantas maneiras e formas que me seria impossível viver sem elas. Eu viveria sem um natal, mas nunca sem essas pessoas. Felizmente, não preciso esclher entre um ou outro; posso ter ambos. E melhor do que qualquer simbologia que me foi passada por centésima mão, dou a essa data o significado que desejo: um dia em que não precisamos de um salvador, nem de um redentor. Somos o melhor que poderíamos ser, basta que nos demos conta disso. Feliz daqueles que não precisam ser salvos, por que deles é a recompensa maior: viver plenamente.

Grande abraço a todos, e bom Natal.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Christopher Hitchens 1949–2011





O mundo ficou definitivamente mais triste essa semana: faleceu o jornalista, crítico, ativista político e intelectual, Christopher Hitchens. Sua retórica impressionantemente precisa, embasada, bem estruturada, dividiu seus opositores entre o escárnio dos obtusos e a admiração dos pensantes. Na vida, errou muitas vezes; alcólatra confesso, fumante inveterado, seu corpo finalmente deu sinais de falência.

Porém, seu espírito vivo e combatente foi uma demonstração pública de uma coragem com paralelos dificilmente vistos. Seu translado nesse planeta foi determinante para a transformação da vida de inúmeras pessoas que estavam ocultas sob o véu da ignorância, e que ele constantemente atacou de frente, sem rodeios. Nunca invejou o consolo dos crédulos e teve a ombridade de sustentar isso em alto e bom som. Em parte por conta do seu trabalho, a crença sem provas que põe no mesmo nível deuses tão diferentes só demonstram ainda mais o caráter especulativo sob o qual essas crenças são construídas. 

Jornalista de fronts de batalhas in loco, expos as farsas por trás de várias das guerras recentes, como a da Bósnia e Sarajevo. Mas foi sobretudo as guerras ideológicas que travou as que mais pessoas beneficiou. Demonstrou através de relatos e documentos a farsa da figura de Madre Teresa de Calcutá, aclamada mundialmente como exemplo de bondade, mas que não tratava de nenhum dos doentes com a medicação necessária. Empilhados em colchões no chão como um depósito humano, essas pessoas só tinham o consolo da oração.



Agora, passados seus 62 anos, Hitchens entra definitivamente na história como um homem cuja trajetória ensinou a recusar a mentira que conforta, a negar a satisfação com algo que não explica nada, como as pessoas religiosas tanto se habituaram. Sua imagem continuará reluzente em vídeos e livros espalhados pelo planeta, e suas palavras continuarão a ser ouvidas. A única imortalidade que sabemos ser efetiva, a de permanecer na memória daqueles que ficam, essa ele tem de sobra. E eu sinto-me feliz de ter sido seu contemporâneo por algum tempo, ainda que nunca o tenha conhecido.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Ciaccona del Paradiso e del Inferno"

Philip Jarousski e o grupo Arpeggiata numa interpretação bem humorada dessa canção anônima do século XVII.
 

Segue a letra e a tradução, que tirei daqui.

O che bel star è star in Paradiso
Dove si vive sempr'in fest'e riso
Vedendosi di Dio svelat'il viso
O che bel star è star in Paradiso.

Ó que bom é estar no Paraíso
Onde se vive sempre em festa e riso
Vendo Deus revelar o viso
Ó que bom é estar no Paraíso

Ohimè ch'orribil star star nell'inferno
Ove si viv'in piant'e foco eterno
Senza veder mai Dio in sempiterno
Ahi, ahi, ch'orribil star giu nell'inferno.

Mas ó que horrível é estar no inferno
Onde se vive em choro e fogo eterno
Sem nunca ver o Deus Sempiterno
Ai, Ai, Que horrível é estar lá em baixo no inferno.

La non vi regna giel, vento, calore,
Ch'il temp'è temperato tutte l'hore
Pioggia non v'e tempesta, ne baleno,
Ch'il Ciel la sempre si vede sereno.

Lá em cima nunca reinam gelo, calor, vento
Onde o clima é temperado todo tempo
Chove, mas não há tempestade, nem trovão
Pois o Céu lá sempre sereno verão.

Il fuoco, e'l ghiaccio la, o che stupore
Le brine, le tempeste, e il somm'ardore
Stann'in un loco tute l'interperie
Si radunan laggiu, o che miserie.

O fogo, o gelo lá, ó que estupor
A geada, as tempestades, e o grande ardor
Estão no mesmo lugar todas as intempéries
Se agrupam lá em baixo, ó que misérias.

Havrai insomma la quanto vorrai
E quanto non vorrai non haverai
E questo è quanto, o Musa, posso dire
Pero fa pausa il canto e fin l'ardire.

De fato, tudo quanto se imagina, lá haverá
e o que não se imagina, lá também encontrará
E isto é tudo quanto, ó Musa, posso dizer.
Pois interrompe o canto e pare de se atrever.

Quel ch'aborrisce qua la tutto havrai
Quel te diletta e piace mai havrai
E pieno d'ogni male tu sarai
Disperato d'uscime mai, mai, mai!

Aquele que odeia aqui, lá tudo terá
Aquele que te ama e te gosta, lá nunca estará
E cheio de todo mal tu estará
e sempre desesperado sair quererá.

O che bel star è star in Paradiso
Dove si vive sempr'in fest'e riso
Vedendosi di Dio svelat'il viso
O che bel star é star in Paradiso.

Ó que bom é estar no Paraíso
Onde se vive sempre em festa e riso
Vendo Deus revelar o viso
Ó que bom é estar no Paraíso.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Suzie LeBlanc em "Lascia ch'io pianga"

A música de Haendel, numa interpretação que tenta aproximar-se na concepção original, usando inclusive os instrumentos para os quais a obra foi composta.

Deixe que eu chore minha sorte cruel, e aspire à liberdade...

sábado, 10 de dezembro de 2011

Viciados em felicidade

Antes de mais nada, tenho de confessar: não uso o Facebook. Tenho uma conta lá (com uma foto de quando estive em Milão) cujo único objetivo é me conectar rapidamente, sem cadastro, em sites de livros e de compartilhamento de arquivos. Minha conta no Orkut está às moscas há mais tempo e não é raro as pessoas me perguntarem porque sumi.
Para além de constatar o fato evidente que para muitas pessoas, você é o que está nas redes sociais, por si só um sintoma de uma patologia moderna que só o distanciamento histórico vai poder analisar em toda sua plenitude, tenho pensado há algum tempo no uso que muitas pessoas fazem dessas redes. Sim, eventualmente (muito), eu entro lá, leio algumas mensagens (a maioria vírus), apago e acabo "aceitando" alguns amigos que me "convidam". 

Nessas idas, eu tenho a oportunidade de constatar um fenômeno que eu via em e-mails, mas em menor grau: a grande quantidade de pessoas desesperadas por felicidade. Todo mundo já deve ter recebido aquelas mensagens sem destino certo e que partem do princípio que você está precisando de ajuda, sempre. Mais do que isso, você tem a obrigação de ser feliz. 

É curioso que na maioria dessas mensagens compartilhadas, o teor seja sempre o mesmo, e que o paradoxo incoerente de como nos projetam enquanto espécies seja visto como lógico. Nesses casos, apesar de tudo à sua volta ter sido feito pensando em você e com todo o universo conspirando a seu favor, o que aparentemente é a explicação para pensamentos como "no fim tudo dá certo" ou "o que é nosso tá guardado", somos ao mesmo tempo esse frangalho humano que incapaz de lidar com o que quer que seja sem ficar choramingando por pedidos de força a um além imaginário. Acredite e confie são palavras de ordem. 

A necessidade de ser "salvo" é pra mim duplamente problemática, por ser ao mesmo tempo incoerente e humilhante. Incoerente porque ser salvo implica em um "do quê" que nunca permite-se falar muito a respeito, porque no fundo vai demonstrar a grande falácia que a história toda é. E é impressionante que as pessoas vivam suas vidas baseadas em algo que a simples pergunta "como você sabe?" causa um constrangimento visível. Mas a idéia de salvação é sobretudo humilhante porque pressupõe que todas as pessoas consideram-se tanto quanto o interlocutor que a propõe. Aparentemente não ocorre a essas pessoas que se elas acham que precisam ser salvas, até vá lá, mas imaginar isso é valido para o outro que ela não conhece e não quer conhecer, é muita hipocrisia e arrogância.

Desconfie de quem se diz porta-voz de coisas que mais ninguém pode ter acesso. Somos criaturas complexas, expostas a um mundo que ainda não entendemos bem, mas estamos cada vez mais resolvendo essa equação. Dar certo ou dar errado pode ser uma questão de ponto de vista, mas ambos acontecem e nada indica que seja pra você aprender algo. É fato que aprendemos com isso se estivermos atentos.

Da mesma forma, eu lamento dizer, você não tem 458 amigos como a sua página tenta te mostrar. Amigos que mereçam essa maiúscula na frente são raros, e nem sempre são pessoas óbvias. Estar lá para alguém é algo extremamente difícil, e é uma atitude madura da parte de quem for imaginar que não se pode exigir isso de qualquer pessoa.

Redes sociais são um veículo que passaram a comunicar instantaneamente as pessoas, e de repente, tudo que é dito é visto por todos. E aí? Aí nada se você não tem o que dizer. Essa felicidade a qualquer custo, essa necessidade de "salvar" os outros de uma infelicidade que alguém vive e pressupõe ser a de todos é sintomática de um mundo em que se banaliza a educação séria como construção do indivíduo pensante ou algo que o valha.

Viciados em felicidade são como viciados em açucar, por exemplo. Começa-se com um hábito agradável, mas que vai ficando mais e mais voraz, afastando o que é amargo, depois o que é salgado e, por fim,  até o que não é bem doce. No fim, a negação do seu oposto destrói o paladar completamente, ao ponto de já não sabermos mais se o que temos em mãos é doce. Perdendo a comparação, nos desconectamos da realidade e embarcamos numa ilusão, virtual ou não.

E pra acabar, um vídeo escrito e interpretado por Ross Gardiner.


O menino de madeira...

O velho vivia triste e amargurado. Um dia, não suportando a solidão da cidade, vendeu a pequena marcenaria e foi para o campo. Lá, construiu a própria casa e passava os dias a vagar pelos arredores. No topo de uma planície, não muito longe de casa, havia uma árvore pequena, frondosa e bela, que parecia reinar sobre as outras. O velho sentava em suas raízes e encostava a cabeça no tronco tentando ouvir o que dizia. Ele não sabia bem porque, mas acreditava que havia uma vida dentro dela. Uma voz suspirando baixinho, pedindo para ser liberta.

Numa manhã gelada e nebulosa, o velho deu a volta por trás de casa; trazia um machado. Com destino certo, atravessou a grama molhada e com o machado golpeou o tronco repetidas vezes. Os estilhaços voavam fazendo-o acelerar seu trabalho entre as pausas para descanso cada vez mais frequentes. Ainda assim, numa hora ou outra um dos dois tinha de ceder. Quis o acaso que fosse a velha árvore. O som agudo e grave atravessou o ar, e quase no fim do dia o velho já arrastava o pedaço de madeira pelo campo até sua casa.

Por dias a fio ele trabalhou com empenho, lapidando, esculpindo, martelando. A forma rugosa e arredondada foi dando lugar a uma forma mais conhecida para o velho. Em vez de veios irregulares e disformes, a figura agora lembrava um homem; na verdade, um menino, pra ser exato. Quando ficou pronto, era possível ver que seu rosto esboçava um leve sorriso porque o velho assim o tinha esculpido, mas seus olhos demonstravam o horror de se ver articulado, caminhando errante pela oficina, esbarrando nas coisas.

O menino de madeira demorou a entender como suas mãos deveriam funcionar; abria e fechava os dedos olhando para eles assustado. Nunca pronunciou uma palavra que fosse, e basta dizer que é por ser ele de madeira, imediatamente cai por terra a pretensa explicação, já que ele tampouco deveria estar vivo.  Ainda assim, assim foi... e o velho passava seus dias ensinando o menino de madeira a caminhar, empunhar coisas, fazer pequenas tarefas. E ele ia aprendendo a manusear as ferramentas do velho, a correr pelo pátio... e parecia nunca se cansar. O sorriso desenhado em seu rosto e os olhos de contas eram como uma máscara imposta e que em nada lembra o que ele realmente sentia.

Apesar de não falar, o menino ouvia e parecia entender o que o velho dizia. Sempre no fim da tarde, ambos sentavam em uma colina de onde se podia ver o por do sol. De lá, o velho contava suas histórias, de como veio parar ali, de como achou a árvore que resolveu por abaixo para construir seu boneco e, mais importante, de como o menino-boneco finalmente ganhou vida. E o menino de madeira com a cabeça no peito do velho ouvia-lhe a respiração profunda, o coração batendo cada vez mais fraco. E parecia ouvir nele uma vida querendo ser liberta.

Um dia, perto do horário do por do sol num inverno rigoroso, o menino vinha na direção do velho já sentado na colina. Distraído com o movimento dos pássaros no céu, o velho não percebeu que a madeira feita menino trazia em mãos o seu velho machado. Sem aviso, nem despedidas, mas também sem alegria ou tristeza, o menino golpeou seguidas vezes o marceneiro, cujo assombro no rosto exprimindo o quão inesperado era o gesto rapidamente sumiu, por entre golpes cada vez mais constantes e precisos...

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Isolado por iniciativa própria, o velho jamais foi encontrado. Do menino feito de madeira, nada se pode dizer, já que seus pensamentos são, como sua vida, uma incógnita... De tal feita que não se sabe se agiu por vingança ou gratidão; se foi liberto ou aprisionado naquela forma que não lhe era natural; ou se queria ajudá-lo da única forma que foi ensinado a fazer. Também não se pode dizer que o fez por conta de uma dor lascinante que o acompanhou desde a primeira machadada quando ainda era árvore, ou se pela completa ausência dela... as duas, sensações igualmente lastimáveis. E como ele nunca proferiu palavra, tampouco sabia-se qualquer intenção sua em virar gente de verdade.
 
O que ouviu-se dizer foi que durante muito tempo, o menino de madeira vagou ao redor da casa sem destino, com o sorriso que ganhou sem pedir estampado na face e os braços e pernas tingidos de vermelho... até o dia em que também ele não resistiu e caiu de joelhos para em seguida tombar sobre a relva...



domingo, 4 de dezembro de 2011

Evolução em "não deu..."

Sensacional!


Domingo, dia de estudar!

Tem gente que usa muitas cordas pra nada...



Enquanto outros, só precisam de quatro pra fazer acontecer...




Mais de Botswana aqui.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Valdemiro e a cara de pau sem fim

Com vocês, o comediante da igreja que é um deboche a qualquer pessoa de raciocinio mediano...



E aqui, alguns da bancada evangélica fazendo pose e dizendo bobagem ao lado de quem? Ele, é claro... "a maior autoridade hoje reconhecida"...por quem é inteligível. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Minha Dissertação de Mestrado: Fantasia Sul América para Clarineta Solo de Cláudio Santoro.

Definitivamente, nossas ferramentas de compartilhamento de informações melhoram a cada dia. Ainda lembro de uma época em que tínhamos de pedir cópias pelo correio a um custo alto e sob pena de não ser algo que você realmente estivesse interessado.

Os tempos são outros...

Bom, durante os anos de 2006 a 2008, estive cursando o mestrado em execução musical na clarineta em Salvador-BA, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Meu tema foi sobre uma obra importante para a clarineta mas ainda pouco estudada até então: a Fantasia Sul América para clarineta solo de um dos grandes compositores brasileiros, Cláudio Santoro.

Aproveitando esses meio de divulgação, e do fato de algumas pessoas me pedirem pra enviar a minha dissertação, estou disponibilizando ela abaixo. Pode ser lida online mesmo, basta clicar em "Expand".

Fisioterapia para músicos

Apesar dos músicos atuarem profissionalmente há muito tempo, ainda divulga-se pouco sobre os cuidados com o corpo nessa atividade que exige um esforço repetitivo altíssimo pela própria natureza da prática. Pois bem, clicando aqui e ali topei com esse livro sobre fisioterapia para músicos, que pode ser lido online (basta clicar em "Expand") e trata, como uma linguagem clara e direta, de algumas das nossas características e problemas. Achei bem bacana.


Boa leitura.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O foco é (e sempre foi) você.

Para quem estuda um instrumento musical, não são poucas as indagações, seja sobre a própria profissão em si, seja sobre aspectos técnicos do fazer musical ou mesmo filosóficos do porquê fazer. Nesse sentido, embora correndo o risco de parecer simplista já que todo músico tem seus próprios dilemas e demônios para contornar, acho que algumas questões são recorrentes e podem ser encontradas em nove de cada dez músicos. Dentre elas, o caráter competitivo obviamente destaca-se, e não é difícil perceber porque.

Ao concorrer a um cargo qualquer, normalmente os critérios de escolha são baseados em audições públicas, que tentam dar conta de avaliar um processo criativo individual da forma mais imparcial possível. Embora as características de cada um sejam levadas em conta, não digo nenhuma novidade ao afirmar que a banca já tem seus próprios critérios que o candidato deve satisfazer. Concepções individualizadas demais são desfavorecidas em prol daqueles músicos que apresentam idéias (sejam elas quais forem) mais coerentes do ponto de vista do ouvinte ali sentado, banca ou não. E, seja como causa ou consequencia, assim formam-se o que chamo de cânones da interpretação, que nada mais são que parâmetros escolhidos arbitrariamente e que passam a ser aceitos por uma comunidade de intérpretes/ouvintes.

Não cabe aqui explorar em que medida isso acontece, mas eu gostaria de me debruçar um pouco sobre os efeitos negativos dessa atitude. Encontrei muitas vezes colegas estudantes frustrados porque se propuseram a um perfil profissional sem compreendê-lo em profundidade. Muitos deles replicam o repertório do instrumento sem uma reflexão mais séria sobre o do porquê fazer, e a balança é definitivamente desequilibrada quando os objetivos limitam-se a executar as obras de maior dificuldade técnica, algumas uma verdadeira provação. E, quase sem perceber, temos uma massa de estudantes de música que replicam os cânones estabelecidos e relegam sua própria criatividade a um segundo plano.

Talvez esse seja um dos problemas pouco fomentados pela academia, embora qualquer pessoa concorde que há obras fundamentais para a criação e o desenvolvimento de um currículo em um instrumento musical. Meu problema não é com esse currículo mas com a forma de abordá-lo. A carga de informação nesses casos é grande, e os campos de estudo que a atividade musical gera só aumentam a cada dia. As conexões entre a música, seus processos de ensino e de performance, bem como a sua compreensão envolvem áreas tão distantes quanto complexas, sendo a didática, a neurologia, a acústica, a filosofia, a história e a anatomia somente algumas delas.

Bach (sério, ao lado), Vivaldi, Brahms, Mozart, Beethoven, Stravisnki, Debussy, Berio, Nielsen e Puccini são nomes que pincei aleatoriamente; todos são grandes compositores que cada, um a seu tempo, compuseram narrativas e estruturas geniais, obras que não por acaso figuram em programas de concerto do mundo todo. Mas, e aqui vai a pergunta central, eu preciso executar um concerto de Nielsen, por exemplo, para ser reconhecido como músico "sério"? Executar bem essas obras deve ser uma condição para que eu seja aceito pelos meus pares? Não são essas obras elas próprias ápices da manifestação de um processo criativo? E se for assim, não perco boa parte da desse processo ao transformá-las em cotas de produção que devem ser cumpridas?

Antes de mais nada, ninguém deve nada. É fato que às vezes nos sujeitamos a repertórios em processos de formação, quando nos submetemos à audições e mesmo na rotina de grupos profissionais de música como bandas e orquestras. No entanto acho importante que mantenhamos acesa lá no fundo aquela chama da curiosidade inicial que nos fez buscar o instrumento como meio de expressão. A experimentação, a pesquisa sobre o que fazemos, as dúvidas sobre o contexto inicial em que cada obra dessa foi produzida, o do porquê devo tocar desse ou daquele jeito; são todos aspectos que, muito mais do que ampliar os horizontes da profissão, permitem uma realização mais completa do indíviduo em si.

Com isso em mente, ir a um master class ou tocar em uma audição pública não deve prioritariamente ser encarado como se o que você está fazendo é bom ou ruim em relação ao outro. O outro não importa muito quando seu maior oponente é você mesmo. É perceber que foram suas pernas que te trouxeram até ali, diante daquele professor e platéia, para executar a obra de alguém, ela própria uma remissão a um contexto específico. Em que medida esse contexto dialoga com o momento em que você toca diz muito mais sobre você mesmo do que sobre a peça. Por isso, um instrumentista não é só mais uma peça nesse conjunto, especialmente pra ele próprio.

As dificuldades de qualquer execução devem ser associadas sempre com o objetivo mais amplo da sua satisfação pessoal em transmitir ou recriar idéias de outras pessoas, desse ou de outros tempos. O que professores e outros estudantes fazem é dar suas próprias impressões sobre o processo. Mas é essencial que você se pergunte o tempo todo o que te move nessa direção, para não acordar num lampejo diante do público perguntando-se o que está fazendo ali tocando uma peça que te diz muito pouco. Acho que você deve se ver como um impulsionador; alguém cujo objeto de estudo é levar adiante as suas melhores idéias, especialmente num mundo onde se diz tanta tolice.

Não quero, entretanto, dizer com isso que se deva ignorar o que se sabe. Nem tampouco que você passe a cochichar um mantra repetindo "eu sou especial; eu sou importante; o universo conspira a meu favor"; nada disso, embora você provavelmente seja especial para alguém. O que proponho é um exercício para reestabelecer suas prioridades em relação ao que estuda e faz, considerando obviamente que você que lê é um musicista.

Porque, no fim, é disso que se trata. Tocar Beethoven ou Stravinski não é um favor para eles; é pouquissímo provável inclusive que eles estejam vendo isso. Também não é para o seu professor, que já tem uma carreira consolidada. Em última instância, é um processo que fala sobre o que você quer dizer; você artista, você criador. Livre das amarras do que a tradição diz que é porque é, é comum começar a sentir o gostinho da realização plena chegando, onde Mozart, Pixinguinha, Nielsen e as canções que sua mãe cantava na infância servem todos a um propósito maior que a mera repetição; servem para a sua satisfação plena como pessoa humana. 

Bach: "aqui pro ceis..."