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domingo, 15 de julho de 2012

Sobre bandas militares....


Não é novidade alguma para os músicos de bandas escolares, municipais e de igrejas de todo o país que as bandas militares representam uma oportunidade visível para uma carreira estável. Músicos adolescentes se vêem nas fardas oficiais das três forças e tem nelas uma promessa de seguir adiante aliando o que gostam de fazer com o ideal de uma profissão. E isso ainda torna mais difícil a adaptação quando muitos deles conseguem atingir essa meta e percebem que o meio, infelizmente, deixa muito a desejar quanto à profissionalização.

Quando você passa a conhecer a realidade que há por trás daquelas apresentações em praça pública que tanto incentivam esses jovens músicos, percebe que há um abismo de diferença entre a promessa e a realização, entre o sonho e a realidade. A rotina de competir para quem estuda mais (ou quem "toca mais") tão presente na vida das bandas civis contrasta imediatamente com a rotina diária em bandas militares. Nelas, profissionalizar-se é uma quimera, uma ingenuidade adolescente e sem futuro. Mais do que isso, é uma atitude indesejável e sem o menor traço de estima pela visão institucional dominante. Escondidos em hierarquias, graduações e patentes, muitos deles justificam essa postura com os argumentos mais variados e rasos possíveis; a ausência de um aumento financeiro, a inexistência de uma obrigação legal que faça com que isso seja praticado, a inveja pura e simples, e por aí vai.

O desrespeito à profissão de músico nas casernas é antigo e reflexo de uma série de fatores. Antes de mais nada, a própria incapacidade de comandantes de perceber o potencial literalmente inaudito desses homens e mulheres que compõe suas fileiras. Mas avança ainda mais; num mundo de sobras e migalhas, aqueles que as distribuem adquirem na sua própria visão um prestígio sem paralelo com nada do que teriam na sua vida cotidiana. Sem uma política institucional digna, a classe é deixada à mercê de líderes absolutamente incapazes e interesses variados e, às vezes, mesquinhos. Regentes desprovidos de talento e, muito pior, sem formação alguma arrotam sua ignorância abissal ao se vangloriar disso; ao se exporem diante de quarenta instrumentistas à sua frente sem ter uma vaga ideia do que fazem ali, eles não percebem o papel ridículo que representam para si e seus pares. É um jargão conhecido que os ensaios são feitos para "dar uma passadinha na música", e muitas das chamadas rotinas semanais constituem-se de uma tentativa canhestra de parecer que se faz algo, só para que o chefe da seção ao lado não perceba a inércia motivacional.


 O grupo de percussionistas das Forças Armadas da Suiça mostra num espetáculo que alia um rigoroso treinamento musical com o aspecto cênico e performático. Um exemplo que a música em bandas militares pode se valer da disciplina com resultados extremamente positivos.

No período em que pertenci a esse meio, vi e participei de alguns dos maiores absurdos que não achei que veria em vida: o caminhar muitas vezes de um lado pra outro no sol sem saber o porquê; tentativas de melhorias das condições de trabalho serem rejeitadas porque “vai trazer muito serviço”; regentes desesperados por um sinal visual durante a música para saber onde andavam na partitura e quando deveriam encerrar a música; a atitude debochada e sem paralelo dos que sempre julgaram sua posição hierárquica uma justificativa para que a sua estupidez fosse não só tolerada, como também aceita e seguida; e ainda a humilhação degradante e de forma pública de uma voz discordante, independente das suas razões serem acertadas. As exceções existem em grande número, e muitos dos melhores músicos que conheci pertencem a essas bandas. Mas eles representam uma minoria cuja individualidade vai se corroendo com o tempo porque ninguém aguenta viver contra um sistema inteiro o tempo todo.

Costumo dizer que as bandas militares ainda procuram seu lugar enquanto instituição. Elas não se encontraram ainda e talvez todo esse conjunto frustrante de experiências colhidas por mim e outras pessoas sejam um tipo de assentamento tectônico natural para que as arestas sejam aparadas e alguém finalmente tome uma atitude em relação à isso. Mas esse continente se move devagar e não há demonstração de uma saída a médio prazo. A impermeabilidade desse meio faz com que as mudanças dificilmente sejam vistas como coisa boa. 

Por outro lado, as saídas existem, e são várias; para começo de conversa, atacar a formação é fundamental. A abertura de concursos independentes para regentes com formação na área seria uma forma de garantir que aquele que está à frente do grupo possua pelo menos a condição mínima de falar sobre aquilo que exerce e conduzir um ensaio adequadamente. A valorização de grupos de câmara dentro dos naipes de instrumentos com trabalhos paralelos ao da banda em si, com horários de ensaios definidos, rotinas de trabalho e apresentações próprias também são uma forma de dinamizar e incentivar. A criação de uma estrutura interna saudável de trabalho, com setores independentes para a digitação de partituras e manutenção de arquivo, o secretariado e trabalhos burocráticos, uma comissão de relações públicas pronta a dar declarações e entrevistas sobre música e afins, projetos dinamizados que incluam a formação de plateias em escolas e eventos públicos.

Além desses, pessoalmente tenho a convicção que um grupo de quarenta profissionais usados única e exclusivamente para atender a uma demanda interna de um desfile semanal é subaproveitar o material humano em mãos. Parcerias entre governos federal, estadual e municipal poderiam usar os voluntários desses meios na criação e manutenção de bandas de música pelo país a fora e que tantas vezes são mantidas muito mais por entusiastas mas sem uma opinião mais adequada sobre a prática do fazer musical.

Ver a banda passar pode ser uma atividade prazerosa e da qual as lembranças são sempre vivas na memória. Mas é preciso notar que, se tal qual na música de Chico Buarque, tudo volta ao normal depois que ela passa, também para as bandas militares os curtos momentos nas suas apresentações podem representar também para eles um acontecimento fora do usual, onde tudo volta ao normal quando retornam à sua realidade pouco estimulante.


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Padres e padres

A Igreja Católica teve a sua longeva história marcada por atritos e discordâncias, seguidos de momentos em que a tentativa de contorná-los podia ou não ser bem sucedida. A Reforma e a Contra Reforma demonstram isso em uma perspectiva mais ampla, com a cisão da verdade cristã e o início de uma série de denominações que se multiplicam a cada dia ainda hoje.

Entretanto, ainda que não seja divulgado com a frequência desejada, as atitudes críticas em relação à postura oficial da ICAR aconteceram e acontecem em níveis mais sutis dentro dela própria. Se é certo que essas divergências não se localizam em aspectos fundamentais da doutrina ou provocariam uma nova cisão, também o é que elas podem ser bastante ruidosas e deixar rusgas e marcas entre grupos diferentes, ainda que não sejam visíveis ao público externo.

Acompanho o enterro de Dom Eugênio Sales e o balanço que é feito rapidamente pelos meios de comunicação à sua atuação no que foi o mais longo episcopado do país. Antes de mais nada, uma coisa é certa: ele pode ter sido uma grande pessoa e sua atitude de proteger perseguidos políticos na ditadura pesam muito a seu favor. Não vou cair no erro fácil de julgar a facilidade de fazê-lo quando a ditadura em si já perdia as forças e não representava um perigo tão grande assim; quem vive a sua época é que sabe os perigos a que é submetido.

Mas, ainda assim é preciso que se pontue sua postura conservadora, convenientemente aliada aos interesses do então cardeal Ratzinger. Mais do que isso, ele combateu o envolvimento político das CEBs (comunidades eclesiais de base), especialmente materializados na doutrina conhecida por Teologia da Libertação. As críticas mais comuns que a Igreja fazia ao movimento eram que essa teologia colocava os pobres como elemento mais importante que Jesus. Embora por si uma justificativa absurda, na prática fica ainda pior porque era uma tentativa de impedir que uma interpretação incômoda dos Evangelhos submetesse os poderosos à justiça terrena.

Por ser do interesse da cúria romana, sua ala foi favorecida em detrimento de bispos como D. Paulo Evaristo Arns, Dom Oscar Romeno ou Élder Câmara, que eram alguns dos expoentes da Teologia da Libertação. Nesse sentido sua biografia se apequena; ele pode ter ajudado refugiados políticos, mas esteve longe, muito longe de ter sido uma voz que se levantou contra o regime ditatorial. Como arcebispo de Salvador, teve a mão muitas vezes beijada por Antônio Carlos Magalhães; ele, em pessoa celebrou a missa de corpo presente do filho de ACM, Luis Magalhães, mais recentemente. Ou seja, ele tinha livre acesso aos poderosos. Em entrevistas, dizia-se amigo de generais do regime e que eles respeitavam sua independência. Não parece ter-lhe ocorrido que esse respeito devia-se simplesmente ao fato da sua independência não incomodar em nada o regime em si. Num mundo de carnívoros, Dom Eugênio foi, no máximo, um herbívoro bem intencionado.

A pomba solta dentro da igreja no seu velório, sem ter onde ficar e atordoada por estar num ambiente estranho acabou pousando no caixão de D. Eugênio, numa clara demonstração que era o local mais plano e com menos pessoas perto já que se encontrava longe das demais pessoas que se aglomeravam para vê-lo. Mas longe dessa interpretação dos fatos, leio que sua permanência ali impressionou os fiéis profundamente e que isso poderia apontar como um sinal de santidade do mamífero que jazia dentro do caixão (como se sabe, a pomba é o símbolo do Espírito Santo para muitos cristãos, sobretudo católicos; e um artigo no blog do Nassif evoca semelhante analogia no candomblé). Se isso fosse verdade, e não cogito essa possibilidade nem por um segundo, seria duplamente irônico perceber que a pomba defecou sobre o caixão. E agora, isso também é um sinal...? Ou não é porque estraga a teoria que se quer montar sobre os fatos?

terça-feira, 10 de julho de 2012

Divagações de uma viagem na Suiça

Outro dia no trem vindo de Milão a caminho de Lugano vi uma cena que foi ao mesmo tempo constrangedora e didática; constrangedora porque não há como não nos ver na humilhação que outro ser humano passa nas situações mais bizarras desse mundo, e didática porque sintetizou numa única cena materializada bem na minha frente, toda uma relação de poder e exploração, com seus desdobramentos.

Um senhor negro viajava na minha frente (as poltronas são dispostas de uma forma que grupos de quatro pessoas ficam sempre frente a frente) desde Milão, quando vi surgir numa das entradas do vagão em que estávamos os guardas da imigração. Eles fazem revistas rotineiras nessas viagens, e eu mesmo já tinha sido interpelado umas quantas vezes. Sempre bem vestidos, os dois arianos claros como o dia me olharam e gentilmente pediram meu passaporte. Perguntas normais, "onde está indo", essas coisas. Me desejaram bom dia com um sorriso discreto que logo se turvou na face dos dois quando olharam esse senhor à minha frente.

Como se visualizassem uma ameaça até então oculta para as pessoas que ali iam, o tom de voz imediatamente se alterou, frontes crispadas e falando em um italiano alto, eles lhe perguntaram quem era e pediram pra que esvaziasse os bolsos. Bilhetes velhos, um pacote de balas aberto, quinquilharias banais pareceram ganhar contornos de arma secreta para os guardas que examinavam os pertences com luvas de borracha. Pego de surpresa, o bom homem perguntou se tinha algum problema, com uma expressão claramente de quem não entende o tratamento que lhe dispensam. A atitude foi mal interpretada pelos arianos que exigiram que o tal senhor se levantasse. 

Começou um verdadeiro interrogatório na frente de todos, com o pobre homem tremendo e visivelmente consternado por ter sido escolhido como exemplo diante de pessoas que não conhecia, e provavelmente jamais conhecerá. Os guardas, por outro lado, pagos para identificar estereótipos dos quais sua sociedade deve ser resguardada; dos sem cultura, sem educação, vagabundos sem alma que tentam destruir o mundo encantado em que vivem. O diálogo se seguiu por vários minutos, mas confesso que a partir de determinado ponto, eu fui deixando-o em segundo plano. A cena diante de mim falava mais, em um tom muito mais berrante e desagradável, e me foi impossível não transferir minha atenção para ela.

Sabemos que dos altos céus um grupo de dez a quinze pessoas divide esse planetinha de merda de acordo com seus interesses; eles controlam sistemas políticos, o consumo, as crenças, a cultura. E suas atitudes nunca refletiram uma única preocupação com as consequências que o jogo de quem tem mais causa nas pessoas. Pois eis que aqui no mundo real, num dos trens do melhor sistema de transporte do planeta e bem diante de mim, dois indivíduos bem empregados de um país onde investimento não falta mas cujo manutenção vem diretamente do investimento de tudo que é roubado e surrupiado em várias países do globo, achacavam diante de si um perplexo senhor, provavelmente vítima dessa exploração em seu país de origem e obrigado a procurar emprego em outras pastagens.

Não havia de quem cobrar a conta. Pouco adiantava, se ele tivesse consciência disso, dizer ali que os papéis estavam invertidos; que ele não era o marginal, que não era sua culpa ter sido explorado ao ponto de sair pelo mundo em busca de sobrevivência. Dizer ali que deviam ser eles a lhe pedir desculpas por apoiar e louvar esse sistema, de um país que sequer se importa de onde vem o dinheiro que irriga as obesas contas que são sua principal fonte de renda. Que ele já havia sofrido o suficiente por uma vida só e que não se fala assim com outro ser humano, especialmente estando triplamente errado como no caso deles.

Mas essas foram divagações da minha cabeça. No mundo real diante de mim, o homem era levado corredor à fora, à vista de pessoas em cujo olhar transparecia, como último insulto, um sentimento de desprezo para com aquele que ali ia, ainda que todos nós, eu, o senhor negro, os guardas arianos, senhores e senhoras de bem ali sentados, tenhamos descendido da mesma ameba e fossemos, por isso mesmo, todos irmãos de uma mesma raça. Convenientemente dividida para que se culpe uns aos outros lá na terra pelo infortúnio que vivem, enquanto seus mandantes lá no céu gozam da reputação de continuarem sendo sagrados.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Sonhos...

Às vezes eu sonho quando durmo; são imagens esparsas, relâmpagos que cortam a escuridão da minha noite silenciosa. Eles vão e vem e neles não lembro de como cheguei ali... onde estava antes, quem são as pessoas que aparecem ali comigo, se estão vivas ou não (um fator que sempre me causa espanto é que a participação daqueles que se foram parece não soar absurda quando nos labirintos do teatro que a mente produz). 

Talvez ainda mais estranho que o rol das pessoas que integram esses relapsos do sono mais profundo seja a surrealidade do enredo que ali se desenrola; as mais banais, improváveis, sem nexo. As peças se torcem a todo momento, e de uma situação feliz, imediatamente pode seguir um desfecho aterrador e insano; de perseguidor a perseguido, de mocinho a um bandido sem caráter.

Para algumas pessoas, esses episódios que tanto devem ter afligido os homens de outras épocas ainda sinaliza um acontecimento nesse mundo real, como um aviso sem data nem hora, uma intermediação incompleta, aberta convenientemente à múltiplas interpretações; pode esperar por dias até que surja um evento que algumas características parecçam similares e pronto, era isso! Pra mim, essas pessoas continuam sonhando, mesmo depois de acordadas.

Meu cérebro é uma tempestade de raios contínuos, com sinapses intermitentes e cuja tarefa é construir modelos que me permitem entender o mundo à minha volta. Parece-me plenamente natural que em algum nível esse labor intelectual prossiga de uma forma enquanto minhas demais faculdades se desligam temporariamente. Mas no fundo não me parece nada mais que imagens sobrepostas como uma proteção de tela que paira incólume sobre o suspirar profundo.

O sonha nada mais é do que uma projeção; um solstício isolado que encontra seu momento de brilho quando o sol da lucidez se esvai com a noite. E quando a aurora chega, ele perde novamente o controle e volta às profundezas de mim, esperando a possibilidade de guiar a própria vida... de por em prática essa sugestão de um mundo que não faça tanto sentido, mas onde sentir seja uma experiência mais profunda, sem restrições ou ligações com a lógica dos eventos no mundo real. Uma utopia daqueles que são ofuscados por serem diferentes, por não poderem ser classificados, mas por isso mesmo, nem reprimidos.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Depois do estupro, a castração...

De tempos em tempos, eu lembro que esse blog existe e que é acessado, embora eu não tenha ideia por quem. Sei que é porque meu contador de acesso me diz. Então me vem uma vontade de continuar, embora tempo tenha sido um artigo de luxo ultimamente.Bom esse post é só pra pontuar uma notícia estarrecedora que soube hoje. 

Se alguém ouve falar que em algum lugar, estupraram crianças e que, aquelas que ousaram denunciar eram castradas, a primeira coisa que qualquer um pensaria seria uma tribo na África em tempos remotos, ou no Império Inca Antigo. Ledo engano. Uma investigação na Holanda publicada no jornal Telegraph, demonstrou que se eu achava que abusar de uma criança era o fim do mundo, católicos daquele país demonstraram que eu sou muito ingênuo. A notícia demonstra que, na década de 1950, as crianças abusadas que acusavam os padres responsáveis eram castradas cirurgicamente como castigo pela denúncia. As crianças abusadas eram castradas cirurgicamente como combate à homossexualidade mas também como castigo por ter denunciado o estuprador. Eu fiz questão de escrever duas vezes, porque eu também não acreditei quando li da primeira. Se você lê em inglês, a notícia está aqui; nela é possível ver que há pelo menos dez casos comprovados de castrações como represálias por denúnicias.

Agora, imagine comigo. Uma criança estuprada, porque é isso que é, um estupro. Abuso é um eufemismo usado quando se trata de falar de padres que escondem seu mal cheiro e podridão por baixo de uma batina hipócrita e moralista. Aí, depois do tralma sofrido, de tudo o mais, ela decide denunciar corajosamente e... uma comissão chega, a leva para hospitais católicos e lá elas eram castradas. Isso ocorreu em uma série de casos.

Depois disso, eu simplesmente não tenho palavras. Nenhuma... juro. Eu tento encontrar as razões que me fazem humano mas fico em dúvida do que realmente sou quando vejo membros da minhas espécie agindo institucionalmente dessa maneira. Não dá pra dizer animais, porque somos animais de qualquer forma, mas sobretudo porque animais irracionais não agem assim. Esse nível de sadismo supera todas as ambições da ficção dos malévolos. Não há nada nesse mundo inteiro que possa conter o sentimento de alguém mesmo que parcialmente honesto ao dar de cara com uma notícia dessas. 

Às vezes, o melhor desenvolvimento daquilo que se quer dizer é ficar em silêncio e assim eu escolho.

terça-feira, 22 de maio de 2012

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Homoafetividade... um vídeo bem preciso.

Acho queo autor do vídeo solta umas coisas nada a ver aqui e ali, mas a quantidade de informação, e sobretudo a qualidade delas, é tão boa que vale a pena. Por muito tempo se ouve falar em cura para quem é gay, como se fosse doença. Algumas pessoas podem não entender porque isso é considerado um preconceito tremendo, além de uma idiotice sem paralelo. Pois bem, esse vídeo demonstra porquê.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

terça-feira, 17 de abril de 2012

Veja, que piada...

A Veja, decidida a entrar para a história como a revista de comédia mais lida no Brasil.


segunda-feira, 9 de abril de 2012

O incrível James Brown...

Um show para ver e ouvir... simplesmente demais.

Old, but very very gold!


Correntes...

Pra quem gosta de correntes, aí vai uma boa:

"Goku tem visto suas lutas, e ele diz que elas estão chegando ao fim. Uma esfera do dragão está vindo em sua direção: se você crê em Goku, por favor envie essa mensagem em mais 20 comentários. Não ignore,voce está sendo testado. Se rejeitares, lembre se: Goku disse: Pessoas da terra, me dêem um pouco de energia. Dentro de 4 minutos receberás uma boa notícia!"


PS: Goku é um desenho animado...

sábado, 7 de abril de 2012

Páscoa... ah, a páscoa.

A história que Jesus morreu e rescussitou por nós é um dos aspectos mais incoerentes e ao mesmo tempo, mais lembrados e adorados pela maioria das pessoas que conheço. A história da barganha com deus, em que alguém tinha que pagar pelos pecados dos demais é uma ideia tão atrasada que remete-se aos primórdios da lingua escrita. O termo "bode espiatório" nasceu, nada mais, nada menos,  que da crença antiga que era possível depositar no lombo do pobre animal todos os pecados de um vilarejo antigo e o bicho era deixado à própria sorte no deserto, para morrer de fome e sede.

O sacrifício de animais em toda Bíblia é de fato uma lei; deus não aceitou o sacrifício de Caim porque eram verduras e frutas. Quando Noé saiu da arca, a primeira coisa que fez foi matar um bichinho desses. Sabe-se que havia um imenso comércio no templo vendendo pombos, cabras, vacas e outros menos afortunados para serem abatidos como forma de sacrifício ao deus que lhes observava. Tal qual os Incas que sacrificavam pessoas ao seu deus-sol, há uma longa tradição em muitas das religiões de usar oferendas à sua divindade como prova de fidelidade partidária e um pedido de perdão. O que não entendo é como isso pode ser moral aos olhos das pessoas de hoje.

Se você fez algo errado,pode ser até que ninguém descubra, nunca. Mas em hipótese alguma, alguma outra pessoa vai poder livrar a sua culpa por isso; podem ir condenado em seu lugar, mas isso não te exime de nada. Da mesma forma, essa doutrina de dizer que cristo sofreu por nós é um claro reflexo de uma época em que se acreditava que era possível para alguém ser o "cordeiro, aquele que tira o pecado do mundo". Nada mais infantil.

Se eu cometi algo de ilícito, que claramente prejudicou a terceiros, é minha obrigação assumir meu erro e pagar por ele. Esperar que alguém me livre disso é um atitude semelhante às crianças que quebram algo e esperam não ser descobertas. Mas pior do que isso, quem acha que não só a minha culpa pode ser tranferida a outro, mas ela recai sobre meus filhos, meus netos, gente que ainda nem nasceu e não sabe de nada do que vai encontrar. Crianças pequenas e indefesas que, nessa sociedade fanática já nasce com a pecha de "pecador". E eles ainda acham graça tirar fotos de crianças ajoelhadas rezando, como se fé fosse virtude.

E como se isso por si não fosse pouco, deus precisava cobrar a conta pelos "pecado" que as criaturas que ele pretensamente fez e, ao que tudo indica, sabia exatamente como iam se comportar por conta do instinto que ele mesmo os dotou. Para isso, ele teria enviado seu próprio filho para ser morto e pagar uma dívida que ele podia ter simplesmente perdoado.

Mas não termina aí, como todo mundo que já assistiu àquele berreiro de programa religioso nas madrugadas na tv bem sabe; o filho é morto, mas... não pode ser morto, porque ele também é deus!! Que sacrifício foi esse então? Nem me pergunte.

Eu ainda assisto abismado esse monte de mensagens de páscoa dizendo que o coelho tomou o lugar de jesus como se fosse ruim; como se esse fosse nosso maior problema. É claro que não é. O coelho pelo menos me isenta de tomar parte dessa história toda que é, sob vários aspectos imoral. Primeiro: não nasci condenado porque meus antepassados fizeram algo... isso não é moral nem aqui nem em lugar nenhum. Especialmente de um que ninguém sabe se existiu. Segundo: mesmo que fosse o caso, como alguém que é credor envia o próprio filho para pagar a dívida???? Se ele faz as regras, porque o sofrimento? Porque ele mesmo não deu mostras do seu perdão infinito e sua bondade que é adulada por tudo que é religião e simplesmente perdoou. Porque essa imagem do nazareno ensanguentado precisa ser um sinal de amor todo ano, em todo lugar?

As pessoas tem medo de perguntar, porque certas perguntas podem dar repostas que elas não querem ouvir. Qualquer pessoa que se questionar friamente sobre isso percebe que a história é crivada de erros. Se eu sou o dono, senhor e mestre de uma criação, se tenho o poder de fazê-los como eu desejo, porque eu os faria dependentes de mim, ou de comida, de água? Porque não, simplesmente fazê-los sem essas necessidades, porque se eventualmente elas faltassem, ninguém precisaria morrer por isso.

Começando claro, pelo meu próprio filho para pagar uma dívida absurda que eu mesmo poderia ter evitado.

Definitivamente, não faz sentido.

Feliz Páscoa!

sábado, 31 de março de 2012

Belchior em "Tudo Outra Vez"

Antes de eu ter saído de Imaruí; antes de muita da água que passou por baixo das pontes que trilhei; antes de tanta coisa que nem me lembro, uma canção que ecoa no silêncio que às vezes me permito... e cuja sensação me faz novo, como inspirar profundamente. O sol na lagoa no poente e eu sentado ali, olhando, com a incerteza no futuro como era natural na minha condição, mas sobretudo com o sentimento que eu daria conta se conseguisse me manter calmo nas adversidades, como a pequena e mal tratada lagoa à minha frente.

Hoje, com essas lembranças reavivadas e olhando em retrospecto, eu percebo que já andei por muitos lugares, mas que meu coração sempre esteve ali; não na cidade, não naquela época em especial, ou no pôr do sol, mas com aquela sensação que a cidade da época captava tão bem ao pôr do sol.

Uma lembrança terna e fraterna da minha época de colegial, onde as canções de Belchior sempre me soaram como o fundo musical de um horizonte possível. Uma dessas tantas gavetas que, depois de muito fechadas, se abrem inesperadamente e te faz voltar no tempo e no espaço.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Reiki = BABOSEIRA

Para os que ainda acham que essa embromação é verdadeira, um bom artigo sobre Reiki e seus resultados completamente nulos. Direto do Bule.

[abre aspas]


Quando a superstição consegue se passar por ciência: o Reiki

Fonte: Campelog
Autor: Felipe Campelo
Editor: Eduardo Patriota Gusmão Soares
Reiki - o poder da impostação das mãos 

Introdução: Para entender as alterações biológicas do reiki, o psicobiólogo Ricardo Monezi Julião de Oliveira testou o tratamento em camundongos com câncer. “O animal não tem elaboração psicológica, fé, crenças e a empatia pelo tratador. A partir da experimentação com eles, procuramos isolar o efeito placebo”, diz. Para a sua pesquisa de mestrado na USP, Monezi escolheu o reiki entre todas as práticas de imposição de mãos por tratar-se da única sem conotação religiosa.

Depois de sacrificados, os animais foram avaliados quanto a sua resposta imunológica, ou seja, a capacidade do organismo de destruir tumores, de acordo com o tratamento recebido (impostação x placebo). Os resultados mostraram que, nos animais do grupo “impostação”, os glóbulos brancos e células imunológicas tinham dobrado sua capacidade de reconhecer e destruir as células cancerígenas.
Isso me impressionou, confesso. Como um trabalho assim é aprovado numa banca de mestrado da USP? Assume-se que o trabalho tenha atendido às exigências da academia e seu conteúdo seja válido e procedente. Mas, talvez, a banca examinadora não tenha conhecimento de diversos trabalhos já feitos na área. Antes de começar a montar uma pesquisa a respeito, Fábio Campelo escreveu em seu blog um breve texto refutando alguns pontos centrais da pesquisa, bem como nos trouxe referência de muitos estudos que apontam para resultados inconclusivos ou definitivamente nulos quanto à eficácia do reiki.

Um ótimo texto para quando você precisar discutir com os terapeutas “alternativos”.

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Antes de passar à discussão, convém definir o que é Reiki. De acordo com o artigo da Wikipédia(a) (traduções e grifos meus):
(Reiki é uma prática espiritual desenvolvida em 1922 pelo budista Japonês Mikao Usui. O Reiki utiliza uma técnica comumente conhecida como cura pelas mãos como uma forma de medicina alternativa e complementar, e é ocasionalmente classificada como medicina oriental por entidades profissionais. Através do uso desta técnica, o praticante de Reiki afirma poder transferir energia curadora, na forma de ki, através das palmas das mãos.)

Em outras palavras, o praticante de Reiki abre as mãos sobre uma determinada parte do corpo, se concentra, e afirma poder manipular ou transferir energias vitais para o paciente, de forma tratar e curar as mais diversas moléstias. Isto torna o Reiki parte de uma corrente conhecida como Vitalismo, cuja premissa é a existência de algum tipo de energia vital que pode ser manipulada ou alterada por adeptos ou praticantes de certas artes. O fato de nenhuma destas energias vitais – ou seus efeitos – jamais terem sido observadas de forma objetiva em mais de 200 anos de investigação científica (Ben Franklin e outros cientistas já investigavam uma modalidade de vitalismo conhecida como magnetismo animal no final do século XVIII, com conclusões fortemente negativas) coloca a plausibilidade prévia deste tipo de modalidade em um valor bastante baixo. Para maiores informações, sugiro ler aquiaqui,aquiaqui, e principalmente aqui (este último fala de Emily Rosa, a pessoa mais jovem a publicar um artigo no prestigioso Journal of the American Medical Association, descrevendo o protocolo e testes utilizados para examinar uma modalidade conhecida como toque terapêutico, extremamente similar ao reiki).

Reiki na Literatura Científica
Suponhamos entretanto que possamos ignorar o fato de que estas energias jamais foram detectadas e que não há qualquer plausibilidade fisiológica ou física para sua existência. Dezenas de estudos foram realizados para testar a eficácia do Reiki (e outras modalidades de vitalismo) ao longo dos anos. O que a literatura médica tem a dizer quanto a isto?

Uma revisão da literatura publicada em 2008[1] examinou 205 estudos potencialmente relevantes utilizando Reiki para o tratamento de uma série de moléstias. Dentre estes 205 estudos, apenas 9 possuíam os critérios mínimos de qualidade metodológica para inclusão na análise (randomização, cegamento duplo, descrição detalhada do protocolo utilizado, etc.). Os critérios de seleção empregados na revisão foram:

(Testes randomizados e controlados foram incluídos no estudo nos casos onde o estudo foi conduzido em humanos, tanto recebendo somente reiki quanto reiki associado a uma modalidade convencional de tratamento. Testes onde o reiki foi comparado contra qualquertipo de grupo controle foram incluídos. Testes onde o reiki foi utilizado como parte de intervenções complexas [N.T.: isto é, em associação com muitos outros fatores ou tratamentos] foram excluídos. Estudos onde o objetivo era desenvolver metodologias dos procedimentos de reiki, sem variáveis clínicas de resposta definidas, foram excluídos. Aqueles que não reportaram dados ou comparações estatísticas também não foram utilizados. Restrições de língua não foram impostas. Dissertações e resumos foram incluídos. Cópias impressas de todos os artigos foram obtidas e estudadas completamente.)

Após o agrupamento dos dados e subsequente análise dos dados, os autores concluíram:

(Concluindo, a evidência é insuficiente para afirmar que o reiki seja um tratamento efetivo para qualquer condição. Assim sendo, o valor do reiki [N.T.: enquanto terapia] permanece sem provas.)

Em uma outra revisão da literatura publicada no próprio Journal of Alternative and Complementary Medicine[2] (que não é sequer um dos mais rigorosos em termos de evidência) concluiu que:

(As severas limitações metodológicas e de publicação dos escarsos estudos existentes sobre reiki não permitem alcançar qualquer conclusão definitiva a respeito de sua eficácia.)

Outros estudos de grande volume a respeito do uso de reiki para intervenções diversas foram organizados pelo National Center for Complimentary and Alternative Medicine, e são listados no NCCAM Watch. Os resultados obtidos também são pouco animadores:

Reiki para tratamento de fibromialgia:
Encerrado em 2005.
Conclusões: reiki não foi considerado eficaz no tratamento de fibromialgia.

Reiki em pacientes com AIDS em estágio avançado:
Concluído em 2003.
Conclusões: os resultados não foram publicados na literatura (o que já diz muita coisa).

Reiki para neuropatia dolorosa e fatores de risco cardíaco:
Concluído em 2004.
Conclusões: os resultados não foram publicados na literatura (de novo, já diz muita coisa).

Qualquer um familiar com a literatura científica, e em particular com a literatura médica, consegue entender claramente o que está implicado em todas estas conclusões: a despeito dos quase 90 anos de prática, não há na literatura nenhuma evidência que o reiki funcione melhor que um placebo similarmente aplicado, e que qualquer efeito específico se deve à sugestão do paciente (ou à autosugestão do praticante). Mais recursos para o leitor interessado podem ser encontrados aqui (em texto) e aqui (episódio 29 do excelente podcast Quackcast).

Os Experimentos da Revista Galileu
Mas e os experimentos descritos na reportagem da Galileu? Não representariam uma nova vertente na pesquisa do reiki? (a esta altura, o leitor observador já deveter percebido quepesquisa do reiki provavelmente é uma área tão científica quanto aerodinâmica de unicórnios). Bem, como diria Mark Crislip, lets look at the facts:

A reportagem trata principalmente dos experimentos do psicobiólogo (!) Ricardo Monezi a respeito dos supostos efeitos do reiki em ratos com câncer induzido. Nas palavras de Monezi:
“O animal não tem elaboração psicológica, fé, crenças e a empatia pelo tratador. A partir da experimentação com eles, procuramos isolar o efeito placebo”
Reiki (quase um Hadouken)
Monezi, que segundo seu CV Lattes trabalhou com metodologia experimental, de cara já coloca uma afirmação que não é tecnicamente verdadeira: animais estão sujeitos *sim* a efeitos similares ao placebo! Este fenômeno é conhecido já há bastante tempo na pesquisa veterinária e médica, e é muito bem explicado aquiaqui e aqui. De forma breve, o placebo não precisa ocorrer necessariamente no indivíduo (humano ou não) receptor do tratamento. No caso de pesquisa com animais, por exemplo, estudos que não sejam duplo-cegos (ou seja, onde o animal de teste não sabe se recebeu tratamento ou controle, mas o administrador da intervenção sabe), observação seletiva e tendências pessoais (a famosa e quase inevitável tendência à confirmação) são praticamente garantidos.

Há outras formas através das quais efeitos similares ao placebo podem ocorrer em pesquisas com animais, mas não vou me alongar demais nisto: quero chamar a atenção aqui é para o fato de que, de acordo com o que podemos inferir da reportagem, os experimentos de Monezi carecem exatamente do tipo de controle duplo-cego que menciono acima, o que – como expliquei – abre as portas para a infiltração de todo tipo de tendência pessoal nos dados.

A métrica de avaliação dos resultados descrita (capacidade do organismo de destruir tumores) é vaga o bastante para não permitir uma discussão mais a fundo em relação a este aspecto. Quaisquer que sejam as especificidades da métrica utilizada, entretanto, o não-cegamento do experimentador invalidaria completamente o protocolo experimental utilizado.

Outra razão para uma saudável dose de ceticismo é o fato de o trabalho descrito na reportagem não ter sido publicado em nenhuma revista científica com revisão por pares – muito menos naquelas em que resultados tão impressionantes como os relatados deveriam estar – JAMA, NEJM, talvez até a Nature. Embora o pesquisador tenha defendido sua dissertação de mestrado sobre o assunto, o fato de seus resultados não terem sido publicados na literatura técnica especializada (onde estariam sujeitos às críticas e comentários da comunidade científica em geral) não costuma ser um indicador de qualidade em pesquisa.

Examinando um pouco mais de perto a dissertação do Ricardo Monezi (onde os experimentos comentados na Galileu são relatados), observei alguns outros aspectos perturbadores:

1) a revisão da literatura em terapias energéticas é feita de forma completamente crédula, sem nenhuma referência a trabalhos refutando estas modalidades (como, por exemplo, o da Emily Rosa no JAMA);
2) o tamanho amostral utilizado (20 indivíduos/grupo) foi pequeno o suficiente para que flutuações estatísticas pudessem ser significativas, mesmo descontando os outros problemas metodológicos;
3) como eu havia suspeitado, na descrição da metodologia utilizada não há nenhumamenção ao cegamento dos experimentadores ou dos responsáveis pelas análises posteriores. Ao contrário, a descrição do procedimento inclui as seguintes imagens, também reproduzidas na reportagem da Galileu:
Fotos do experimento com Reiki
Nem sinal de cegamento do experimentador

4) não há também nenhuma referência a medidas para prevenir contaminação cruzada das amostras;
5) O teste estatístico utilizado (Student t) requer a satisfação de premissas fortes, que não foram validadas durante ou após a análise estatística (normalidade, igualdade de variâncias, independência das amostras).
5.a) Nota 1: os dados reportados na dissertação me permitiram verificar a premissa da normalidade para a maioria dos conjuntos. Entretanto, a premissa de isoscedasticidade – isto é, igualdade de variâncias – foi violada brutalmente em todos os testes realizados, o que possivelmente implica na não-validade do teste-t utilizado, a menos que precauções extras tenham sido tomadas – o que não foi reportado no texto.
6) Ainda na parte da análise estatística: o autor falhou em corrigir seus valores de significância para múltiplas hipóteses. Além disto, o trabalho testa uma grande quantidade de hipóteses mal-definidas, frisa aquelas onde anomalias foram observadas, e busca – na discussão final, a posteriori da execução dos experimentos – ajustar quaisquer conjecturas às observações, o que é uma prática falaciosa de análise conhecida como caça por anomalias;

Conclusões

Os experimentos e resultados relatados na revista Galileu não fornecem evidências suficientes para quaisquer afirmações a respeito do efeito do Reiki em ratos com tumores. A literatura médica possui refutações bastante definitivas desta prática, tanto de um ponto de vista de plausibilidade biológica quanto de efeitos clínicos. Reiki é uma modalidade de pensamento mágico pré-científico, e pessoas deveriam gastar seu tempo ou dinheiro com coisas mais produtivas e eficientes.
Para aqueles que tem o hábito de argumentar que “pelo menos não faz mal”, sugiro uma consulta cuidadosa aos arquivos do What’s the Harm.

(a) - Em tempo: o artigo da Wikipédia em Português é escrito a partir de um ponto de vista completamente crédulo em relação às medicinas alternativas em geral, e ao Reiki em particular. O artigo equivalente na Wikipedia em Inglês, geralmente muito mais bem embasada, traz uma seção sobre a completa falta de validade do Reiki de um ponto de vista científico.


[1] M. S. Lee, M. H. Pittler, E. Ernst, “Effects of reiki in clinical practice: a systematic review of randomised clinical trials“, International Journal of Clinical Practice 62(6): 947–54, 2008.
[2] S. vanderVaart, V.M.G.J. Gijsen, S.N. de Wildt, G. Koren, “A Systematic Review of the Therapeutic Effects of Reiki“, The Journal of Alternative and Complementary Medicine 15(11): 1157-69, 2009.

[fecha aspas]





Meu comentário

Não acho que quem acredita vá se deixar convencer por esses argumentos, e não pela credibilidade que eles tem; a questão aqui é exatamente o oposto. Quem acredita que Reiki funciona, não quer saber de argumentos, especialmente se eles demonstram a falácia que o movimento é.

Então, acho que esse artigo é bacana para as pessoas que pagam por esses tratamentos e acham que isso trará algum benefício. Faça um favor a si mesmo: guarde seu dinheiro para um bom médico, se é o que precisa.

Proselitismo...

Passei um bom tempo sem publicar o que quer que fosse aqui; sem internet, em lugar estranho é osso pra qualquer um. Por outro lado, agora deu uma estabilizada, e como venho acompanhando as notícias pela internet, esbarrei como de costume nesses problemas cotidianos que surgem no embate de ideias, ou de ideias e maluquices, se você preferir.
 
Começando pela ideia infeliz, pra dizer o mínimo, de uma professora de história no ABC paulista que usava vinte minutos diários da sua aula para...orar.


E como desgraça pouca sempre é bobagem, acabou que o primeiro que ousou não participar da oração porque era de outra denominação, foi exposto a bullying pelos próprios colegas. E pra piorar ainda mais,  a professora era de história. Você pode achar que não tem nada a ver ela dar aulas de história e que isso não vem ao caso, porque seria o mesmo se ela desse português ou matemática. Mas não é. Como professora de história ela deveria ter algo que as pessoas comuns não tem, que é o conhecimento dos erros no passado; ter ao menos ciência do que o movimento religioso realmente representou e representa na sociedade. O que ela ensinava quando tinha de falar sobre a Peste Negra, a Inquisição, o massacre dos huguenotes, o Holocausto? Que aulas de história eles estavam tendo afinal?? Se o que se ensinava ninguém sabe, sabe-se por outro lado que ela ameaçava dar zero a quem não orasse. Um exemplo didático que deixaria o ditador mais sorrateiro e hipócrita com inveja.

O trofeu dos sem noção ainda aguarda porque tem mais gente na fila; e como tem. Uma psicóloga do Paraná resolveu que não há distinção entre a igreja que frequenta e o consultório onde exerce a profissão. Resolveu nadar na contramão do que é considerado consenso entre todos os seus pares (laicos), e afirmar que homossexualismo é doença. Quando confrontada pelo Conselho de Psicologia, delirou abertamente ao dizer que estava sendo vítima de um complô ateísta. "Vítima" é uma palavra alegórica aqui e você verá muitos religiosos a usando para sua defesa, enquanto achacam os verdadeiros perseguidos nessa história toda.

Nos posts que coloca no Twitter, ela pede auxílio da oração de outros fiéis, diz que essa é uma provação que o diabo lhe impõe, além do que seu trabalho é "a ciência de Deus (...) Seu código de ética é a Bíblia. Seu psicólogo, Jesus. Seu juramento, “Eu voltarei”". Ou seja, você paga uma consulta à psicóloga para tratar de problemas reais, e acaba levando de brinde uma enxurrada dos seus delírios pessoais, incluindo toda uma pleiade de códigos e amigos que, sendo imaginários, só ela vê, ouve e conversa.
 
Mas quando se refere ao Conselho que deveria prestar contas, a santidade dos seus argumentos rapidamente se turvam para dar lugar ao que na verdade eles aparentemente escondem: o preconceito grosseiro e rasteiro, a arrogância e a infantilidade.  

 

Note que ela clama por alguém "macho", um termo que seria discutível nesse contexto para qualquer pessoa, mas que no de uma psicóloga é praticamente um absurdo. Além do que, ela demonstra ou quer fazer crer aos outros que o fato que parece importar aos seus "acusadores" não é a sua falta de compostura profissional, mas o quanto sua crença os incomoda.

O que esses casos tem em comum é simples de identificar; são pessoas, macacos pelados como eu e você, que um dia alguém botou na cabeça que estavam destinados a serem balizas morais dos outros. O que isso quer dizer é o de menos para quem desenvolve esse tipo de patologia. Para chegar a esse ponto, tiveram de abandonar completamente o bom senso, o senso crítico, sem falar, claro, no famoso e tão útil nesses casos, o senso de ridículo. Trocaram os questionamentos que nos deram os alicerces da civilização moderna pelo jogo de pique-esconde e o ta-ti-bi-ta-te metafísicos.

Essas pessoas deixam ver mais de si mesmas do que gostariam através da sua atitude. São pessoas que sofrem de algum tipo de carência gigantesca, e tem uma necessidade deprimente de se sentirem importantes, destemidas, heróicas; mais ou menos como as histórias de mártires que ouviram no passado.

Não gosto de crianças mal educadas, mas definitivamente, ver pessoas adultas falando como crianças é de dar azia em qualquer um. Façamos o seguinte: quer pregar? Vá para a igreja, onde as pessoas pretensamente vão para ouvir coisas desse tipo. Agora, não use sua posição social para impingir suas crenças e fantasias, porque diferente do que essas pessoas pensam, eu não preciso ser salvo. Sou um cidadão livre, com direito a acreditar no que eu quiser sem ser importunado, mas acima de tudo, eu mereço ser respeitado por isso, deixando os espaços públicos livres de delírios pessoais. 


  

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Carnaval em Bellinzona

Imagens de uma festa muita bacana, com coreografias e fantasias bem feitas.

















sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A revolta, por Humberto P. Charles

O texto não é meu e ponho entre aspas. Meus comentários aqui são somente pra dizer que achei o texto esclarecedor, preciso e direto. Segue:

"“ATEUS REVOLTADINHOS”

 
Se tem uma coisa que todo ateu já ouviu uma vez é que ele é revoltado. Que ele é nervoso ou rancoroso. Alguns religiosos justificam essa “característica” como sendo oriunda do fato dele “não ter deus no coração”, de ter um “vazio dentro de si”.

O ateu em geral também é invariavelmente condenado por ser muito racional. Eu mesmo já ouvi isso com a pior conotação possível. “Ah, mas você é muito racional, nunca será feliz assim”. Já deveria estar acostumado, mas ainda me impressiono quando ouço alguém criticar a racionalidade e dar-lhe um sentido negativo. Bom, parece que os religiosos não entendem mesmo que, nós ateus, só conseguimos ser felizes em nossa racionalidade. É isso que nos traz paz. Nossa capacidade de separar o real do ilusório e ainda assim apreciar tudo o que a vida traz de belo.

Como se não bastasse o ateu, segundo pesquisas, figurar em primeiro lugar na lista de preconceitos, sendo colocado à frente dos negros, dos homossexuais, dos usuários de drogas e das prostitutas, ele ainda é considerado um ser revoltado, uma pessoa raivosa.
Somos divididos em estúpidos sub-grupos baseado na patética argumentação de que se você diz que não crê em deus você é ateu, mas se você não crê em deus e diz “porque” você não crê em deus você é neo-ateu. Brilhante né?

É claro que nunca vi grupos de ateus se reunindo para agredir homossexuais na Avenida Paulista ou na orla de Copacabana. Nunca vi também associações de ateus colocarem capuzes brancos e queimarem negros. Tão pouco vi ateus dizendo que quem não concorda com eles será torturado por toda a eternidade.

Mas dessa vez sou obrigado a concordar com os religiosos. Isso mesmo: NÓS ATEUS SOMOS REVOLTADOS! Pronto admito para quem quiser ouvir. Somos revoltados e pronto.

Somos revoltados porque existem professores de ciência de escolas públicas que ainda se recusam a ensinar a evolução, somos revoltados porque a Igreja Católica não admite o uso de preservativos em continentes como a África onde a Aids é uma doença endêmica, condenando milhares a morte por via indireta.

Somos revoltados, porque missionários espancam suas mulheres quase até a morte porque afirmam que é a vontade de deus que elas se submetam a seus maridos. Somos revoltados porque em países como a Índia, com seus néscios sistemas de castas, pessoas são doutrinadas para acreditar que sua pobreza é merecida e fruto do carma de vidas passadas onde foram ruins.

Somos revoltados porque até hoje pessoas são mortas e mutiladas na África por facões cegos bradados por padres católicos que acusam pessoas de bruxaria. E antes que perguntem: sim, isso acontece hoje, não estou falando da idade média não.

Somos revoltados porque pessoas são ensinadas a odiarem sua sexualidade sob pena de irem para o inferno. Somos revoltados porque mulheres são convencidas a não exercer sua feminilidade, mesmo que existam igrejas onde a poligamia masculina seja permitida. Igrejas onde as meninas são convencidas a se casarem contra a sua vontade para não serem cobradas em suas pós-vida.

Somos revoltados por ensinarem crianças a odiarem homossexuais, por as doutrinarem a reprimir a sua homossexualidade e a odiarem seus corpos. Somos revoltados por dizerem que se forem gays são doentes e precisam “de cura”.

Somos revoltados porque pais religiosos frequentemente expulsam seus filhos de casa por serem gays quando o certo, o “cristão” a se fazer, seria amar-los e acolher-los, assim como um tal de “Jesus” faria.

Somos revoltados porque humilham e agridem quem é diferente deles com uma mão enquanto na outra seguram algo que é chamado de o “bom livro”.

Somos revoltados porque obras de arte de valor inimaginável como os Budas de Bamiyan foram destruídas pelos Talibãs, por aversão à “idolatria”. Somos revoltados pela pratica monstruosa da infibulação, que consiste em mutilar o clitóris de meninas e mulheres a fim de frear-lhes a sexualidade, e isso tudo com fundamentação em interpretação teológica.

Somos revoltados com a teocracia islâmica onde um o simples desobedecer ao pai ou mero namoro fora do casamento e da religião é punível com açoitamento público e dependendo do caso até a pena de morte por apedrejamento.

Somos revoltados quando sabemos que crianças de 10 anos de idade são forçadas a casar por mero atendimento à crenças e costumes religiosos oriundos de uma época onde as pessoas defecavam no mesmo local em que comiam.

Somos revoltados porque aqui mesmo no Brasil, onde uma outra criança de 9 anos foi estuprada e engravidou e ter um aborto autorizado, ser comunicada que tanto os médicos que fizeram o procedimento, assim como a família que a permitiu, foram excomungados pela Igreja Católica. Somos revoltados também, porque essa mesma igreja Católica não teve essa mesma atitude para com o animal que praticou tal estupro e não o excomungou também. Ora, que pesagem é essa? Que mensagem é essa perpetuou?

Nós ateus nos revoltamos com o fato de que essa mesma Igreja Católica só reconheceu e se desculpou em 1992 pela injustiça que praticou com Galileu em 1663. Nos revoltamos porque 300 anos é muito tempo até se pedir desculpas.

Nós ateus ficamos revoltados quando vemos pessoas diariamente sendo roubadas e abusadas em sua fé por pastores que lhes passam a perna sem a menor piedade. Por larápios disfarçados de cordeiro com suas mansões na Flórida e seus aviões a jato.

Nós ateus ficamos revoltados quando ouvimos que forças sobrenaturais ou entidades atuam e produzem efeitos sobre um mundo natural, mas são totalmente invisíveis e indetectáveis nesse mesmo mundo natural.

Nós ateus ficamos revoltados quando religiosos nos afirmam que não podemos julgar ou discernir os atos ou omissões divinas faces às tragédias do cotidiano e dizer que deus é mal por isso, vez que nosso critério, por ser humano, é falho, quando esses mesmos religiosos, usam esse mesmo critério humano e falho, para dizer que deus é bom e justo.

Nós ateus somos revoltados vez que não aceitamos com passividade o fato da humanidade se matar de forma rotineira com base em livros sagrados contraditórios e sem nenhuma justificativa que os sustente a não ser a fé de quem os professa.

Nós ateus nos revoltamos quando assistimos aviões serem jogados a 500 KM por hora contra prédios. Nos revoltamos quando vemos cristãos matarem muçulmanos e muçulmanos matarem judeus em um loop de violência infinita em nome de um deus que nunca apareceu nem para um cafezinho.

Nós ateus nos revoltamos sim. E temos orgulho dessa revolta. Temos orgulho de propagarmos o pensamento crítico, o embasamento científico doa a quem doer. Temos orgulho de colocar o dedo na ferida. Temos orgulho de dizer que todos que afirmam suas certezas deveriam ter a obrigação de demonstrar-las com evidências ao invés de empurrar a sujeira para baixo do tapete.

Nós ateus temos vergonha quando religiosos aduzem que a terra foi feita para eles quando sabemos que somos apenas poeira estelar e que a humanidade é um mero piscar de olhos na vastidão do tempo e do espaço.

Nós ateus ficamos revoltados quando religiosos nos chamam de radicais e intolerantes por dizermos: “nós não concordamos com vocês”, “que evidências vocês tem para corroborar o que afirmam”.

Nós ateus nos revoltamos quando religiosos querem tentam passar a imagem de que a revolta ateísta pela religião ocorra não pela religião em si e suas mazelas de clareza meridiana, mas sim porque há algo de errado conosco.

Mas sobretudo, nós ateus nos revoltamos, porque vocês religiosos não se revoltam. Porque não se indignam com tudo o que acontece ao redor do mundo em seu próprio país nas bem nas suas barbas. Que legado deixarão para seus filhos? Um país baseado nas ideias da bancada evangélica? É isso mesmo!?!?! Que não reclamem depois!

Por derradeiro que fique claro que, enquanto essas injustiças forem praticadas, esse tapa na cara do bom senso e da postura intelectualmente mais correta continuar, vocês religiosos terão que lidar com esses “ateus revoltados”.

Esses mesmos ateus revoltados que, durante muitos séculos e até nos dias de hoje, foram e são, perseguidos torturados e mortos. Esses ateus revoltados que, ao longo da história, contribuíram para que a ilusão nunca sobrepujasse a razão. Que trabalharam incessantemente para entregar maravilhas científicas. Que de forma inelutável sangraram para que o ser humano fosse reconhecido por sua mortalidade, falibilidade e racionalidade e ainda assim fosse imprescindível. Termino lembrando o belo questionamento de Douglas Adams: Será que não é o bastante ver que um jardim é bonito sem acreditar que ha fadas escondidas nele?”. Penso que sim…e vocês?

Humberto P. Charles"

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Contos suiços 2

Duas brasileiras...

(irritantemente inaudivel)
-Oi... lembra de mim?

-Não, eu deveria?
-Eu estive aqui duas vezes há uns seis meses atrás.
-Ah, deve ser por isso, é muito tempo e recebo muita gente aqui.
(risinhos)
-Você ia voltar pro Brasil, não?
-Pois é, eu voltei... mas resolvi voltar de novo.
(ri de novo sem se dar conta que ninguém acha graça)
-Mas... sabe... é que sou arquiteta de interiores, vim pra cá há uns anos estudar Feng Chui... acabei descobrindo o meu 'eu' interior, minha vida se transformou aqui como eu nunca imaginei... é quase parte do que sou.
-Hm... bom saber. Mas você queria voltar para o Brasil, não?
-É, por causa da família... você sabe, saudades e tal.
-Mas então?
-Então eu fui, fiquei lá um pouco e precisava voltar. Percebi que não era completa lá.
-Desculpa, não entendi... onde você se sente bem.
-Lá e aqui... lá eu tenho amizades, amigos. Também aproveitei para ir até o Planalto Central e meditar à espera dos discos voadores que têm aterrizado lá.
-Viu algum?!
-Não... mas comprei esse chaveiro, não é uma gracinha?
-... Tá, mas tava falando que tá de volta...?
-Ah, sim... eu precisava de espaço.
-Mais espaço que no Brasil daquele tamanho?
-Ah, mas é que a energia lá não tava boa, sabe... as coisas são assim pra mim, quando é pra ser, não tem jeito.
-Mas e voltou porque, mulher...? Parece tão triste...
-Ah, você percebeu?
(fingindo mal uma surpresa)
-Nada não... eu sou assim. Acabou que não vim direto... parei na França por dois meses. Quis ver onde o Kardec viveu, mas me perdi...
-Que Kardec? Allan Kardec?
-É, eu gosto de estar em contato com pessoas de bons fluídos... mas como eu falava, me perdi naquela droga de cidade, aí resolvi: "vou pra Inglaterra". E fui.
-Londres?
-Não, aquela cidade é horrorosa. Fui para uma cidadezinha do interior, linda, onde teve alguns pousos confirmados.
-Pousos?
-É, ficaram conhecidos como círculos nos campos de trigo...
-Mas isso deu na tevê; dois rapazes que fizeram.
-Nããoo...!! Isso é para as pessoas não se apavorarem.
(se curva na direção da outra e sussurra)
-Sabia que eles estão me observando?
-...
-Não olha agora, mas aquela máquina de café no outro lado da rua é um deles.
-... Mas... (engole em seco e tenta reconduzir a conversa) você falava que aqui é que se encontrou?
-Simm! Adoro isso aqui. Mas as vezes é tão triste, sabe...?
-O que?
-Assim, viver longe do Brasil...
-Mas você tem de se decidir. Lá ou cá.
-Mas eu gosto dos dois, e não consigo decidir.
(faz uma pausa rápida e volta a cochichar)
-O que foi isso?
-Isso o que? Tá me assustando...
-Não ouviu?
-Não...
-Deixa pra lá, deve ser só o vento.
-Não tem vento.
-Não? Hm... Acho que eu vou indo então.
-Claro, apareça sempre.
-Porque?
-... Como assim? Porque você é bem vinda aqui.
-E porque não seria?? Quem é você??
-Eu?
-Onde está a Maria?
-Aqui nunca teve Maria nenhuma.
-Bom, quando ela aparecer, diz que eu mandei lembranças.
-Tá, beijinho, querida.
-Tchau...
(assim que ela sai, a outra corre e fecha a porta. Se senta pra respirar e ouve a batida no vidro atrás de si. Olha assustada e de sobressalto vê a outra com o rosto colado no vidro a poucos centímetros dela)
-Aí!!! Que susto!
(com voz abafada e quase chorando)
-Quer tomar um café comigo?
-Não posso! Vou trabalhar agora.
-Tudo bem, eu volto amanhã.
-Claro.
-Sabe, acho que vou pra China ver a muralha...
(e vira as costas sem parar de falar e caminha até a outra perdê-la de vista na neve).

...